1 de junho de 2026

O CAMINHO DO RISCADO parte 02

                      Como sempre, ainda hoje, claro e também naquele período que comentava na primeira parte dessa série de textos, em um primeiro momento para produção de uma página de uma hq, isso claro, já com o roteiro pronto ou recebido, partia para os thumbails, um pequeno, rápido, mas preciso rabisco de cada cena para cada quadro da página, um primeiro fluxo de ideia, composição e diagramação da página, viria depois. Passada essa etapa inicial, aí já com mais definida a diagramação da página e quadros, aí sim, vamos para o desenho. E como estava naquele campo da arte buscando a realidade, o traço acadêmico, e como comentei com vocês anteriormente, sempre tendo como ponto central as referências fotográficas, entrava em uma busca onde em sua maioria das vezes, levava quase uma hora na busca de imagens para cada quadro. Cada quadro!!! Vocês podem imaginar isso? O tempo gasto?! Claro, o resultado final, o lápis bem finalizado (nesse período trabalhava direto com o arte-finalista Omar Viñole), era muito satisfatório, posso dizer desse modo.

Justamente durante a produção da minissérie Depois da meia-noite, provavelmente em 1998, se memória fraca não estiver... fraca..., foi que percebi claramente (aí sim, esse momento dessa percepção, ainda hoje me é muito forte) que muitas das cenas que pensava para história, principalmente as cenas de ação, pois se tratava de uma hq policial de suspense e ação, perdia absurdamente sua veracidade, seu dramatismo, por causa justamente da busca da determinada imagem que melhor representasse a cena. Mesmo manipulando aqui ou ali do desenho, a referência fotográfica ainda era o guia para a ilustração, no geral, embora, como dito anteriormente, o resultado era satisfatório e às vezes até bonito esteticamente, estava completamente vazio de real intenção e principalmente força. Aquilo gritava muito na minha cabeça e, obviamente começara a incomodar ao ponto de sair da zona de conforto.                                Curiosamente naquele período, ou talvez nem tanto, por motivos óbvios, meus olhos se voltaram para artistas com traços mais estilizados, às vezes cartunescos e, principalmente mais soltos e claro, muito expressivos. Dois exemplos fortíssimos dessa tendência eram Will Eisner, em diversos outras possibilidades visuais e psicológicas, além da coisa do traço e Bruce Timm, que então fazia tremendo sucesso com a animação genial Batman animated series.                     O desejo de deixar o traço realista era tamanha, porém, parecia-me uma ousadia (vejam só!!) difícil de realizar e mesmo, inaceitável, para com os leitores que me seguiam e eram fãs dos meus trabalhos, principalmente por aqueles que me conheceram com as hqs do Zé do Caixão. Exato, amigos, a cabeça da gente às vezes caminha por trilhas complexas e complicadas.                                                           Mas, o desejo de mudar era imenso e se manifestava de uma maneira dentro de minha cabeça, que nenhuma "corrente" iria me segurar, nem as barreiras da zona de conforto. Ou seja, a aposta, embora difícil, era arriscar. Vale abrir um parênteses para comentar sobre os primeiros estudos feitos no final da década de noventa para Yeshuah. As ideias para essa hq já estavam se montando em minha cabeça, embora ainda distantes do que foi realizado. Esses estudos, por sinal, entraram nos extras da edição Yeshuah absoluto lançada em 2016, e nesses estudos mostram ainda a intenção de desenhar dentro do traço realista.

Atualmente vendo esses desenhos em sua primeira concepção e ideia de narrativa visual, fica muito claro o enorme peso que teria na condução narrativa, no roteiro. Yeshuah marca a transição definitiva, a primeira, nas minhas hq's.
Cheguei mesmo a produzir, uma ou duas páginas nessa pegada de traço realista. Talvez três páginas, pensando um pouco melhor, talvez... enfim, e a observação dessas páginas finalizadas, aquela coisa de ficar olhando e olhando o original na mesa, foi a gota d'água, pois a impressão que tive, me remetia àqueles filmes antigos de Hollywood, tipo Reis dos reis ou Ben-Hur,
ou até mesmo as novelas bíblicas da tv Record. As imagens aqui mostradas falam por si só. O descontentamento foi tanto que cheguei a jogar fora esses originais primeiros da hq, restando simplesmente esses esboços aqui mostrados e mais alguns outros que estão, como disse, nos extras do Yeshuah absoluto.

Nesse mesmo período, fiz com o André Diniz, roteirista e desenhista, a hq Subversivos: companheiro Germano, lançada em 2000 pela então editora independente do André, a Nona Arte. Nesse quadrinho, aconteceu meu primeiro ato para libertação do traço realista. André, mais que um querido amigo, um irmão, na ocasião morava no Rio de Janeiro, sua cidade de origem (hoje mora em Braga, Portugal), em uma de suas periódicas vindas a São Paulo, encontrávamos nos vários cafés da cidade onde colocávamos as fofocas em dia e muito conversávamos sobre processos criativos de ambos e eu, sobre meu anseio de mudar de estilo, na busca de libertação para simplesmente deixar a ideia fluir, guiando minha força narrativa. Conversamos muito sobre então Um contrato com Deus do Will Eisner e a forma solta com a qual criou todo o visual dessa hq, sem necessariamente estar delimitado dentro de um requadro ou da necessidade de um cenário, um background o tempo todo. muitas vezes, apenas preocupado no que pretendia mostrar do personagem em si. 
            Saímos do café e fomos diretamente a um sebo (um dos muitos que existiam no centro de São Paulo) onde encontrei e adquiri o clássico de Eisner. A leitura não me surpreendeu tanto, mesmo sendo o texto uma obra maravilhosa, mas já havia lido muita coisa desse mestre, incluindo, obviamente The Spirit, mas o que me surpreendeu foi ter a nítida certeza do que eu poderia fazer. Estava absurdamente muito claro ali naquelas páginas. E foi assim que dispensei todas as pastas com referências fotográficas, ficando apenas com as de figurinos e cenários, sempre importantes. Comecei então a trabalhar nos desenhos de Subversivos: companheiro Germano, era apenas eu, o lápis e o papel.
            Ainda hoje a sensação do frescor de olhar o papel em branco e criar tudo ali do zero, somente minhas ideias e apenas desenhá-las, era uma pequena-grande sensação de me libertar de um estágio da minha arte para outro estágio.