A ideia de As tentações de Santo Antão foi algo que vinha alimentando desde que terminara os desenhos da terceira parte de Yeshuah em 2013 e, como sempre faço quando trabalho em minhas histórias, e com certeza a maioria dos escritores/roteiristas também, vinha montando a trama em minha cabeça e só dois anos depois, finalmente, escrevi o roteiro, muito impulsionado inclusive, por uma primeira possibilidade de publicação na época, antes da Devir Editora que veio a consolidar em 2024. Porém, mesmo tendo achado minha "nova cara" para meus desenhos, não julgava que aquilo que havia feito para Aymará se ajustasse nessa nova hq. Para o Santo Antão, as páginas precisariam ter um ritmo mais tranquilo, muito contemplativo, o cenário, o deserto, conversaria com o leitor. A mesma carga e importância visual que havia realizado em Yeshuah, só que na síntese, na economia e muito vazio nos cenários, sem detalhar muito, só o fundamental, para que o leitor completasse em sua cabeça. Um jogo gráfico e estético interessante, pois traria a pessoa, um pouco mais para dentro da trama.
A cada página desenhada, a cada sequência onde o cenário, a natureza eram elementos fortes da história, a sensação de ter conseguido nos poucos traços, ter criado um ambiente silencioso e misterioso, era plena: a realização dentro de minhas possibilidades. Havia conseguido unir a intenção com o imagético. A hq com cento e poucas páginas, com uma trama basicamente passada em um único ambiente, estava embalada pela contemplação, um silêncio atrás de muito texto que há entre as inúmeras discussões do protagonista com o antagonista. Acredito que essa hq seja o encontro do meu objetivo com esse novo traço, esse novo acabamento no meu desenho, que durante muito tento esbocei na cabeça e depois no papel. A partir de então, fui acertando esse lado técnico da finalização, do desenhar, da síntese em trabalhos realizados posteriormente como a adaptações de Iracema e O vampiro, assim como A prisioneira, todas coloridas, onde pude exercitar essa questão dos espaços vazios, mas ao invés do preto e branco, como no caso de Santo Antão, teve a cor. Devo dizer que nesses processos foi pensado em novas possibilidades, justamente para trabalhar com o colorido, mas como nada ainda foi feito e ainda a coisa toda, digamos assim esteja no campo da reflexão, prefiro obviamente deixar isso para comentar mais adiante. Ainda falando um pouco mais sobre esse elemento contemplativo, da natureza agir um pouco mais que apenas cenário na história, voltei a trabalhar com essas intenções em Mulher-Diaba no rastro da perdição, lançada no final de 2025 e na inédita A Ursa da Tundra, que provavelmente será lançada esse ano de 2026. Ambientes que diferem em si: sertão agreste e regiões geladas das terras nórdicas, mas que estão inteiramente ligados com o que foi feito em Santo Antão, no caso, o deserto no Egito. Tudo isso, claro, algo que já trouxe para meu trabalho.Durante todo esse tempo de estrada na coisa de fazer quadrinhos e mesmo o ilustrar, separando essas duas formas de expressão, que convergem para uma coisa só, obviamente, nunca me detive na intenção de ter a cara do meu desenho, algo sem dúvida muito importante para qualquer artista: ser reconhecido pelo seu traço, seu estilo, sem mesmo precisar ler o nome para saber autoria. Difícil mensurar de uma maneira didática isso, e provavelmente não seja nem preciso. Talvez a inquietação, a sensação que ainda falta muito para se descobrir dentro do meu campo de possibilidade criativa me leve a não me julgar dono de nada que possa dizer meu, compreendem, amigos? Uma ocasião, comentaram sobre o desapego que tenho com meu trabalho, essa reflexão foi feita por um youtuber durante uma entrevista a respeito da hq O santo sangue, pelo fato de ter escrito o roteiro para que eu mesmo a desenhasse, mas posteriormente acabei encaminhando para o tremendo Marcel Bartholo ilustrar, resolução por sinal, acertadíssima, pois o trabalho desse querido artista com minha história foi magnífico. E de certa forma, penso ser isso com meu desenho. É a forma de expressar minha arte que estou usando agora, mas espero que mude novamente daqui algum tempo e devo confessar: estou fazendo as equações mentais para derivar do que faço hoje. Quem vai saber onde vai dar? O tempo, sem dúvida.
Interessante é perceber as infinitas comparações que são feitas: Ah, seu traço lembra muito fulano, cicrano... ou, Fulano (referido artista) ficaria orgulhoso de ver que seguiu a linha dele... enfim, muitos elogios, acredito, provavelmente sinceros, mas que no meu julgar, e me desculpem essas pessoas que tecem esses comentários, mil perdões mesmo! trazem um certo incômodo, pois nessa série de textos que compartilhei com vocês, busquei trazer todo esse processo de busca interna que luta para se exteriorizar, se plasmar na arte que se faz, no caso. Reduzir meramente à semelhança com desenho de outro artista, por mais que haja e isso não estou negando, é não perceber as inquietações que movem quem faz arte, pois fazer é muito mais que desenhar, escrever, cantar, interpretar, o que for, tudo isso é preciso técnica, é a forma que se tem para se expressar. E expressar é nesse ponto, a inquietação, o fazer arte. Ela é preciso, e não importa, aí quero caminhar para outro campo, se e não é percebida pelo público, se ela não é entendida, ou simplesmente comparada, ela primordialmente precisa existir e ser executada: a busca precisa existir. Se percebida, perfeito, se não, perfeito. Mas ela precisa existir. É caminhar pela estrada, voltar para casa, ficar um pouco e depois, sair novamente, para ver o que ainda não se viu, como uma velha canção de estrada dizia.
Tudo isso que trouxe para vocês, não é uma verdade, é uma experiência pessoal, que pode ser e deve ser de tantos, mas que cada um vive por si. Compartilhar é preciso, pois não é um segredo, mais uma vez, cada um a vive por si.









