30 de março de 2026

TEMPO DE MATURAÇÃO

            A última postagem que trouxe aqui nesse meu tão querido e velhinho blog, sobre as capas dos gibis do Zé do Caixão que produzi ao longo desses anos de trajetória, me suscitou a lembrança de uma situação vivida por ocasião da produção do álbum Zé do Caixão lançado pela Editora Marsupial em seu selo Jupati Books em 2016. Nessa publicação fora compilado as duas adaptações que fiz dos dois primeiros filmes do personagem, À meia-noite levarei a sua alma e Esta noite encarnarei em teu cadáver, sendo que a primeira adaptação havia sido publicada em 1995 pela Editora Nova Sampa e a segunda, apenas uma parte dela num projeto de minissérie, lançada pela Taquara Editorial, que acabou não se concretizando por problemas da casa publicadora, ficando apenas no primeiro número do que seria em três partes. Bem, tudo isso mais ou menos comentei na postagem anterior.

Lucio Luiz, dono da Editora Marsupial
            Durante o Festival Internacional de Quadrinhos - FIQ , tradicional e fundamental evento da nona arte brasileira que acontece em Belo Horizonte/MG, mais especificamente a nona edição, de 2015, foi que o pesquisador de quadrinhos e também dono da Editora Marsupial, Lucio Luiz, me veio com a proposta de lançar um álbum juntando essas duas hq's, numa edição caprichada, com nova capa, enfim, trazendo um belo projeto editorial. À princípio, a ideia para mim foi absolutamente aprovada pela enfim, publicação de Esta noite encarnarei em teu cadáver, que não havia conseguido seu intento que justamente era de trazer ao público leitor a versão integral da hq, porém havia seríssimas ressalvas com a republicação do material primeiro publicado em 1995, ou seja, a adaptação do primeiro filme do Mojica/Zé do Caixão. E, na ocasião, essa ressalva era consistente na minha cabeça, pois não queria de jeito nenhum publicar esse material novamente, e o motivo convergia totalmente na minha pessoa.

          A obra original, o filme do José Mojica Marins, é uma obra prima do cinema brasileiro e mundial, por centenas de motivos que, de minha parte dispensa comentá-los, pois já foi mais do que escrito, falado e comentado pelo país e pelo resto do mundo ao longo de décadas. Visceral, pungente, autentico e mais uma infinidade de adjetivos para no mínimo definir À meia-noite levarei a sua alma. Minha versão em quadrinhos, no meu modo de pensar na ocasião, era algo bem simples, quase sem um pensar mais aprofundado sobre o que estava fazendo ou seja, adaptando esse clássico que ia além do filme de terror, a estética, a forma gráfica de mostrar esse ícone da cultura nacional, quase ou já folclórica, era quase amadora e de um desenho bem deficiente. Em resumo, a obra e seu criador mereciam algo mais à sua altura, como já acontecera no passado, mais especificamente em final dos anos sessenta, quando o próprio Mojica produziu seus quadrinhos com dois mestres absolutos, Nico Rosso e Rodolfo Zalla. O peso das comparações...


            Lucio insistiu no resgate dessas duas publicações e da importância que teria dentro do panorama das hq's nacionais, claro que isso tudo me deixava lisonjeado, porém o elemento crítico que existe em todo artista, falava mais alto. Meu olhar sobre essa hq era diferente: para mim, julgava tratar-se de um trabalho muito fraco no que se refere ao desenho e todas as as possibilidades narrativas próprias para uma hq, diferente do que vinha produzindo, principalmente pelos resultados que vinha obtendo com a publicação até então da trilogia Yeshuah, ou seja, não me agradava trazer à baila novamente esse trabalho que tinha, como disse tanta ressalvas. Então, durante o tempo de nossa estadia em Belo Horizonte, por ocasião do evento, muito foi conversado entre eu e  Lucio e sempre tendo um não como resposta.

            Já em São Paulo, algum depois, numa passagem pela capital, Lúcio Luiz é natural  do Rio de Janeiro, durante um almoço juntamente com Flavio Soares, quadrinista, ilustrador e designer da Editora Marsupial na época, o assunto do álbum veio novamente à tona, já colado com minha negativa em relação à publicação de À meia-noite levarei a sua alma. Foi então que Flavio, tirou do bolso, uma ideia, no mínimo genial, que me deixou completamente sem ação para continuar na negação desse quadrinho: criar uma hq curta, como um tipo de introdução, de prefácio para o álbum, onde justamente eu contaria todo esse perrengue de minha parte, ou seja, todas as questões de não gostar da qualidade do meu trabalho feito naquela época, na insistência do Lúcio Luiz, a questão do resgate histórico, tudo num tom humorado e, a hq justamente culminaria com a aparição da entidade Zé do Caixão cobrando de mim essa decisão para liberar a hq, pois afinal, ele é o personagem focado, tudo embalado com as clássicas pragas que o agente funerário tornara famosas. A hq, de três páginas (um prefácio) termina com o Mojica em sua casa recebendo a notícia por telefone do Lúcio, informando que misteriosamente eu,enfim, concordara com a publicação.

Trecho do prefácio desenhado da edição "Zé do Caixão"
            

            Zé do Caixão foi publicado em 2016, contendo as duas hq's, mais esse prefácio desenhado e um outro texto meu comentando sobre todo processo criativo no adaptar os filmes do Mojica, o fazer  também hq's curtas e inéditas naquele período, juntamente com ele, criando os roteiros e o tanto de aprendizado de vida e de fazer arte que tive nas muitas conversas que tivemos ao longo dos anos. A publicação foi um grande sucesso, vende bem até hoje, pois vire e mexe autografo essa edição em alguns eventos que participo.

           Mas, trazer esse assunto para vocês, está numa questão um pouco maior que simplesmente um fato ocorrido com a publicação desse gibi (sim, bato na mesma tecla, vamos falar gibi!)...

Capa da nova edição publicada pela Tábula

           Em 2025, o Douglas da editora Tábula, casa publicadora que frequentemente participo com colaborações em suas diversas publicações, me propôs uma nova edição da adaptação de À meia-noite levarei a sua alma, pois já havia conversado com a Liz Marins, atriz, filha do Mojica e quem cuida dos direitos da obra do pai, que já havia autorizado a republicação e só faltava o meu ok, coisa que imediatamente teve o consentimento de minha parte. Falamos sobre o desenvolvimento de uma nova capa, onde foi proposto que ela se baseasse no cartaz original do filme de 1964 (na postagem anterior comento sobre isso) e assim, a nova edição da versão para quadrinhos do clássico filme do José Mojica Marins foi lançada no final deste mesmo ano, durante a CCXP- Comic Con Experience, evento fundamental para a cultura pop que acontece aqui em São Paulo, todos os anos.

            A rápida aprovação de minha parte, trouxe-me uma curiosa reflexão logo após o envio da resposta ao diretor da Tábula, sobre a tranquilidade, a aceitação desse trabalho, que tive. Uma curiosa sensação de calmaria na cabeça, no emocional, uma libertação, posso até arriscar a dizer. Diferente da negação quase absoluta que tive há dez anos atrás com a proposta da primeira republicação da Marsupial, num ímpeto quase (ou talvez totalmente) egocêntrico de julgar que o trabalho estava muito abaixo da qualidade do que então produzia na época. Esquecendo, mas esquecendo de uma forma absurda, que ele representava muito, mas provavelmente cem por cento, o sonho do menino de vinte e poucos anos, idade que tinha quando desenhei a hq de se lançar para o mundo, conquistando pessoas com o desejo de contar histórias desenhadas. O quadrinho tinha sim, sua validade, não só pela ideia em si da quadrinização do filme, pela aprovação do próprio cineasta, mas por ser absurdamente honesto no que se propôs e principalmente porque na época, a hq simplesmente foi desenhada, sem contaminações do ego que o tempo traz para a gente e que às vezes nos leva distantes da premissa do sonho inicial.

            Só com o tempo e com tanta coisa vivida, principalmente no campo pessoal-artístico e o entendimento, ou o princípio dele, que a idade traz, é que é possível, com a alma mais leve, mais pura, apenas dar um brevíssimo consentimento de algo que foi negado antes. Entendendo e principalmente aceitando e amando o que você foi, pois só assim se consegue prosseguir.

Trecho do perfácio desenhado da edição de 2016 de "Zé do Caixão"





         

     

22 de março de 2026

OS CAMINHOS DE VÁRIAS CAPAS PARA UM MESMO PERSONAGEM

            Hoje quero compartilhar com vocês uma breve história do desenvolvimento de uma capa de um gibi (vou escrever gibi, vai!), que é À meia-noite levarei a sua alma, republicado pela Editora Tábula no final de 2025. Trata-se da terceira publicação dessa hq, e quem acompanha meus trabalhos sabe, trata-se da adaptação do clássico filme de terror nacional homônimo do cineasta José Mojica Marins, o Zé do Caixão de 1964, sendo que a primeira publicação do gibi aconteceu em 1995 pela editora Nova Sampa.

Essa imagem ao lado é da primeira publicação e ela foi totalmente criada pelo próprio José Mojica Marins. O curioso (e daqui a pouco explico o porque dessa curiosidade) é que naquela época, em conversa com Mojica, expliquei que trabalhar numa releitura do cartaz original do filme, não teria um resultado bom, pois o cartaz tinha uma característica muito gráfica e que poderíamos partir para uma ideia do zero. Proposta aceita pelo Mojica que rapidamente intuiu essa imagem que, representava muito o universo de seu personagem e a posição que desfrutava naquele período em relação aos Estados Unidos, onde vinha fazendo um enorme sucesso pelo lançamento de seus filmes em fitas VHS por lá e o Brasil. A imagem, segundo o próprio, faz uma analogia com as predileções brasileiras e americanas e em se tratando de Zé do Caixão estava tudo muito bem condensado nessa imagem.

            Essa outra capa é da edição de 2017 (se não me falhe a memória) da Editora Marsupial/Jupati Books que traz a republicação da hq À meia-noite levarei a sua alma e a publicação na íntegra de Esta noite encarnarei em teu cadáver, adaptação do segundo filme do personagem lançado também nos anos sessenta. Essa hq havia tido uma publicação em 1997 (também se não me falhe a memória) pela editora Taquara, porém a adaptação fora dividida em capítulos e, devido a diversos problemas com a editora naquele período, só houve a publicação do primeiro número.  

           Aqui, a capa embora mais impactante, traz uma ideia bem simples, mostrando o principal da publicação que é o personagem e o sintetizar de sua essência malévola. 


E chegamos no ano passado, 2025, quando fui procurado pela Editora Tábula que pretendia republicar o clássico filme do Zé do Caixão. A ideia proposta seria uma nova capa para essa edição e me foi sugerido pelo Douglas, um dos diretores da casa, que fosse feito uma releitura do cartaz original, como a imagem dessa arte estava fresca em minha cabeça, a sugestão foi imediatamente aceita, pois enquanto acertava detalhes, pude, de certa forma, desenhar essa releitura na minha cabeça, oque significava que a coisa em si daria certo.

Então vem o que comentei no início desse texto com vocês, lá em 1995, quando então trabalhava na edição da primeira publicação dessa hq, a ideia de fazer uma releitura me pareceu difícil, que não teria um bom resultado estético para uma capa de uma revista em quadrinhos. Mas é muito óbvio, que esse pensamento refletia o amadorismo e o limite que trazia comigo como desenhista, ilustrador, naquele momento. Pois, olhando hoje a arte desse cartaz, é claro que daria para fazer uma releitura. Mas foi como foi, e o resultado na época, em cima da ideia do Mojica e sua analogia Brasil - Estados Unidos + preferências, ficou ótimo pelo seu conteúdo, pela sua criatividade, mesmo que... bizarra!

Ao lado, o layout para a capa dessa edição da Tábula, embora alguns elementos da imagem original foram trocados, a ideia, a intenção, o clima, são os mesmos, inclusive o posicionamento do título.

Assim como no cartaz original, a imagem traz luz para outros elementos além do protagonista Zé do Caixão, como a velha bruxa que aparece no início do filme e em determinado momento próximo ao final, uma das vítimas do inescrupuloso agente funerário, que se enforca, outra que tem seus olhos furados e por aí vai.


            Aqui, a arte finalizada da capa para a edição e a qual eu julgo, minha melhor leitura tanto no desenho, como na cor, embora, claro, todas as anteriores tenham seu peso e significância, principalmente pela época em que foram publicadas. Vale compartilhar com vocês o grande interesse nas cores fortes, com boas doses de psicodelia que gosto muito de usar em meus trabalhos, seja qual gênero de história for, como a cor do sangue nos olhos de uma das vítimas do Zé do Caixão, num vermelho forte, bem diferente da cor real, e neste caso foi uma influência e homenagem aos clássicos filmes de terror da clássica produtora inglesa Hammer. 

          Enfim, um processo de trinta anos para interpretações e entendimentos de uma arte de capa para um mesmo produto.




1 de março de 2026

NO RASTRO DA MULHER-DIABA

No final do ano passado, 2025, durante o evento Comic Con Experience, CCXP, realizado aqui em São Paulo, um mega evento sobre cultura Pop, diga-se de passagem, lancei meu mais novo trabalho, "Mulher-Diaba no rastro da perdição" pela Editora Trem Fantasma, editora que há um bom tempo namorava a intenção de publicar algo  e que melhor momento e melhor hq que esta.                      Vale dizer que o gênero dessa história: aventura e cangaço, conversa diretamente com um linha de hq's que já vem sendo publicadas desde a criação da editora e muito em especial tem relação direta com outro título da casa: "Mulher-Diaba no rastro de Lampião", de Ataíde Braz no roteiro e Flavio Colin na arte. Exatamente, esse meu trabalho é uma sequência da obra original, que primeiramente foi publicada em meados dos anos 90 e republicada pela Trem Fantasma em 2024.
A proposta dessa sequência me foi trazida pelo próprio criador da personagem e da história, Ataíde Braz, justamente durante um bate-papo na CCXP de 2023 (se não me falhe a memória). Amigos há longa data, pelo menos desde os anos noventa, sou um tremendo admirador desse pernambucano talentosíssimo que é o Ataíde, por muitas histórias curtas suas que li, como obviamente pela "Mulher-Diaba" original feita com um cara de quem sou fã incondicional que é o Flavio Colin, mas principalmente por "Drácula, a sombra da noite" feito em parceria com sua esposa Neide Harue. 
            Proposta desafiadora, por mexer em um clássico dos quadrinhos nacionais que é a obra original, por ter o peso dos desenhos do Flavio Colin e claro por se tratar de uma tremenda história desse grande mestre da escrita, que é o Ataíde Braz. Essa "intimidação", vamos dizer assim, aconteceu nos primeiros momentos da proposta, nos primeiros cinco minutos, mas logo transformou-se no delicioso desafio de dar à minha leitura sobre o universo geográfico que essa saga acontece e, principalmente minha interpretação visual de Maria, a "Mulher-Diaba" e do próprio Cramulhão, coprotagonista dessa aventura. 
             Nunca havia trabalhado antes com esse gênero de histórias envolvendo especificamente o cangaço, havia passado perto, trabalhado em narrativas próximas , como é o caso do personagem Vérnio  de "O santo sangue" (nesse caso específico fui autor do roteiro e ficando à cargo de Marcel Bartholo, a arte). Então além do desafio de criar a minha versão de um universo já pré-estabelecido, havia também a experiência de me aventurar por um gênero que gosto muito e que muito influenciou-me através do cinema, como o clássico "Deus e o Diabo na terra do sol".
Ataíde Braz, roteirista e criador da Mulher-Diaba
            Para Maria, a protagonista, fui na busca imagética de uma mulher nordestina que obviamente remetesse à minha leitura, a minha visão do que seria essa mulher dentro do contexto histórico que ela vinha, ou seja, a primeira hq e aonde ela estaria inserida nessa continuação. Sua postura, sua observação pelo entorno e como iria lhe dar com todo o contexto apresentado. Sempre foi uma tônica em minhas histórias trabalhar com mulheres e colocá-las numa postura de força de domínio de si, 
algo comum em todas minhas personagens anteriores, independente se tenha sido eu o criador e roteirista. Curiosamente (ou talvez nem tanto assim) ao meu gosto pessoal e como criador, o rosto da personagem foi acertado de primeira, embora sem consultar a opinião final do Ataíde, o criador da Mulher-Diaba, obviamente que seria o dono do sim ou não para tocar a personagem visualmente. Curiosamente, com uma sincronicidade incrível, no mesmo dia que desenhei o concept da personagem, Ataíde enviou-me uma mensagem autorizando e dando completa confiança na forma que eu representaria a personagem e que seria muito importante  a minha leitura da mesma e não me prendesse à visão do Colin. Isso foi um primeiríssimo sinal que o caminho estava certo.
          Do roteiro original de "Mulher-Diaba no rastro da perdição" para a quadrinização tomei a liberdade de expandir sua narrativa visual, deixando com mais páginas que o proposto inicialmente na narrativa escrita, proporcionando um clima contemplativo do cenário que se apresenta em várias página, pois a história quase que toda acontece fora de ambientes fechados, então o agreste e mesmo o tempo chuvoso num sertão árido, que acontece do meio para o final, são personagens importantíssimos para a trama. E justamente a força desses personagens esta em sua ação silenciosa.
            A trama segue os acontecimentos posteriores a "Mulher-Diaba no rastro de Lampião", porém ela também retorna, antes dessa primeira história, contando como o Cramulhão fica desejoso da Maria, para que assim fique claro toda essa questão na saga dessa guerreira do sertão.
            O álbum ainda segue sua trilha de lançamento mesmo fazendo já alguns meses de sua publicação e assim espero que vá por mais um bom tempo, despertando interesse nos leitores que conhecem e os que desconhecem a versão primeira. A Mulher-Diaba aqui, desta nova hq, mesmo sendo uma continuação de uma obra originalmente publicada há mais de trinta anos atrás, segue seu caminho por si e assim tem que ser. Já o Ataíde Braz, preparou a terceira e derradeira história da Mulher-Diaba fechando todas as arestas. E acreditem, o clima no geral só esquenta com novos e velhos personagens das duas histórias se encontrando e se conflitando nesse final, mas, claro, isso ficará para um outro momento.
            O cuidado editorial da Trem Fantasma foi impecável. E como disse, se lá atrás, namorava a ideia de publicar pela casa, não há melhor estreia que essa.
Para quem quiser adquirir esse meu novo trabalho é entrar em contato com a editora através do seu site .
A paisagem é o silencioso personagem a mais dessa história