5 de julho de 2026

O CAMINHO DO RISCADO parte 03

             No período de transição entre o término dos desenhos de  Subversivos: Companheiro Germano  e sua publicação em 2000, pela editora independente do André Diniz, a Nona Arte, comecei finalmente a trabalhar nos desenhos de Yeshuah , dentro desse nova ideia, dessa nova intenção de me expressão através desse traço mais solto e totalmente descompromissado com os maneirismos do traço acadêmico, realista. Vale acrescentar somente a título de curiosidade que, nesses primeiríssimos anos de produção dos desenhos da hq, a ideia era que Yeshuah, então sem subtítulo, como os três volumes bem posteriormente viriam a ter, fosse um obra só. Tivesse o tamanho que fosse. Claro que, na situação que vivia o cenário das Histórias em Quadrinhos Brasileiras, daquele período, onde praticamente nada se publicava, com excessão de um ou outro lançamento e muitos ligados ao cenário independente ou de pequenas editoras, era algo muito inviável e de difícil realização. Mas esse raciocínio lógico não me impediu a intenção, muito menos o processo de feitura do quadrinhos. Mas isso é uma outra história.


            E assim, foi seguindo a produção de Yeshuah, onde ano após ano, enquanto trabalhava nos desenhos, produção essa que durou de 1999 até 2013, paralelamente fui produzindo alguns outros quadrinhos e lançando-os, como a adaptação de Auto da Barca do Inferno, Histórias do Clube da Esquina, além de várias histórias curtas feitas na colaboração para muitas revistas mix, que começaram a surgir à partir de meados da primeira década dos anos dois mil, principalmente através do movimento do coletivo Quarto Mundo. Através de toda essa intensa produção fui entendendo e me solidificando na linha de desenho que buscava. Solta, sem anatomia correta, pode se dizer assim, embora não existe muita escapatória, pois sempre existe uma, mesmo que seja do seu jeito de fazê-la. Com boa dose de estilização e traço caricatural. Buscando sempre uma forte expressão física, gestual, para que a dramaticidade, ação, humor ou seja lá o que o momento pedisse na cena, chegasse primeiro ao leitor que só apenas a visão do desenho em si. 

            Essa descoberta e uso dessa nova forma de desenhar no meu trabalho, foi muito alicerçado pela arte-final, onde em um primeiro período foi todo executado com a firmeza e graça do pincel, bico de pena e canetas do tremendo artista Omar Viñole, e depois por mim, que assumi toda essa parte, movido por um gigantesco desejo de dominar toda essa parte da produção, como lá atrás, já fazia, muito embora sem técnica alguma, porém, com muita vontade e era nesse quesito, aliás,  que busquei trazer de volta, quando voltei a arte-finalizar meus desenhos. Nesse período, minha finalização era muito em cima de hachuras, processo trabalhoso, mas que trazia à página um belo vislumbre final.



            Em alguns casos, a página levava mais que um dia para finalizá-la, ou até mais que isso. Em Yeshuah, isso ocorreu inúmeras vezes, devido a páginas carregadas de detalhes e excessos de hachuras, que, mesmo então, contando com o nanquim do Omar Viñole, meu lápis já se preocupava em cometer esse excesso, indicando já o caminho de finalização para ele. Tudo que fosse necessário, pois a ideia era então, impactar mesmo.

            E é aí que entramos em uma terceira fase dessa trajetória na busca de um traço que expressasse o momento, as coisas que queria dizer e mostrar.  Foi em um período por volta de 2018, quando todo esse excesso gráfico começou a me incomodar, a me cansar. Dentro de minha observação, mesmo adorando o resultado de muitas hq's longas e curtas que lia, dentro desse acabamento, percebia que algo incondicionalmente estava novamente acontecendo: a vontade de mudar.  Meus olhos começavam a procurar quadrinhos e artes de caras como Alex Toth, José Muñoz, Flavio Colin, Hugo Pratt, mestres do grafismo e principalmente da síntese. Isso era o que estava assoprando na minha orelha. 

1 de junho de 2026

O CAMINHO DO RISCADO parte 02

                      Como sempre, ainda hoje, claro e também naquele período que comentava na primeira parte dessa série de textos, em um primeiro momento para produção de uma página de uma hq, isso claro, já com o roteiro pronto ou recebido, partia para os thumbails, um pequeno, rápido, mas preciso rabisco de cada cena para cada quadro da página, um primeiro fluxo de ideia, composição e diagramação da página, viria depois. Passada essa etapa inicial, aí já com mais definida a diagramação da página e quadros, aí sim, vamos para o desenho. E como estava naquele campo da arte buscando a realidade, o traço acadêmico, e como comentei com vocês anteriormente, sempre tendo como ponto central as referências fotográficas, entrava em uma busca onde em sua maioria das vezes, levava quase uma hora na busca de imagens para cada quadro. Cada quadro!!! Vocês podem imaginar isso? O tempo gasto?! Claro, o resultado final, o lápis bem finalizado (nesse período trabalhava direto com o arte-finalista Omar Viñole), era muito satisfatório, posso dizer desse modo.

Justamente durante a produção da minissérie Depois da meia-noite, provavelmente em 1998, se memória fraca não estiver... fraca..., foi que percebi claramente (aí sim, esse momento dessa percepção, ainda hoje me é muito forte) que muitas das cenas que pensava para história, principalmente as cenas de ação, pois se tratava de uma hq policial de suspense e ação, perdia absurdamente sua veracidade, seu dramatismo, por causa justamente da busca da determinada imagem que melhor representasse a cena. Mesmo manipulando aqui ou ali do desenho, a referência fotográfica ainda era o guia para a ilustração, no geral, embora, como dito anteriormente, o resultado era satisfatório e às vezes até bonito esteticamente, estava completamente vazio de real intenção e principalmente força. Aquilo gritava muito na minha cabeça e, obviamente começara a incomodar ao ponto de sair da zona de conforto.                                Curiosamente naquele período, ou talvez nem tanto, por motivos óbvios, meus olhos se voltaram para artistas com traços mais estilizados, às vezes cartunescos e, principalmente mais soltos e claro, muito expressivos. Dois exemplos fortíssimos dessa tendência eram Will Eisner, em diversos outras possibilidades visuais e psicológicas, além da coisa do traço e Bruce Timm, que então fazia tremendo sucesso com a animação genial Batman animated series.                     O desejo de deixar o traço realista era tamanha, porém, parecia-me uma ousadia (vejam só!!) difícil de realizar e mesmo, inaceitável, para com os leitores que me seguiam e eram fãs dos meus trabalhos, principalmente por aqueles que me conheceram com as hqs do Zé do Caixão. Exato, amigos, a cabeça da gente às vezes caminha por trilhas complexas e complicadas.                                                           Mas, o desejo de mudar era imenso e se manifestava de uma maneira dentro de minha cabeça, que nenhuma "corrente" iria me segurar, nem as barreiras da zona de conforto. Ou seja, a aposta, embora difícil, era arriscar. Vale abrir um parênteses para comentar sobre os primeiros estudos feitos no final da década de noventa para Yeshuah. As ideias para essa hq já estavam se montando em minha cabeça, embora ainda distantes do que foi realizado. Esses estudos, por sinal, entraram nos extras da edição Yeshuah absoluto lançada em 2016, e nesses estudos mostram ainda a intenção de desenhar dentro do traço realista.

Atualmente vendo esses desenhos em sua primeira concepção e ideia de narrativa visual, fica muito claro o enorme peso que teria na condução narrativa, no roteiro. Yeshuah marca a transição definitiva, a primeira, nas minhas hq's.
Cheguei mesmo a produzir, uma ou duas páginas nessa pegada de traço realista. Talvez três páginas, pensando um pouco melhor, talvez... enfim, e a observação dessas páginas finalizadas, aquela coisa de ficar olhando e olhando o original na mesa, foi a gota d'água, pois a impressão que tive, me remetia àqueles filmes antigos de Hollywood, tipo Reis dos reis ou Ben-Hur,
ou até mesmo as novelas bíblicas da tv Record. As imagens aqui mostradas falam por si só. O descontentamento foi tanto que cheguei a jogar fora esses originais primeiros da hq, restando simplesmente esses esboços aqui mostrados e mais alguns outros que estão, como disse, nos extras do Yeshuah absoluto.

Nesse mesmo período, fiz com o André Diniz, roteirista e desenhista, a hq Subversivos: companheiro Germano, lançada em 2000 pela então editora independente do André, a Nona Arte. Nesse quadrinho, aconteceu meu primeiro ato para libertação do traço realista. André, mais que um querido amigo, um irmão, na ocasião morava no Rio de Janeiro, sua cidade de origem (hoje mora em Braga, Portugal), em uma de suas periódicas vindas a São Paulo, encontrávamos nos vários cafés da cidade onde colocávamos as fofocas em dia e muito conversávamos sobre processos criativos de ambos e eu, sobre meu anseio de mudar de estilo, na busca de libertação para simplesmente deixar a ideia fluir, guiando minha força narrativa. Conversamos muito sobre então Um contrato com Deus do Will Eisner e a forma solta com a qual criou todo o visual dessa hq, sem necessariamente estar delimitado dentro de um requadro ou da necessidade de um cenário, um background o tempo todo. muitas vezes, apenas preocupado no que pretendia mostrar do personagem em si. 
            Saímos do café e fomos diretamente a um sebo (um dos muitos que existiam no centro de São Paulo) onde encontrei e adquiri o clássico de Eisner. A leitura não me surpreendeu tanto, mesmo sendo o texto uma obra maravilhosa, mas já havia lido muita coisa desse mestre, incluindo, obviamente The Spirit, mas o que me surpreendeu foi ter a nítida certeza do que eu poderia fazer. Estava absurdamente muito claro ali naquelas páginas. E foi assim que dispensei todas as pastas com referências fotográficas, ficando apenas com as de figurinos e cenários, sempre importantes. Comecei então a trabalhar nos desenhos de Subversivos: companheiro Germano, era apenas eu, o lápis e o papel.
            Ainda hoje a sensação do frescor de olhar o papel em branco e criar tudo ali do zero, somente minhas ideias e apenas desenhá-las, era uma pequena-grande sensação de me libertar de um estágio da minha arte para outro estágio.
                     

25 de maio de 2026

O CAMINHO DO RISCADO parte 01

            Houve um período em minha trajetória nos campos das artes, ou mais especificamente dizendo, nas Histórias em Quadrinhos, onde posso trazer uma analogia do tipo, "o carro já havia esquentado, então já dava para sair dirigindo!", em que meu objetivo era basicamente desenvolver um bom, senão melhor, traço realista, ou como se dizia nesse período, o traço "acadêmico", que por sinal, não faço a mínima ideia se ainda é usado esse termo... Para esse intento. estudava bastante os grandes mestres dessa linha de desenho que me inspiravam, tantos os gringos como brasileiros. Além de mestres também da pintura e fotografia. E, falando em fotografia, esta era muito usada para desenvolvimento dos desenhos. a referência pura.                                                                                                                     

           Desse período, que na atual data, contam-se mais ou menos uns trinta anos, na memória, há um trabalho que pega demasiadamente nessa vertente na busca pelo realismo no traço, que é a adaptação do filme do Zé do Caixão (cineasta José Mojica Marins), Esta noite encarnarei em teu cadáver, o filme em questão era o segundo do personagem e consequentemente a minha segunda adaptação também.                                                                                 


                 
 Neste trabalho está exposto uma imersão profunda na busca de um desenho bonito (pelo menos na minha leitura), bem realista e muito, com a ajuda inestimável e talentosa do arte-finalista Omar Viñole, onde justamente através desse trabalho começamos uma parceria que durou vinte anos.                                                                                                  

                   Daí para frente, alguns outros quadrinhos foram feitos, importante dizer que não era uma época tão produtiva editorialmente falando no cenário das hq's como hoje em dia, mesmo com tantas dificuldades financeiras que o país sempre está atravessando. Enfim, muito material erótico, de sexo explícito, uma ou outra hq de terror, e eventualmente alguma participação nos (antigos) fanzines, embora meu ritmo de produção colaborativa com a rapaziada independente estava muito abaixo do que minha atuação na década anterior. Foi ainda nesse período da segunda metade dos anos noventa que produzi a minissérie Depois da meia-noite, que por sinal, só viria a ser publicada, praticamente, dez anos depois e de forma independente. Aqui no blog, lá para trás, bem pra trás, comento sobre essa hq, procurem, procurem... Foi aí, nessa gibi, que comecei a melhor perceber como estava tremendamente preso de uma ideia - a da busca do desenho realista -  e claro, preso as referências fotográficas. Ou seja, por mais que até soubesse desenhar a cena pensada sem uso de fotografias, não conseguia me desvencilhar disso, pois o hábito... ou talvez o vício era maior.                                                                                                                                    


            

             Aqui, vale uma leve parada para melhor explicar e vocês, de alguma forma, visualizarem uma analogia que quero compartilhar: imaginem um objeto de maestria, de beleza (de desenho, no caso), onde você está atado totalmente a essa intenção, sem na realidade, ter absoluto ou quase absoluto domínio sobre ela, ou seja, você está preso, verdadeiramente, sem maestria alguma, apenas, na vontade, eterna busca de algo que te prende.

            Tratava-se dos anos noventa, e a internet estava a milhas e milhas da comum existência doméstica como é hoje em nossas vidas, portanto, para          trabalhar com as referências fotográficas, tinha no estúdio pastas e pastas        com  fotos recortadas de jornais, revistas, folhetos e o que mais fosse possível: corpos e faces masculinas e femininas, roupas, carros, casas internas e externamente, lugares, enfim, tudo que fosse possível ter para referência.                                                                                                            

                      

                                                                


16 de maio de 2026

A ODISSÉIA DE NINGUÉM

             Falando um pouco mais dessa talentosa e querida amiga Adriana Avelino, ela recentemente me homenageou criando essa página, que talvez... talvez... possa ter continuações, chamada Laudisséia. Pelo título, obviamente dá para perceber os elos, a simbologia da coisa toda e o mais interessantes, a ideia/intenção, nasceu de alguns dos muitos papos nossos à distância, via aplicativo.

            Desfrutem!


            Para conhecer mais do trabalho da Adriana Avelino é só clicar aqui

14 de maio de 2026

BRINCANDO DE RELEITURAS

 

Sabe aquela criação que você gostaria de ter feito? Pois é...
A profusão com que a talentosíssima artista Adriana Avelino (a mesma que me entrevistou recentemente, num delicioso bate-papo e que deixei o link na postagem anterior) cria seus personagens, suas histórias, seus universos (ou tira-se o plural para um único só, pois tudo parece vir de um mesmo vasto lugar) é assombroso e bom demais. E é nessas que, eu pelo menos, tenho vontade às vezes de ancorar e dar minhas releituras, contar suas histórias acrescentado um temperozinho próprio.
Aqui vai um exemplo de uma interpretação de uma criação dela inspirada no mito de São Cristóvão.

E, caso queira conhecer um pouco mais do trabalho dessa tremenda artista é conferir na sua página no Instagram

11 de maio de 2026

... MAIS UM DEDO DE PROSA!

             ...e a tremenda artista dos quadrinhos e da literatura Adriana Avelino, fez um entrevista tremenda comigo, à propósito do futuro lançamento da primeira edição da Biblioteca Brasileira de Quadrinhos, que trará um apanhado desses anos todos de minha carreira nos quadrinhos. O bate-papo vai num crescendo delicioso, que só uma pessoa talentosíssima e sensível como ela, conseguiriam extrair.


 Links para você conhecer o trabalho dessa artista: aqui e aqui



7 de maio de 2026

MAIS BATE-PAPO NO AR!

             No final do ano passado, 2025, participei do podcast da escola estúdio Modelo Design, aqui em São Paulo, conversando com seus artistas e professores Thyago Bastos e Luis Ayala, onde em um pouco mais de uma hora falamos sobre a profissão de desenhistas, processos de criação nos quadrinhos e mais algumas outras coisas. Papo delicioso, o pessoal da escola me acolheu com um carinho tremendo. 


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