A mudança de acabamento, a arte-final e claro, consequentemente o desenho estava tomando conta completamente da minha visão de produção artística. Ao mesmo tempo que já não enxergava mais desenhar/arte-finalizar meus desenhos como vinha fazendo há anos em trabalhos como Yeshuah e Olimpo Tropical, por exemplo, havia um certo e pode se dizer conforto em trabalhar assim, primeiramente porque nos primeiros rabiscos no papel, mesmo sem ter passado nanquim, já tinha a visão antecipada do resultado e principalmente de sua qualidade, dentro claro, do meu jeito de desenhar. E isso é confortante, como disse, inclusive, de certa forma, embasado pelos leitores dos meus trabalhos que gostavam dessa linha nos meus desenhos. Mas a intenção estava absoluta e começou a ser feita, de modo muitíssimo discreto, quase imperceptível em As senhas de Charlotte, álbum lançado em 2020, pela Epígrafe Editorial, editora de Foz do
Iguaçu, ligada a Associação Internacional para Expansão da Conscienciologia - AIEC, trabalho fantástico que infelizmente ficou reduzido, até o momento, aos membros dessa associação. A hq de edição luxuosíssima, vale, quem sabe, uma futura postagem aqui, contando seus processos de criação, tem roteiro adaptado de um livro de Honoré de Balzac, pelo Lillo Parra e cores do Omar Viñole, curiosamente, esse trabalho marca também nossa última parceria. Enfim, no decorrer dos desenhos dessa História em Quadrinhos, ia sutilmente experimentando a intenção de limpar o meu desenho. Quem ler, irá ver meu traço ainda carregado de hachuras, pequenos detalhes de risquinhos e tudo que vinha há anos fazendo, mas há momentos, mais uma vez comentando aqui, em que suprimia isso, deixando poucas coisas e isso valeu para realmente me julgar apto para mudar radicalmente meu traço.O passo seguinte veio na produção de Aymará, parceria que estabeleci com a filósofa, escritora e espiritualista Rita Foelker, lançado em 2021 pela editora Café Espacial. Foi nesse trabalho que resolvi mudar radicalmente meu desenho e meu acabamento, indo de encontro diretamente às intenções. Não me pouparia. Por se tratar, inclusive de um projeto autoral, ou seja, não havia nada me impedindo. De quebra, resolvi experimentar algo além dessa mudança do desenho: fazer uma página com muito mais quadros. Geralmente minhas páginas possuem cinco, seis quadros, na época e mesmo hoje, resolvi que Aymará , teria uma decupagem de páginas influenciada pelas hq's européias, ou seja, dez, doze, treze quadros. Mudando inclusive minha percepção de contar a cena e forma narrativa. Uma experiência enriquecedora, que muito me agradou e que também, mostrou-me outras possibilidades na
manufatura de um contar quadrinhos e, que não repeti mais essa experiência e digo que, urgentemente preciso fazer algo assim novamente. Na ocasião, a visão desse desejo, desse anseio, plasmado nas páginas dessa hq, foram muito mais que satisfatórias. Realmente foi a consolidação que essa mudança para minha carreira nos quadrinhos, precisava acontecer. Vale ressaltar que no âmago da coisa, não alterou em nada meu modo de conduzir a linha narrativa de uma história: o modo de pensar as cenas, planos, ângulos e tudo mais, mas trouxe uma nova forma de se trabalhar, acho que posso dizer assim, toda essa percepção, pois afinal de contas, o desenho era outro. E, falando em desenho, um detalhe muito fundamental para essa mudança promovida na ocasião, um pouco antes dos desenhos de Aymará, creio eu, foi uma conversa que tive com o Ilustrador e designer Flavio Soares.Naquele período, conversava com alguns amigos ilustradores sobre a questão do traço e, foi justamente o Flavio que trouxe algo de um campo inusitado, que selou a minha intenção: ele comentou o quanto gostava do meu traço na série de tirinhas do personagem David Escarlate , pelo design e pela síntese toda.
Aquilo me soou tão inusitado, vindo de um lugar tão inesperado, que depois do espanto inicial, trouxe-me um imediato entendimento e aceitação, como respondi para ele: ...e faço isso (o desenho das tiras) sem sofrer! É rápido. E era esse o segredo: não é preciso "sofrer" para produzir uma página e gerar seu efeito, a coisa tem que ser simples e eficaz. Ao Flavio Soares, aliás, meu agradecimento pela contribuição nesse processo. Aymará , finalizado e entrando em pré-produção para publicação, já comecei então a pensar sobre o próximo trabalho que, já andava pela minha cabeça há alguns anos: As tentações de Santo Antão.







