Há alguns bons anos somei a todos os meus trabalhos, não importa o gênero-drama, comédia, terror, ficção-científica, espiritualista- enfim, quais forem os gêneros que venha a atrever a trabalhar, somei uma estética que remete aos anos sessenta e setenta, principalmente no tocante a moda. Cresci nesse período, dos anos 70 e o cinema, principalmente, me marcou muito. Existe todo um lado transgressor em inúmeras produções que me fizeram a cabeça e, acredito que no decorrer das décadas, muita coisa produzida então, não conseguiu se nivelar na ousadia de muitos filmes e que por isso, ainda são referência. A moda tanto masculina como feminina, ainda hoje (óbvio, daí por trazê-la para meu trabalho) chamam o meu interesse: pelo estilo, charme, classe, ousadia, mesmo que muita coisa soe brega. Mas claro, essa releitura sempre, dentro do que é possível no meu propósito criador, atualizada nos dias de hoje, pois é para os dias atuais e leitores atuais que se produz.Em Cabaret X, gibizão que estou produzindo com a talentosíssima Germana Viana, criei a série Mondo Balordo. O título remete diretamente aos clássicos pseudodocumentários sensacionalistas produzidos nos anos 60 da série Mondo, onde tínhamos Mondo Cane, que deu início a tudo e depois vieram as variações: Mondo Pazzo, Mondo Trash e claro, Mondo Balordo. Vale acrescentar que Balordo é uma produção de 1964, italiana, que explora justamente as ditas excentricidades do mundo mostradas na película, daí o "balordo", ou traduzindo, algo como Mundo Bizarro, Mundo Insano. Então, além de se ajustar na estética do enredo da série, também enquadra completamente com o conceito desse estranho mundo futurista retratado na hq.
Os figurinos dos personagens já trazem essa salada, misturando o estilo setentista com a atualidade. O título desse primeiro episódio é A palo seco. A frase, de origem espanhola significa algo como, direto, sem rodeios, cru, e também inspirou um poema de João Cabral de Melo Neto, que por sua vez, inspirou o cantor e compositor Belchior a criar uma canção com o mesmo título nos anos setenta e é justamente aí que reside a fonte para o título e fechamento da primeira hq de Mondo Balordo. O grupo guerrilheiro da série que faz uma ataque direto no palácio do planalto do governo fascista (daí a coisa toda de A palo seco) se denomina Barato Vermelho, a ideia é uma junção do título de outra clássica canção escrita nos anos setenta por Gilberto Gil e eternizada na voz de Gal Costa, Barato total, com o vermelho ligado diretamente às ações contrárias, ardentes, vorazes, de esquerda. Somam esses dois pontos a toda uma alegoria estética e ideológica dos personagens que compõe o grupo e se tem Barato Vermelho.
Em Mondo Balordo há ainda referências e inspirações estéticas menores e outras que virão nos futuros próximos episódios (sim, porque esse gibi vai vingar!). As cores da hq, trarão também a força das cores primárias, ligando diretamente a Arte pop, onde os quadrinhos são um dos seus representantes máximos. Por um lado não tão prazeroso, posso dizer assim, de um modo mais sucinto, ela, a série, traz todo esse posicionamento contra essa ideologia arcaica, fascista, preconceituosa, onde muita gente no mundo quer perpetuar, trazer de volta, algo que definitivamente deveria estar se não excluída da nossa sociedade, pelo menos em fase de exclusão. Os tempos por mais que difíceis, ainda hoje, a resistência é preciso, nos sonhos, nos atos, no pensar, na vida. E ainda trazendo esse grande poeta da música, Belchior, vale lembrar um trecho de uma outra clássica canção sua, Velha roupa colorida:
Você não sente, não vê mas eu não posso deixar de dizer, meu amigoQue uma nova mudança em breve vai acontecerO que há algum tempo era novo, jovemHoje é antigoE precisamos todos rejuvenescer
Cabaret X, de Germana Viana e Laudo Ferreira, será publicado pela Zarabatana Books e está em campanha de pré-venda no Catarse









