A última postagem que trouxe aqui nesse meu tão querido e velhinho blog, sobre as capas dos gibis do Zé do Caixão que produzi ao longo desses anos de trajetória, me suscitou a lembrança de uma situação vivida por ocasião da produção do álbum Zé do Caixão lançado pela Editora Marsupial em seu selo Jupati Books em 2016. Nessa publicação fora compilado as duas adaptações que fiz dos dois primeiros filmes do personagem, À meia-noite levarei a sua alma e Esta noite encarnarei em teu cadáver, sendo que a primeira adaptação havia sido publicada em 1995 pela Editora Nova Sampa e a segunda, apenas uma parte dela num projeto de minissérie, lançada pela Taquara Editorial, que acabou não se concretizando por problemas da casa publicadora, ficando apenas no primeiro número do que seria em três partes. Bem, tudo isso mais ou menos comentei na postagem anterior.
| Lucio Luiz, dono da Editora Marsupial |
A obra original, o filme do José Mojica Marins, é uma obra prima do cinema brasileiro e mundial, por centenas de motivos que, de minha parte dispensa comentá-los, pois já foi mais do que escrito, falado e comentado pelo país e pelo resto do mundo ao longo de décadas. Visceral, pungente, autentico e mais uma infinidade de adjetivos para no mínimo definir À meia-noite levarei a sua alma. Minha versão em quadrinhos, no meu modo de pensar na ocasião, era algo bem simples, quase sem um pensar mais aprofundado sobre o que estava fazendo ou seja, adaptando esse clássico que ia além do filme de terror, a estética, a forma gráfica de mostrar esse ícone da cultura nacional, quase ou já folclórica, era quase amadora e de um desenho bem deficiente. Em resumo, a obra e seu criador mereciam algo mais à sua altura, como já acontecera no passado, mais especificamente em final dos anos sessenta, quando o próprio Mojica produziu seus quadrinhos com dois mestres absolutos, Nico Rosso e Rodolfo Zalla. O peso das comparações...
Lucio insistiu no resgate dessas duas publicações e da importância que teria dentro do panorama das hq's nacionais, claro que isso tudo me deixava lisonjeado, porém o elemento crítico que existe em todo artista, falava mais alto. Meu olhar sobre essa hq era diferente: para mim, julgava tratar-se de um trabalho muito fraco no que se refere ao desenho e todas as as possibilidades narrativas próprias para uma hq, diferente do que vinha produzindo, principalmente pelos resultados que vinha obtendo com a publicação até então da trilogia Yeshuah, ou seja, não me agradava trazer à baila novamente esse trabalho que tinha, como disse tanta ressalvas. Então, durante o tempo de nossa estadia em Belo Horizonte, por ocasião do evento, muito foi conversado entre eu e Lucio e sempre tendo um não como resposta.
Já em São Paulo, algum depois, numa passagem pela capital, Lúcio Luiz é natural do Rio de Janeiro, durante um almoço juntamente com Flavio Soares, quadrinista, ilustrador e designer da Editora Marsupial na época, o assunto do álbum veio novamente à tona, já colado com minha negativa em relação à publicação de À meia-noite levarei a sua alma. Foi então que Flavio, tirou do bolso, uma ideia, no mínimo genial, que me deixou completamente sem ação para continuar na negação desse quadrinho: criar uma hq curta, como um tipo de introdução, de prefácio para o álbum, onde justamente eu contaria todo esse perrengue de minha parte, ou seja, todas as questões de não gostar da qualidade do meu trabalho feito naquela época, na insistência do Lúcio Luiz, a questão do resgate histórico, tudo num tom humorado e, a hq justamente culminaria com a aparição da entidade Zé do Caixão cobrando de mim essa decisão para liberar a hq, pois afinal, ele é o personagem focado, tudo embalado com as clássicas pragas que o agente funerário tornara famosas. A hq, de três páginas (um prefácio) termina com o Mojica em sua casa recebendo a notícia por telefone do Lúcio, informando que misteriosamente eu,enfim, concordara com a publicação.
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| Trecho do prefácio desenhado da edição "Zé do Caixão" |
Zé do Caixão foi publicado em 2016, contendo as duas hq's, mais esse prefácio desenhado e um outro texto meu comentando sobre todo processo criativo no adaptar os filmes do Mojica, o fazer também hq's curtas e inéditas naquele período, juntamente com ele, criando os roteiros e o tanto de aprendizado de vida e de fazer arte que tive nas muitas conversas que tivemos ao longo dos anos. A publicação foi um grande sucesso, vende bem até hoje, pois vire e mexe autografo essa edição em alguns eventos que participo.
Mas, trazer esse assunto para vocês, está numa questão um pouco maior que simplesmente um fato ocorrido com a publicação desse gibi (sim, bato na mesma tecla, vamos falar gibi!)...
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| Capa da nova edição publicada pela Tábula |
Em 2025, o Douglas da editora Tábula, casa publicadora que frequentemente participo com colaborações em suas diversas publicações, me propôs uma nova edição da adaptação de À meia-noite levarei a sua alma, pois já havia conversado com a Liz Marins, atriz, filha do Mojica e quem cuida dos direitos da obra do pai, que já havia autorizado a republicação e só faltava o meu ok, coisa que imediatamente teve o consentimento de minha parte. Falamos sobre o desenvolvimento de uma nova capa, onde foi proposto que ela se baseasse no cartaz original do filme de 1964 (na postagem anterior comento sobre isso) e assim, a nova edição da versão para quadrinhos do clássico filme do José Mojica Marins foi lançada no final deste mesmo ano, durante a CCXP- Comic Con Experience, evento fundamental para a cultura pop que acontece aqui em São Paulo, todos os anos.
A rápida aprovação de minha parte, trouxe-me uma curiosa reflexão logo após o envio da resposta ao diretor da Tábula, sobre a tranquilidade, a aceitação desse trabalho, que tive. Uma curiosa sensação de calmaria na cabeça, no emocional, uma libertação, posso até arriscar a dizer. Diferente da negação quase absoluta que tive há dez anos atrás com a proposta da primeira republicação da Marsupial, num ímpeto quase (ou talvez totalmente) egocêntrico de julgar que o trabalho estava muito abaixo da qualidade do que então produzia na época. Esquecendo, mas esquecendo de uma forma absurda, que ele representava muito, mas provavelmente cem por cento, o sonho do menino de vinte e poucos anos, idade que tinha quando desenhei a hq de se lançar para o mundo, conquistando pessoas com o desejo de contar histórias desenhadas. O quadrinho tinha sim, sua validade, não só pela ideia em si da quadrinização do filme, pela aprovação do próprio cineasta, mas por ser absurdamente honesto no que se propôs e principalmente porque na época, a hq simplesmente foi desenhada, sem contaminações do ego que o tempo traz para a gente e que às vezes nos leva distantes da premissa do sonho inicial.
Só com o tempo e com tanta coisa vivida, principalmente no campo pessoal-artístico e o entendimento, ou o princípio dele, que a idade traz, é que é possível, com a alma mais leve, mais pura, apenas dar um brevíssimo consentimento de algo que foi negado antes. Entendendo e principalmente aceitando e amando o que você foi, pois só assim se consegue prosseguir.
| Trecho do perfácio desenhado da edição de 2016 de "Zé do Caixão" |


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