Mostrando postagens com marcador Fontes carinhosas e inspiradoras. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Fontes carinhosas e inspiradoras. Mostrar todas as postagens

19 de julho de 2026

O CAMINHO DO RISCADO parte 05 (final)

             A ideia de As tentações de Santo Antão  foi algo que vinha alimentando desde que terminara os desenhos da terceira parte de Yeshuah  em 2013 e, como sempre faço quando trabalho em minhas histórias, e com certeza a maioria dos escritores/roteiristas também, vinha montando a trama em minha cabeça e só dois anos depois, finalmente, escrevi o roteiro, muito impulsionado inclusive,  por uma primeira possibilidade de publicação na época, antes da Devir Editora que veio a  consolidar em 2024. Porém, mesmo tendo achado minha "nova cara" para meus desenhos, não julgava que aquilo que havia feito para Aymará se ajustasse nessa nova hq. Para o Santo Antão, as páginas precisariam ter um ritmo mais tranquilo, muito contemplativo, o cenário, o deserto, conversaria com o leitor. A mesma carga e importância visual que havia realizado em Yeshuah, só que na síntese, na economia e muito vazio nos cenários, sem detalhar muito, só o fundamental, para que o leitor completasse em sua cabeça. Um jogo gráfico e estético interessante, pois traria a pessoa, um pouco mais para dentro da trama.

A cada página desenhada, a cada sequência onde o cenário, a natureza eram elementos fortes da história, a sensação de ter conseguido nos poucos traços, ter criado um ambiente silencioso e misterioso, era plena: a realização dentro de minhas possibilidades. Havia conseguido unir a intenção com o imagético. A hq com cento e poucas páginas, com uma trama basicamente passada em um único ambiente, estava embalada pela contemplação, um silêncio atrás de muito texto que há entre as inúmeras discussões do protagonista com o antagonista. Acredito que essa hq seja o encontro do meu objetivo com esse novo traço, esse novo acabamento no meu desenho, que durante muito tento esbocei na cabeça e depois no papel.  A partir de então, fui acertando esse lado técnico da finalização, do desenhar, da síntese em trabalhos realizados posteriormente como a adaptações de Iracema e O vampiro, assim como A prisioneira, todas coloridas,  onde pude exercitar essa questão dos espaços vazios, mas ao invés do preto e branco, como no caso de Santo Antão, teve a cor. Devo dizer que nesses processos foi pensado em novas possibilidades, justamente para trabalhar com o colorido, mas como nada ainda foi feito e ainda a coisa toda, digamos assim esteja no campo da reflexão, prefiro obviamente deixar isso para comentar mais adiante.                                                                                    Ainda falando um pouco mais sobre esse elemento contemplativo, da natureza agir um pouco mais que apenas cenário na história, voltei a trabalhar com essas intenções em Mulher-Diaba no rastro da perdição, lançada no final de 2025 e na inédita A Ursa da Tundra, que provavelmente será lançada esse ano de 2026. Ambientes que diferem em si: sertão agreste e regiões geladas das terras nórdicas, mas que estão inteiramente ligados com o que foi 

feito em Santo Antão, no caso, o deserto no Egito. Tudo isso, claro, algo que já trouxe para meu trabalho. 

            Durante todo esse tempo de estrada na coisa de fazer quadrinhos e mesmo o ilustrar, separando essas duas formas de expressão, que convergem para uma coisa só, obviamente, nunca me detive na intenção de ter a cara do meu desenho, algo sem dúvida muito importante para qualquer artista: ser reconhecido pelo seu traço, seu estilo, sem mesmo precisar ler o nome para saber  autoria. Difícil mensurar de uma maneira didática isso, e provavelmente não seja nem preciso. Talvez a inquietação,  a sensação que ainda falta muito para se descobrir dentro do meu campo de possibilidade criativa me leve a não me julgar dono de nada que possa dizer meu, compreendem, amigos? Uma ocasião, comentaram  sobre o desapego que tenho com meu trabalho, essa reflexão foi feita por um youtuber durante uma entrevista a respeito da hq O santo sangue,  pelo fato de ter escrito o roteiro para que eu mesmo a desenhasse, mas posteriormente acabei encaminhando para o tremendo Marcel Bartholo  ilustrar, resolução por sinal, acertadíssima, pois o trabalho desse querido artista com minha história foi magnífico. E de certa forma, penso ser isso com meu desenho.  É a forma de expressar minha arte que estou usando agora, mas espero que mude novamente daqui algum tempo e devo confessar: estou fazendo as equações mentais  para derivar do que faço hoje. Quem vai saber onde vai dar? O tempo, sem dúvida.

            Interessante é perceber as infinitas comparações que são feitas: Ah, seu traço lembra muito fulano, cicrano... ou, Fulano (referido artista) ficaria orgulhoso de ver que seguiu a linha dele... enfim, muitos elogios, acredito, provavelmente sinceros, mas que no meu julgar, e me desculpem essas pessoas que tecem esses comentários, mil perdões mesmo! trazem um certo incômodo, pois nessa série de textos que compartilhei com vocês, busquei trazer todo esse processo de busca interna que luta para se exteriorizar, se plasmar na arte que se faz, no caso. Reduzir meramente à semelhança com desenho de outro artista, por mais que haja e isso não estou negando, é não perceber as inquietações que movem quem faz arte, pois  fazer é muito mais que desenhar, escrever, cantar, interpretar, o que for, tudo isso é preciso técnica, é a forma que se tem para se expressar.  E expressar é nesse ponto, a inquietação, o fazer arte. Ela é preciso, e não importa, aí quero caminhar para outro campo, se e não é percebida pelo público, se ela não é entendida, ou simplesmente comparada, ela primordialmente precisa existir e ser executada: a busca precisa existir. Se percebida, perfeito, se não, perfeito. Mas ela precisa existir. É caminhar pela estrada, voltar para casa, ficar um pouco e depois, sair novamente, para ver o que ainda não se viu, como uma velha canção de estrada dizia.

            Tudo isso que trouxe para vocês, não é uma verdade, é uma experiência pessoal, que pode ser e deve ser de tantos, mas que cada um vive por si. Compartilhar é preciso, pois não é um segredo, mais uma vez, cada um a vive por si. 




16 de maio de 2026

A ODISSÉIA DE NINGUÉM

             Falando um pouco mais dessa talentosa e querida amiga Adriana Avelino, ela recentemente me homenageou criando essa página, que talvez... talvez... possa ter continuações, chamada Laudisséia. Pelo título, obviamente dá para perceber os elos, a simbologia da coisa toda e o mais interessantes, a ideia/intenção, nasceu de alguns dos muitos papos nossos à distância, via aplicativo.

            Desfrutem!


            Para conhecer mais do trabalho da Adriana Avelino é só clicar aqui

30 de março de 2026

TEMPO DE MATURAÇÃO

            A última postagem que trouxe aqui nesse meu tão querido e velhinho blog, sobre as capas dos gibis do Zé do Caixão que produzi ao longo desses anos de trajetória, me suscitou a lembrança de uma situação vivida por ocasião da produção do álbum Zé do Caixão lançado pela Editora Marsupial em seu selo Jupati Books em 2016. Nessa publicação fora compilado as duas adaptações que fiz dos dois primeiros filmes do personagem, À meia-noite levarei a sua alma e Esta noite encarnarei em teu cadáver, sendo que a primeira adaptação havia sido publicada em 1995 pela Editora Nova Sampa e a segunda, apenas uma parte dela num projeto de minissérie, lançada pela Taquara Editorial, que acabou não se concretizando por problemas da casa publicadora, ficando apenas no primeiro número do que seria em três partes. Bem, tudo isso mais ou menos comentei na postagem anterior.

Lucio Luiz, dono da Editora Marsupial
            Durante o Festival Internacional de Quadrinhos - FIQ , tradicional e fundamental evento da nona arte brasileira que acontece em Belo Horizonte/MG, mais especificamente a nona edição, de 2015, foi que o pesquisador de quadrinhos e também dono da Editora Marsupial, Lucio Luiz, me veio com a proposta de lançar um álbum juntando essas duas hq's, numa edição caprichada, com nova capa, enfim, trazendo um belo projeto editorial. À princípio, a ideia para mim foi absolutamente aprovada pela enfim, publicação de Esta noite encarnarei em teu cadáver, que não havia conseguido seu intento que justamente era de trazer ao público leitor a versão integral da hq, porém havia seríssimas ressalvas com a republicação do material primeiro publicado em 1995, ou seja, a adaptação do primeiro filme do Mojica/Zé do Caixão. E, na ocasião, essa ressalva era consistente na minha cabeça, pois não queria de jeito nenhum publicar esse material novamente, e o motivo convergia totalmente na minha pessoa.

          A obra original, o filme do José Mojica Marins, é uma obra prima do cinema brasileiro e mundial, por centenas de motivos que, de minha parte dispensa comentá-los, pois já foi mais do que escrito, falado e comentado pelo país e pelo resto do mundo ao longo de décadas. Visceral, pungente, autentico e mais uma infinidade de adjetivos para no mínimo definir À meia-noite levarei a sua alma. Minha versão em quadrinhos, no meu modo de pensar na ocasião, era algo bem simples, quase sem um pensar mais aprofundado sobre o que estava fazendo ou seja, adaptando esse clássico que ia além do filme de terror, a estética, a forma gráfica de mostrar esse ícone da cultura nacional, quase ou já folclórica, era quase amadora e de um desenho bem deficiente. Em resumo, a obra e seu criador mereciam algo mais à sua altura, como já acontecera no passado, mais especificamente em final dos anos sessenta, quando o próprio Mojica produziu seus quadrinhos com dois mestres absolutos, Nico Rosso e Rodolfo Zalla. O peso das comparações...


            Lucio insistiu no resgate dessas duas publicações e da importância que teria dentro do panorama das hq's nacionais, claro que isso tudo me deixava lisonjeado, porém o elemento crítico que existe em todo artista, falava mais alto. Meu olhar sobre essa hq era diferente: para mim, julgava tratar-se de um trabalho muito fraco no que se refere ao desenho e todas as as possibilidades narrativas próprias para uma hq, diferente do que vinha produzindo, principalmente pelos resultados que vinha obtendo com a publicação até então da trilogia Yeshuah, ou seja, não me agradava trazer à baila novamente esse trabalho que tinha, como disse tanta ressalvas. Então, durante o tempo de nossa estadia em Belo Horizonte, por ocasião do evento, muito foi conversado entre eu e  Lucio e sempre tendo um não como resposta.

            Já em São Paulo, algum depois, numa passagem pela capital, Lúcio Luiz é natural  do Rio de Janeiro, durante um almoço juntamente com Flavio Soares, quadrinista, ilustrador e designer da Editora Marsupial na época, o assunto do álbum veio novamente à tona, já colado com minha negativa em relação à publicação de À meia-noite levarei a sua alma. Foi então que Flavio, tirou do bolso, uma ideia, no mínimo genial, que me deixou completamente sem ação para continuar na negação desse quadrinho: criar uma hq curta, como um tipo de introdução, de prefácio para o álbum, onde justamente eu contaria todo esse perrengue de minha parte, ou seja, todas as questões de não gostar da qualidade do meu trabalho feito naquela época, na insistência do Lúcio Luiz, a questão do resgate histórico, tudo num tom humorado e, a hq justamente culminaria com a aparição da entidade Zé do Caixão cobrando de mim essa decisão para liberar a hq, pois afinal, ele é o personagem focado, tudo embalado com as clássicas pragas que o agente funerário tornara famosas. A hq, de três páginas (um prefácio) termina com o Mojica em sua casa recebendo a notícia por telefone do Lúcio, informando que misteriosamente eu,enfim, concordara com a publicação.

Trecho do prefácio desenhado da edição "Zé do Caixão"
            

            Zé do Caixão foi publicado em 2016, contendo as duas hq's, mais esse prefácio desenhado e um outro texto meu comentando sobre todo processo criativo no adaptar os filmes do Mojica, o fazer  também hq's curtas e inéditas naquele período, juntamente com ele, criando os roteiros e o tanto de aprendizado de vida e de fazer arte que tive nas muitas conversas que tivemos ao longo dos anos. A publicação foi um grande sucesso, vende bem até hoje, pois vire e mexe autografo essa edição em alguns eventos que participo.

           Mas, trazer esse assunto para vocês, está numa questão um pouco maior que simplesmente um fato ocorrido com a publicação desse gibi (sim, bato na mesma tecla, vamos falar gibi!)...

Capa da nova edição publicada pela Tábula

           Em 2025, o Douglas da editora Tábula, casa publicadora que frequentemente participo com colaborações em suas diversas publicações, me propôs uma nova edição da adaptação de À meia-noite levarei a sua alma, pois já havia conversado com a Liz Marins, atriz, filha do Mojica e quem cuida dos direitos da obra do pai, que já havia autorizado a republicação e só faltava o meu ok, coisa que imediatamente teve o consentimento de minha parte. Falamos sobre o desenvolvimento de uma nova capa, onde foi proposto que ela se baseasse no cartaz original do filme de 1964 (na postagem anterior comento sobre isso) e assim, a nova edição da versão para quadrinhos do clássico filme do José Mojica Marins foi lançada no final deste mesmo ano, durante a CCXP- Comic Con Experience, evento fundamental para a cultura pop que acontece aqui em São Paulo, todos os anos.

            A rápida aprovação de minha parte, trouxe-me uma curiosa reflexão logo após o envio da resposta ao diretor da Tábula, sobre a tranquilidade, a aceitação desse trabalho, que tive. Uma curiosa sensação de calmaria na cabeça, no emocional, uma libertação, posso até arriscar a dizer. Diferente da negação quase absoluta que tive há dez anos atrás com a proposta da primeira republicação da Marsupial, num ímpeto quase (ou talvez totalmente) egocêntrico de julgar que o trabalho estava muito abaixo da qualidade do que então produzia na época. Esquecendo, mas esquecendo de uma forma absurda, que ele representava muito, mas provavelmente cem por cento, o sonho do menino de vinte e poucos anos, idade que tinha quando desenhei a hq de se lançar para o mundo, conquistando pessoas com o desejo de contar histórias desenhadas. O quadrinho tinha sim, sua validade, não só pela ideia em si da quadrinização do filme, pela aprovação do próprio cineasta, mas por ser absurdamente honesto no que se propôs e principalmente porque na época, a hq simplesmente foi desenhada, sem contaminações do ego que o tempo traz para a gente e que às vezes nos leva distantes da premissa do sonho inicial.

            Só com o tempo e com tanta coisa vivida, principalmente no campo pessoal-artístico e o entendimento, ou o princípio dele, que a idade traz, é que é possível, com a alma mais leve, mais pura, apenas dar um brevíssimo consentimento de algo que foi negado antes. Entendendo e principalmente aceitando e amando o que você foi, pois só assim se consegue prosseguir.

Trecho do perfácio desenhado da edição de 2016 de "Zé do Caixão"





         

     

14 de dezembro de 2025

QUANDO ALGUMAS COISAS REAFIRMAM O PORQUE DE SE FAZER


      Dias atrás, durantes algumas postagens que fiz comentando sobre minha participação na edição 2025 da CCXP, escrevi sobre como esse ano havia extrapolado a quantidade de autógrafos e consequentemente de pessoas, que trouxeram tanto a edição integral como os três volumes de Yeshuah. Mas realmente a coisa pegou bonito. Foram 42 autógrafos entre quinta e domingo, sendo que 38 foram para a edição compilada (Yeshuah absoluto) e quatro para as edições em volumes. Gente de todos os cantos do país: Curitiba, Belo Horizonte (uma parte turma do grupo do WhatsApp do canal Fora do Plástico), Bahia, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, enfim, bacana demais!!! Quero agradecer imensuravelmente e de todo o coração a cada um de vocês e, com certeza absoluta falo isso também em nome do parceiro na arte-final dessa obra, o Omar Viñole.

Mas, peço a gentileza a todos vocês que levaram seus volumões do livro, para deixar um agradecimento especial ao “pai da Bia”, que foi responsável por um dos momentos mais marcantes, sensíveis, da minha vida e da minha carreira como autor. Como artista. O Clenio...
Bia, faleceu há quatro anos, tinha 15 anos, deixando aquele vazio imensurável no coração, na vida de seus pais... em especial, no Clenio, e foi ao levar unicamente um exemplar de “Onde tudo está” na CCXP, terceiro e último volume do Yeshuah, que esse pai notou que dentro da edição havia uma pequenina lembrança da filhinha que ele havia esquecido que estava lá: um marcador de livro, feito a mão por ela... a conexão aconteceu ali... como se um recado da Bia aos pais, como disse ao Clenio, dizendo que “está tudo bem, que a vida, enfim, de algum modo deve seguir em frente”. Claro, a emoção se espalhou naquele pedaço de universo de duas pessoas juntas conversando. E eu agradeci muito a esse rapaz por de certa forma, ter sido responsável por esse elo entre pai e filha. Não há muito mais o que dizer, nem quero. A não ser agradecer mais uma vez e em público ao pai da Bia, e à própria Bia, por esse momento... tão... bonito... encantado... Espero que pai e filha fiquem bem.

Grato a ambos, por ensinar-me mais um pouco e por ter podido participar desse breve encontro.
Por isso a arte é fundamental.

4 de junho de 2025

CELEBRANDO UM GRANDE MESTRE

Com Shimamoto durante um evento promovido pela Editora Criativo em uma hamburgueria em São Paulo

Acredito que como a maioria das pessoas que ficaram amigas desse grande mestre, a coisa toda ocorreu instantaneamente, no primeiro bate-papo trocado. Comigo foi assim em 1989,fazendo meu check out d'um hotel na cidade mineira de Araxá onde estava por ocasião de um evento de quadrinhos que estava acontecendo lá e ele fazendo seu check in no mesmo hotel. Grande mestre absoluto Júlio Shimamoto. Mais que influenciar, me inspirou, antes e hoje ainda, pela sua inquietação, pela sua grande cultura e pela sua arte sempre à frente. A gente tem que reverenciar.

20 de novembro de 2023

GERANDO UMA CAPA E SUAS INFLUÊNCIAS

             Hoje eu trago para vocês, uma sequência de estudos para a capa de As tentações de Santo Antão, trabalho meu lançado em maio último pela editora Devir. Aqui no meu estimado blog tem uma postagem comentando sobre este trabalho. O processo de criação de uma capa sempre envolve muita transpiração e inspiração e dependendo leva-se um bom tempo até chegar na ideia definitiva. Às vezes não, como é o caso deste livro. Com As tentações de Santo Antão, a ideia veio praticamente antes de iniciar os desenhos da hq em si e com aprovação da própria editora. Só faltou fazer alguns ajustes, mas a ideia era basicamente uma só.



             Quem razoavelmente conhece meu trabalho, sabe da tremenda influência que tenho na estética dos anos 60/70, tanto na moda, quanto no cinema, principalmente as produções europeias, mais especialmente italianas e francesas deste período. A estética de filmes do cineasta Pier Paolo Pasolini, ou dos estrelados pela brasileira Florinda Bolkan em terras italianas como Flavia, la monaca musulmana, por exemplo, foram fundamentais para o visual da trilogia Yeshuah e agora em As tentações de Santo Antão.  A imagem do homem em sua angústia perante a expressão viva à sua frente do amor, da paixão, do carnal,  e a dor do conflito do sagrado com o profano em si, permeia toda a história. A intenção desde o início era que a capa trouxesse isso, por mais que pudesse parecer se tratar tão somente de uma obra de cunho erótico, o jogo com o leitor, ou melhor, o convite era esse. Algo como, de certa forma, é o que acontece com o protagonista desta trama. 

A capa em questão e suas influências, por mais que numa primeira ou até mesmo segunda leitura, passem desapercebidas pelos olhos de leitores que desconheçam ou tiveram pouco contato com esse tipo de cinema, foi gerada dentro deste clima, convidando inclusive este leitor a adentrar neste universo proposto que traz muito mais que a capa apresenta.


As tentações de Santo Antão você pode adquirir através desse link 







31 de julho de 2022

DANDO SATISFAÇÕES...

Atual cara do estúdio
            Esse meu velho e querido blog tem sido com o passar dos anos, e bota anos nisso, o meu melhor veículo para compartilhar infindáveis coisas sobre meu trabalho. Sofro em manter a periodicidade devido há várias questões, inclusive e principalmente pela falta de tempo. Ok, mea culpa!
                     
           Há muita coisa que quero e sinto que devo compartilhar com vocês e, o que mais me deixa satisfeito, feliz, emocionado e todos os adjetivos bons possíveis é constatar que há pessoas que vez ou outra passam aqui para conferir se há novidades. Muito em especial a vocês, agradeço, peço desculpas, mas acredito que compreendam e prometo breve trazer novidades.

            Fica combinado. Promessa. E promessa é dívida. 

7 de junho de 2021

A JORNADA HERÓICA DE TODOS NÓS

            Algo que sempre chamou atenção das pessoas que gostam e seguem meu trabalho é a possibilidade de produzir histórias das mais variadas linhas – terror, drama, aventura, espiritualismo, erótico ...-, e confesso que na primeira vez (se é que realmente me recordo quando) que me chamaram atenção disso, soou estranho pois era plenamente natural esse trânsito entre gêneros, ou seja, não existia barreira mostrando que não havia o por que de trabalhar em determinado tipo de história. Realmente não pensava nisso. Naquele período, talvez tocado pela observação, me pus a refletir sobre, na tentativa de compreender mais sobre meu trabalho. Nada que me tomasse dias, noites de sono e permanecesse martelando na minha cabeça, mas a questão era peculiar e carecia de um tipo entendimento. Um bom tempo depois larguei esse questionamento sem ter uma resposta, acho, mas o fato é que por ser um artista puramente intuitivo, não fazia sentido tentar compreender algo que me era natural. A mim não cabia essa análise, pois ao longo de minha carreira, pouco ou mesmo, quase nada me detive a coisas desse tipo. Faço o que quero e pronto. Simples assim. 
Pequeno herói no traço do
meu filho Gabriel
             O fato é que nas minhas influências primeiras fui gerado pela aventura, a leitura em si era um portal para universos aventureiros. Eram os gibis dos heróis clássicos, de essência pura dentro do óbvio propósito (só muitos anos depois veio o anti-herói), Mandrake, Flash Gordon, Principe Valente, Jim das Selvas, Tarzan... eram alguns deles, uma infinidade e claro, tinha a leitura dos romances, esses talvez foram o que abriram as portas da percepção para a experiência da criatividade, pois são os que “forçam” seu cérebro à criar o campo imagético do sonhar. Júlio Verne... Robert Louis Stevenson... Zane Grey... Victor Hugo... Alexandre Dumas... Daniel Defoe... Monteiro Lobato... Enfim, essas foram as bases. Antes de qualquer profunda reflexão em uma história, antes de qualquer coisa que precisa ser dita, antes de qualquer luta que precisa ser assumida, há o contexto da aventura, da grande aventura humana, mesmo que passada numa rua de um bairro de uma pequena cidade. A aventura interna que os heróis propiciam em suas aventuras externas. E digo, heróis não só os fortões anabolizados e lindos, falo daquele sujeito franzino, de bermuda e camiseta já meio desbotada, descendo d’um ônibus qualquer, também. 
             Dentro da experiência do viver, do caminhar, percebemos às vezes e, para isso é fundamental estar atento e disposto às percepções por mais que doídas às vezes, que tudo é circular. Tudo é cíclico. Muitas vezes quando voltamos ao ponto lá de trás não significa que retornamos ao início, pois não é possível, enfim, fizemos já toda essa trajetória aí quando por esse ponto inicial voltamos, percebemos melhor, mais maduros, mais deliciados com aquilo que até agora fizemos, mesmo que muitas, muitas vezes tenhamos na nossa bagagem a decepção, o desapontamento, o sentimento de derrota, estampado em nossa bota de caminhada. Precisamos sentar e entender isso. 
             Mas do que realmente estou falando?? Simplesmente tentando externar um longo processo de vários ciclos ao qual dispenso detalhar as glórias e as decepções. Qual o elo com a questão do transitar com a aventura dos heróis que lá atrás tanto inspiraram? Justamente o sabor de simplesmente aventurar-me no puro sabor dela, olhar a prancheta, o papel em branco e contemplar as infinitas possibilidades. Algo que com o passar de tantos anos de carreira nos quadrinhos e na ilustração eu havia deixado se metamorfosear em outra coisa que a armadura de uma suposta maestria gosta de adornar em si. E vamos perdendo a percepção inicial do que nos motivou a chegar até aqui e mesmo a percepção renovada de quando passamos novamente pelo ponto de partida. Vem tantos sentimentos juntos, tantas ilusões, tantas decepções que às vezes deixamos o núcleo do sentido adormecer. Percebeu isso já? 
             Então, quando a gente zera tudo, aceitando que deixou-se turvar no meio do caminho, é que as coisas vão se limpando, porque não ficou nada mais para guardar tantos sentimentos. É deixar, sem nenhuma reflexão, apenar perceber e observar. A gente só busca o novo. Nem renovar-se, apenas o novo. É assim que livres dos miasmas que colhemos com suposições de nossa arte, estamos prontos para servi-la e ela a nós no melhor dos sabores que podemos ter, a pura aventura.

Flash Gordon, criação clássica de Alex Raymond. Um dos aventureiros iniciais.



Na realidade eu ia escrever sobre uma nova hq minha chamada “Darkla e o clã da caverna do medo”, lançada recentemente na primeira edição da revista “Atomic Magazine”, da editora Atomic, mas acho que era melhor contemporizar vocês com um atual tão bom estado de espírito. Na próxima semana falo sobre a história.

20 de novembro de 2019

O DIA DA CONSCIÊNCIA DE TODOS NÓS

            O senhor Laudo Ferreira, meu pai, figura austera, bravo, porém muito honesto, que retratei no meu livro “Cadernos de Viagem” como uma forma de dizer do meu amor por ele, algo que quando era vivo nunca nos dissemos, era o que hoje se chamaria da cor negra. Ele era realmente. Assim como seus irmãos eram, tanto na pele como como no cabelo. Suas tias que conheci na minha infância eram mais escuras que ele. Uma família negra. Minha professora de primário, que fora professora do meu pai também, figura tão importante na minha primeira fase da vida, inclusive sendo a primeira pessoa a descobrir meu talento para desenho (e posteriormente que eu era daltônico), também era negra, dona Eulina... Tive o prazer de homenageá-la recentemente no livro “O santo Sangue” na pele da personagem “bruxa”, tão bem retratada pelo parceiro Marcel Bartholo, quase como que psicografando o rosto dela. Dona Eulina, com certa fazia suas alquimias na vida, eu de certa forma, sou resultado dessas magias. Há uns bons anos atrás, tive o imenso prazer de ser amigo da Dona Nathalia, preta velha, mãe de santo, dona de terreiro, dona de uma escola de samba em Diadema, onde colaborei alguns anos aprendendo e desenhando os figurinos de sua escola. Ficamos amigos profundos rapidamente, assim como de toda sua família, filhas e netas (o matriarcado imperava ali) e agregados, como seu querido Genro, o Nando, e foi com ele que criei o costume de chamar a Dona Nathalia de “preta velha” e foi por causa desse jeitão carinhoso de chamá-la, que uma ocasião muito pra frente, após o falecimento dessa tão querida amiga, que tive uma muito engraçada comprovação que além do véu, existe muita coisa, mas isso é um outro papo.
             Cresci dentro de um campo que seu Laudo Ferreira, pai, me criou onde não havia, não se imaginava de jeito algum, qualquer tipo de preconceito, cresci com a absoluta ciência de que somos todos iguais e que as diferenças apenas fazem parte de um mundo todo múltiplo, apenas isso. Cresci sem nunca ter pensando que meu pai era negro, minha mãe branca, e eu com uma suave mistura que os anos foram transformando. Meu convívio posteriormente com essas outras pessoas negras... afro-descendentes, muito me ajudou a reafirmar a base humana e absoluta de meu pai e essa base que germinei em Gabriel, meu filho. Nesse dia de hoje, da consciência negra, onde um demônio configurado de ser humano, exala sua ignorância não contra negros, mas contra o princípio da alma humana, rasgando um cartaz que mostra a verdade da relação polícia e negros, torna-se fundamental a cada dia que essa consciência se reforce, não só pelos negros, mas pelos gays, pelas mulheres, pelos pobres, por aqueles que a dita raça verdadeira (seja ela qual for) sempre coloca à margem. Estupidez sem fim, sem limites, não entendendo o óbvio que quando matamos ou ofendemos um negro, um homossexual, um mendigo, ou seja quem for, estamos ofendendo a nossa própria cara perante o espelho, nossa própria alma e nos enterrando em algo que não deveríamos de hipótese alguma querer ir. Dando alimento para aquilo que nos devora. Olho a lembrança de meu pai, e penso que a mistura é a forma sempre mais sublime de entendermos que somos umas coisa só e que cor e outras coisas que nos separam deveria ser simplesmente aquilo que nos aproxima.   

22 de junho de 2014

MUITO ALÉM DO PASTEL DE BELÉM

            No mês de maio, conforme comentei com vocês na postagem anterior, empreendi uma viagem a Europa, juntamente com o velho amigo André Diniz, ambos convidados pela organização do Festival Internacional de BD da cidade de Beja, Portugal. No embalo de nossa ida à terra lusitana, demos uma passada muito rápida, porém muito proveitosa em Roma e Paris. A viagem, além do passeio turístico, trouxe entendimentos e descobertas, tanto para vida pessoal, quanto profissional e artística, isso não é conversa filosófica num botequim ou mesmo em um café francês. A constatação que o mundo é muito grande, porém muito pequeno, foi algo muito forte e talvez pôde ser melhor percebida pela visão madura (eu acho) de uma pessoa de cinquenta anos. É claro que, em uma viagem feita por dois criadores de Histórias em Quadrinhos, a conversa por mais que se estendesse à outros campos, sempre resvalava no nosso universo de paixão e ofício.
            Entrando nas livrarias especializadas de quadrinhos na França, onde a quantidade de publicação é uma coisa tão absurda que a gente acaba nem querendo comprar nada, pois a experiência de percepção disso, para um desenhador, é algo muito mais profunda e concreta do que tão somente comprar meia dúzia de álbuns, ou vendo em Roma, alguns autores de fumetti expostos em livrarias junto com autores de literatura e com o mesmo peso e relevância para leitores, pude voltar meus olhos para o Brasil e principalmente para meu trabalho, que sempre teve essa preocupação de ter características próprias, não só pelo traço, mas pelo tempero, pelo cheiro, uma marca genuinamente brasileira, porém, ao mesmo tempo, do mundo. Há vivências, entendimentos, marcas, fontes, referências, nos quadrinhos
europeus que os distinguem e isso é perceptível, andando nas cidades, vendo as ruas e suas arquiteturas, cores, pessoas, no clima, então isso é deles, da mesma forma que há tudo isso em nosso país, que pode ser do resto do mundo e, não digo isso me referindo aos clichês turísticos brasileiros, samba, praia, futebol, bunda (ah!) e Amazônia. Há muito mais e não precisa ser alegórico. Precisa ser sincero. Esse foi o entendimento profundo e é essa a busca.
            Mas por fim, nossa passagem, minha e do Diniz, por Beja, foi algo muito bonito e o festival de BD, ótimo. A cidade é de uma beleza emocionante e mais ainda, as pessoas. O festival foi de uma simplicidade e grandiosidade ímpar, que tocou não só a mim, ao André, mas também outros grandes desenhadores brasileiros que estiveram presentes, José Aguiar, Laerte e Klévisson Viana e, acredito a outros convidados de outros países, como David Loyd e Caterina e Antônio Crepax, filhos do grande Guido Crepax e pessoas muito queridas. Em Beja, além de lançar "Yeshuah - onde tudo está", tive uma exposição em conjunto com Diniz, mostrando alguns de nossos trabalhos, inclusive "Olimpo tropical" que estou desenhando em cima d'um roteiro dele e que será lançado em Portugal, além de amostras individuais nossas. O carinho com que a curadoria do evento criou tudo, foi algo perceptível e de resultado excelente, sem eleger esse ou aquele como "maiores", todos éramos iguais. Não é à toa, claro, que esse festival foi para sua décima exposição e com certeza seguirá muitos anos pela frente.
            Curioso foi um comentário, feito pelo Diniz, em nossa passagem por Roma e mais especificamente visitando o Vaticano, na Basílica de São Pedro, eu lá estupefato pela grandiosidade e beleza artística e humana de tudo (esqueçam a questão igreja católica, ok?) e meu amigo trouxe o feliz e emocionado comentário: "Olha aí, você veio coroar o lançamento do Yeshuah aqui!". Perfeito. Mas ainda vale um adendo, a conclusão de tudo isso, inclusive a emoção do lançamento do meu novo livro, veio na hora de nos despedirmos de Beja e mais especificamente falando da figura de Paulo Monteiro, roteirista, desenhista, e responsável pelo evento. A emoção final de uma despedida de um amigo tão recente e que curiosamente parece ser tão antigo, tão querido, tão sincero, tão amado, foi muito forte. Alguém onde você tem a experiência (esse é o termo) de ter uma amizade sincera, livre de qualquer coisa, qualquer vício humano. Os vários abraços de despedida enquanto entrávamos no carro que nos conduziria até Lisboa e a emoção, canalizada através de quase lágrimas, foi algo muito forte e aí sim, coroou a mim e com certeza ao Diniz, toda essa viagem. Um amigo distante, lá nas terras de Camões, tão longe e aqui tão perto. Coroando toda essa experiência de 17 dias de viagem, com o ato de amor e carinho.
           Nessas, vale lembrar algumas brincadeiras que amigos fizeram comigo antes de embarcar, "Vai a Portugal? Come um pastel de Belém!", mas claro, Portugal é muito mais que só pastel de Belém, gastronomicamente falando é um paraíso, principalmente no que se refere à doces, muito além do "pastel de Belém". A balança e os quilinhos a mais que o digam.
           E muito mais que tudo isso, é o carinho sentido, vivenciado, presente em cada pequeno gesto, pequeno sorriso, em conversas bobas, no amor pela vida e em nosso caso específico, em nossa  arte de criar. Arte de criar emoção e vida.

          

18 de outubro de 2012

SYLVIA KRISTEL E UM SAFADO PRECOCE


              Hoje, dia 18 de outubro, a imprensa do mundo todo noticiou a morte da atriz Sylvia Kristel, que ficou famosa por dar vida à personagem Emmanuelle nas telas do cinema, isso lá nos idos anos 70. A turma de minha geração com certeza sabe quem é e a rapaziada mais nova, ligada em cultura, com certeza deve saber, mesmo que alguma coisa.
           Kristel foi à musa de toda uma geração de meninos, rapazes e homens, e eu estou nessa, claro, todos embalados mais por insinuações, olhares, uma coxa ali, um peito aqui, do que realmente algo explícito. Vale lembrar que estrelas como Sylvia Kristel, por exemplo, ganhavam na sensualidade e também no charme, diferente e muito das nossas modernas popozuadas que às vezes me fazem desanimar de apreciar pelo excesso, excesso mesmo, esse é o termo. Então, ao saber de seu falecimento hoje, mais que lastimar, enfim, morreu jovem, 60 anos, lembrei o quanto sua figura, seu corpo, seu charme, e seus filmes principalmente, me marcaram naquela época. O cartaz de seu primeiro Emmanuelle, lembro, mexia profundamente com minha libido de menino ansioso pelas coisas, uma imagem sensual, forte e principalmente estilosa.
          Mas enfim, eram os anos 70 e embora no Brasil, vivêssemos a plena ditadura, alguma coisa do cinema erótico “era” permitido, pois até então, acredito eu, o sexo não significava tanta ameaça ao regime autoritário, provando o quão estúpidos e ignorantes eram os senhores generais da época, mas isso é outra história. Então me lembro bem da infinidade de filmes nacionais, as deliciosas pornochanchadas e das revistas masculinas “Peteca”, “Status”, “Close” e por aí vai. Só peito, uma ou outra bunda e nada de pelos pubianos como disse, e a alegria era geral, mesmo assim.
          Ao contrário de muitos pré-adolescentes, 12/13 anos que cresceram lendo gibis da Disney, Maurício de Souza e a turma da Mônica, coisas desse tipo, por algum mistério da natureza, se é que a natureza tem algo a ver com isso, desde muito pequeno, o impulso sexual se tornou latente em mim, não nego isso e não sei como explicar, então minha leitura de quadrinhos basicamente era muito terror nacional onde tinha nos desenhos do mestre Nico Rosso, fêmeas maravilhosamente desenhadas esbanjando sexo com pouca ou quase nenhuma roupa. Sempre tive a percepção e ainda hoje a tenho que Nico Rosso realmente gostava de desenhar essas delícias, não que os outros artistas não gostassem, mas nele, era algo, pelo menos para mim, latente. Lia outros gibis, super-heróis, por exemplo, mas era outra coisa, revistas como “Seleções Terrir”, Drácula e Naiara do Nico Rosso, me tiravam o fôlego e incitavam a imaginação e claro, lá ia eu querer copiar o traço do mestre.
           Como disse, a coisa do sexo veio cedo comigo...
           Nasci em São Vicente, litoral de São Paulo e como já contei em inúmeras entrevistas, bate-papos, desenho desde sempre, autodidata, como centenas de desenhistas, fã de quadrinhos, fazendo, ou melhor, tentando rabiscar algo que poderia então se chamar quadrinhos, e como toda criança que rabisca suas hq’s, ansiosa de ver um material seu publicado em algum veículo, jornal ou revista, de grande tiragem, de grande repercussão, que acabei enviando para o jornal “A Tribuna” de Santos para um caderno espacial chamado “A Tribuninha”, que pelo nome dá para perceber que era voltado para o público infantil, uma hq de duas páginas “Inês, ano 2.010 DC”, uma hq “futurista” de ficção-científica, passada no distante ainda ano de 2010, o ano era provavelmente 1974/1975, tinha lá meus 10,11 anos. Essa hq que enviei era literalmente copiada da personagem “Barbarella” do Jean Claude Forrest, pois se não me falha a memória, o quadrinho dela, a única versão nacional publicada até hoje e famosa por ter sido traduzida pela Jô Soares havia caído em minhas mãos de menino havido por seios, coxas, corpos sensuais, cabelos longos e loiros (sempre fui atraído pelo gênero). Quando vi o álbum, a coisa caiu com uma bomba: “Vou criar a minha Barbarella!!”.
          Ao mesmo aquele moleque apreciador das belas formas femininas, ainda não entendia muito bem sobre o que se fazer com uma mulher na cama e muito provavelmente fui descobrir algum tempinho depois ainda o milagre do sexo solitário, então a coisa caminhava mesmo no campo da pura contemplação. Enfim, a pseudo-história em quadrinhos feita com nanquim e pena mosquitinho, copiada da clássica heroína francesa, inclusive na famosa sequencia onde ela transa com um robô, foi enviada para esse suplemento infantil. Semanas se passaram, aumentando a cada dia a ansiedade daquele menino desejoso de ver suas páginas impressas naquele jornal “famoso”, de grande tiragem, então, finalmente, para minha absoluta surpresa e frustração, lá pela quinta ou sexta semana, no editorial do suplemento havia uma nota do editor que se intitulava “Caro L.F.J.” e daí adiante discorria um breve texto onde simplesmente acaba com minha pessoa, pois julgava se tratar eu, um adolescente, de 18/20 anos, querendo publicar seu trabalho em qualquer lugar que fosse, claro, ele estava correto, só errou na faixa etária, mas sua bronca era pelo conteúdo erótico adulto que eu enviara para um suplemento infantil, óbvio que o senhor editor não imaginaria se tratar de um menino de 10/11 anos, jamais. Anos 70 e a mentalidade dos “mais velhos” era outra, amigos. Claro que desenhava bem, mas para um menino de dez, onze anos com aptidão para desenho, que fique entendido. Esse mal entendido gerou uma tremenda bronca, tremenda, por parte do meu pai, seus olhos faiscando de raiva é algo que demorei muito para esquecer, e que só depois de muitas terapias pude deixar em seu devido lugar no passado.
           É óbvio que minha fissura pela figura feminina só foi aumentando, haviam os quadrinhos de terror e suas fêmeas deliciosamente fatais, revistas masculinas, que conseguia comprar em bancas de amigos (afinal, pra que servem os amigos?!) e as pornochanchadas (sim, também tive amigos que trabalham em cinemas). Lembro-me até hoje dos primeiros seios que vi em grande tela: Sandra Barsotti. Um momento raro, mágico, dois peitos bonitos, durinhos, daquela musa loira, dos distantes anos 70. Contemplação pura, acreditem. Êxtase puro. Nos meus quadrinhos feitos em casa, com a delicia do prazer que só um jovem sem preocupações pode ter, muitas outras coisas dentro dessa linha sensual fiz e muitas ainda tenho guardadas em arquivos.
          Enfim, aí veio a adolescência e com ela tudo que é de direito para um jovem nessa fase, descobertas, frustrações, alegrias, desapontamentos, tudo. E pensar então na morte dessa musa do cinema erótico na data de hoje, por um breve momento trouxe-me a lembrança dela, de sua relevância e de outras tantas musas daquele período.
           Por fim, claro que quando já nos anos 2.000 tive a oportunidade de gerar, parir, criar uma certa musa dos quadrinhos eróticos nacionais, a Tianinha, nada mais justo que render homenagem a esses ícones dos anos 70 que muito me marcaram, dando um certo tom de pornochanchada em suas histórias. Quem leu pode comprovar.
            Então, é isso, querida minha e de tantos, senhora Sylvia Kristel, obrigado.

           

9 de fevereiro de 2012

E AQUELE NOSSO PAPO, MAURO?

                      Quando uma pessoa morre, amigo, parente, conhecido, nos entristecemos, choramos pela lacuna que essa pessoa fará às nossas vidas. Choramos, entristecemos por, a princípio, não termos mais ela ao nosso lado. Choramos por nós, pela forma de amor que aquela pessoa, amiga, parente, namorada, o que quer que seja, leva embora, deixando aquele sentimento órfão de sua fonte. Algumas pessoas, mesmo que não tão presentes em nossas vidas, às vezes por um breve momento, deixam ali, na gente, o porquê do encontro dela conosco e muitas vezes, esse breve momento, vale para muitas outras existências O porquê dela naquele momento ter passado pela sua vida. E é por isso que devemos agradecer, reverenciar por ela ter feito parte de nossa vida, mesmo que dias, meses, anos ou algumas horas.
           Então, amigos, isso que agora escrevo para vocês é muito mais falando de mim, do que necessariamente de uma pessoa que há tão pouco tempo nos deixou. Desculpem-me, se pode parecer algo egocêntrico, mas não é. Na verdade é a forma de agradecer uma dessas pessoas que, passam pela vida da gente por um breve instante. Mauro dos Prazeres, que deixou essa existência dia 7 de fevereiro de 2012 aos 55 anos, se não me engano, é uma delas.
          Muito moço a gente diz, para ter ido, em meio há tantas outras coisas. Na verdade, o tempo para ele foi esse e para os que com ele desfrutaram o existir aqui. A gente ainda continua, talvez mais um pouco, ou talvez mais tempo ainda. Mauro segue, com certeza, por outros caminhos.
           Conhecemos-nos em agosto, se não me engano de 2009, quando seu sócio e co-fundador da Devir Livraria, Douglas Quinta Reis, me chamou para uma reunião interessado na publicação do meu trabalho Yeshuah.
           Vinha de muitas, muitas investidas em diversas editoras na intenção de publicar esse meu trabalho. Havia uma sede primária, voraz, pela publicação dessa hq, pois havia e há ainda, toda uma experiência quase visceral de minha descoberta de como eu realmente queria contar uma história em quadrinho. Havia passado muitas decepções em muitas editoras que havia batido à porta. Decepções que obviamente mexem com seu ego, exercitam a auto-piedade, levam sua auto-estima para um buraco muito fundo levando a crer na validade do que fez e principalmente se tudo ou um pouco, que seja, daquilo que você pensa ser. E por mais que os anos de trabalho, de vivência dentro do criar quadrinhos, no caso, te deixem mais maduro para encarar alguns fatos desagradáveis, tirar sua esperança  de um rebento, de um trabalho pessoal, é algo difícil de lidar.
           Enfim, naquele agosto de 2009, sentei-me com Douglas e Mauro para um bate-papo sobre Yeshuah. Mauro imediatamente começou nossa conversa questionando como eu enxergava a figura de Maria Madalena dentro do contexto da história de Jesus, se eu a enxergava como uma prostituta “arrependida”. Óbvio, ele já havia lido a boneca do primeiro volume, “Assim em cima assim embaixo” e por lá, estava perceptível que minha visão passava longe do que a igreja católica vinha e vem apregoando há séculos. Essa primeira explanação sobre o trabalho trouxe um tremendo sorriso no rosto do Mauro e aí então, entramos num papo que durou mais de uma hora sobre inúmeras questões que abrangem a história de Jesus: apócrifos, teosofia, textos antigos, mitos, o lado histórico, uma infinidade de questões. Eu entendera perfeitamente que ele realmente me sabatinava para saber se, aquele cara, eu, estava plenamente consciente do que me propunha a publicar com a Devir. Quem leu o primeiro volume do Yeshuah, pode conferir na bibliografia que há um livro do guru Osho sobre sexo tântrico, esse livro inclusive foi questionado pelo Mauro no interesse de saber onde a questão tântrica se adequava à história de Jesus. Claro que foi respondido e não vou me deter aqui, em minha resposta. Isso para mostrar até onde os questionamentos do Mauro foram, para realmente tirar tudo que fosse possível de um suposto autor de uma hq apócrifa sobre Jesus.
           Findada a conversa, Mauro apertou minha mão e disse estar plenamente feliz por publicar um trabalho como o meu.
            Saí da reunião com uma boa e estranha sensação de felicidade. Não apenas pelo fato de finalmente ter acertado a publicação do trabalho, mas por essa tão proveitosa conversa, indo além do meu desenho, traço, enquadramentos, ângulos e tudo mais, porém percebendo que tanto Douglas quanto Mauro, estavam interessados no cara que fez aquele trabalho. Isso, de alguma forma silenciosa e comunicativa com o inconsciente me fez muitíssimo bem.
            Cruzei meu caminho com o do Mauro outras vezes e estendemos ainda o assunto sobre questões religiosas, espirituais, mitológicas que ele conhece muitíssimo bem, pois mais que um homem culto, exacerbava sabedoria. Deu muitas idéias para futuros trabalhos. Quem sabe. A última vez que nos encontramos foi no evento da Devir, o “Virada Nerd”, falamos bastante e claro, falei com ele sobre a terceira e última parte do Yeshuah que venho trabalhando. Mauro mostrou-se muito curioso nessa finalização.
            Mas Mauro se foi dessa cena. Ele é uma dessas pessoas que passam rapidamente por sua vida e deixam gravado um momento plenamente especial. Talvez não tanto para ele, mas muito para mim. Pela sensação perene, inesquecível daquele bate-papo na editora e da sensação posterior. Me fez crer que sempre vale a pena. Sempre alguém vai te enxergar, mesmo que você mesmo não consiga enxergar isso.
           Deixa família. Muitos, muitos amigos com certeza. Seu amigo e parceiro de tantos anos, o querido Douglas Quinta Reis. A mim, ficou aquele momento de agosto.
          Quanto estive em seu velório, triste por alguém que não mais estava ali, só um corpo sem vida, não havia mais nada para se fazer.
           Voltando para casa lembrei daquela primeira reunião e de nossa última conversa e pensei num primeiro momento que o Mauro não iria mais ver a última parte do Yeshuah. Num segundo momento, me veio a idéia que não: com certeza, de algum modo, acredito que ele verá o fim dessa história.
           Assim acredito.
            
          
         

12 de março de 2010

ATÉ MAIS, GLAUCO!

Levantar hoje, sexta-feira, 12 de março de 2010 e deparar com a triste notícia da morte do Glauco e de uma forma tão brutal, é algo tremendamente triste e sem muito consolo.



Com certeza muitos já disseram sobre ele no dia de hoje muito melhor. A mim, uma simples homenagem a esse cara que mudou a cabeça da gente com seu humor e com seu coração.