12 de julho de 2026

O CAMINHO DO RISCADO parte 04

             A mudança de acabamento, a arte-final e claro, consequentemente o desenho estava tomando conta completamente da minha visão de produção artística. Ao mesmo tempo que já não enxergava mais desenhar/arte-finalizar meus desenhos como vinha fazendo há anos em trabalhos como Yeshuah e Olimpo Tropical, por exemplo, havia um certo e pode se dizer conforto em trabalhar assim, primeiramente porque nos primeiros rabiscos no papel, mesmo sem ter passado nanquim, já tinha a visão antecipada do resultado  e principalmente de sua qualidade, dentro claro, do meu jeito de desenhar. E isso é confortante, como disse, inclusive, de certa forma, embasado pelos leitores dos meus trabalhos que gostavam dessa linha nos meus desenhos. Mas a intenção estava absoluta e começou a ser feita, de modo muitíssimo discreto, quase imperceptível em As senhas de Charlotte, álbum lançado em 2020, pela Epígrafe Editorial, editora de Foz do 

Iguaçu, ligada a Associação Internacional para Expansão da Conscienciologia - AIEC, trabalho fantástico que infelizmente ficou reduzido, até o momento, aos membros dessa associação.  A hq de edição luxuosíssima, vale, quem sabe, uma futura postagem aqui, contando seus processos de criação, tem roteiro adaptado de um livro de Honoré de Balzac, pelo Lillo Parra e cores do Omar Viñole, curiosamente, esse trabalho marca também nossa última parceria. Enfim, no decorrer dos desenhos dessa História em Quadrinhos, ia sutilmente experimentando a intenção de limpar o meu desenho. Quem ler, irá ver meu traço ainda carregado de hachuras, pequenos detalhes de risquinhos e tudo que vinha há anos fazendo, mas há momentos, mais uma vez comentando aqui, em que suprimia isso, deixando poucas coisas e isso valeu para realmente me julgar apto para mudar radicalmente meu traço. 

            O passo seguinte veio na produção de Aymará, parceria que estabeleci com a filósofa, escritora e espiritualista Rita Foelker, lançado em 2021 pela editora Café Espacial. Foi nesse trabalho que resolvi mudar radicalmente meu desenho e meu acabamento, indo de encontro diretamente às intenções. Não me pouparia. Por se tratar, inclusive de um projeto autoral, ou seja, não havia nada me impedindo. De quebra, resolvi experimentar algo além dessa mudança do desenho: fazer uma página com muito mais quadros. Geralmente minhas páginas possuem cinco, seis quadros, na época e mesmo hoje, resolvi que Aymará , teria uma decupagem de páginas influenciada pelas hq's européias, ou seja,  dez, doze, treze quadros. Mudando inclusive minha percepção de contar a cena e forma narrativa. Uma experiência enriquecedora, que muito me agradou e que também, mostrou-me outras possibilidades na

manufatura de um contar quadrinhos e, que não repeti mais essa experiência e digo que, urgentemente preciso fazer algo assim novamente. Na ocasião, a visão desse desejo, desse anseio, plasmado nas páginas dessa hq, foram muito mais que satisfatórias. Realmente foi a consolidação que essa mudança para minha carreira nos quadrinhos, precisava acontecer. Vale ressaltar que no âmago da coisa, não alterou em nada meu modo de conduzir a linha narrativa de uma história: o modo de pensar as cenas, planos, ângulos e tudo mais, mas trouxe uma nova forma de se trabalhar, acho que posso dizer assim, toda essa percepção, pois afinal de contas, o desenho era outro.  E, falando em desenho, um detalhe muito fundamental para essa mudança promovida na ocasião, um pouco antes dos desenhos de Aymará, creio eu, foi uma conversa que tive com o Ilustrador e designer Flavio Soares.

            Naquele período, conversava com alguns amigos ilustradores sobre a questão do traço e, foi justamente o Flavio que trouxe algo de um campo inusitado, que selou a minha intenção: ele comentou o quanto gostava do meu traço na série de tirinhas do  personagem David Escarlate , pelo design e pela síntese toda.

            Aquilo me soou tão inusitado, vindo de um lugar tão inesperado, que depois do espanto inicial, trouxe-me um imediato entendimento e aceitação, como respondi para ele: ...e faço isso (o desenho das tiras) sem sofrer! É rápido. E era esse o segredo: não é preciso "sofrer" para produzir uma página e gerar seu efeito, a coisa tem que ser simples e eficaz. Ao Flavio Soares, aliás, meu agradecimento pela contribuição nesse processo.

            Aymará , finalizado e entrando em pré-produção para publicação, já comecei então a pensar sobre o próximo trabalho que, já andava pela minha cabeça há alguns anos: As tentações de Santo Antão.  


5 de julho de 2026

O CAMINHO DO RISCADO parte 03

             No período de transição entre o término dos desenhos de  Subversivos: Companheiro Germano  e sua publicação em 2000, pela editora independente do André Diniz, a Nona Arte, comecei finalmente a trabalhar nos desenhos de Yeshuah , dentro desse nova ideia, dessa nova intenção de me expressão através desse traço mais solto e totalmente descompromissado com os maneirismos do traço acadêmico, realista. Vale acrescentar somente a título de curiosidade que, nesses primeiríssimos anos de produção dos desenhos da hq, a ideia era que Yeshuah, então sem subtítulo, como os três volumes bem posteriormente viriam a ter, fosse um obra só. Tivesse o tamanho que fosse. Claro que, na situação que vivia o cenário das Histórias em Quadrinhos Brasileiras, daquele período, onde praticamente nada se publicava, com excessão de um ou outro lançamento e muitos ligados ao cenário independente ou de pequenas editoras, era algo muito inviável e de difícil realização. Mas esse raciocínio lógico não me impediu a intenção, muito menos o processo de feitura do quadrinhos. Mas isso é uma outra história.


            E assim, foi seguindo a produção de Yeshuah, onde ano após ano, enquanto trabalhava nos desenhos, produção essa que durou de 1999 até 2013, paralelamente fui produzindo alguns outros quadrinhos e lançando-os, como a adaptação de Auto da Barca do Inferno, Histórias do Clube da Esquina, além de várias histórias curtas feitas na colaboração para muitas revistas mix, que começaram a surgir à partir de meados da primeira década dos anos dois mil, principalmente através do movimento do coletivo Quarto Mundo. Através de toda essa intensa produção fui entendendo e me solidificando na linha de desenho que buscava. Solta, sem anatomia correta, pode se dizer assim, embora não existe muita escapatória, pois sempre existe uma, mesmo que seja do seu jeito de fazê-la. Com boa dose de estilização e traço caricatural. Buscando sempre uma forte expressão física, gestual, para que a dramaticidade, ação, humor ou seja lá o que o momento pedisse na cena, chegasse primeiro ao leitor que só apenas a visão do desenho em si. 

            Essa descoberta e uso dessa nova forma de desenhar no meu trabalho, foi muito alicerçado pela arte-final, onde em um primeiro período foi todo executado com a firmeza e graça do pincel, bico de pena e canetas do tremendo artista Omar Viñole, e depois por mim, que assumi toda essa parte, movido por um gigantesco desejo de dominar toda essa parte da produção, como lá atrás, já fazia, muito embora sem técnica alguma, porém, com muita vontade e era nesse quesito, aliás,  que busquei trazer de volta, quando voltei a arte-finalizar meus desenhos. Nesse período, minha finalização era muito em cima de hachuras, processo trabalhoso, mas que trazia à página um belo vislumbre final.



            Em alguns casos, a página levava mais que um dia para finalizá-la, ou até mais que isso. Em Yeshuah, isso ocorreu inúmeras vezes, devido a páginas carregadas de detalhes e excessos de hachuras, que, mesmo então, contando com o nanquim do Omar Viñole, meu lápis já se preocupava em cometer esse excesso, indicando já o caminho de finalização para ele. Tudo que fosse necessário, pois a ideia era então, impactar mesmo.

            E é aí que entramos em uma terceira fase dessa trajetória na busca de um traço que expressasse o momento, as coisas que queria dizer e mostrar.  Foi em um período por volta de 2018, quando todo esse excesso gráfico começou a me incomodar, a me cansar. Dentro de minha observação, mesmo adorando o resultado de muitas hq's longas e curtas que lia, dentro desse acabamento, percebia que algo incondicionalmente estava novamente acontecendo: a vontade de mudar.  Meus olhos começavam a procurar quadrinhos e artes de caras como Alex Toth, José Muñoz, Flavio Colin, Hugo Pratt, mestres do grafismo e principalmente da síntese. Isso era o que estava assoprando na minha orelha. 

1 de junho de 2026

O CAMINHO DO RISCADO parte 02

                      Como sempre, ainda hoje, claro e também naquele período que comentava na primeira parte dessa série de textos, em um primeiro momento para produção de uma página de uma hq, isso claro, já com o roteiro pronto ou recebido, partia para os thumbails, um pequeno, rápido, mas preciso rabisco de cada cena para cada quadro da página, um primeiro fluxo de ideia, composição e diagramação da página, viria depois. Passada essa etapa inicial, aí já com mais definida a diagramação da página e quadros, aí sim, vamos para o desenho. E como estava naquele campo da arte buscando a realidade, o traço acadêmico, e como comentei com vocês anteriormente, sempre tendo como ponto central as referências fotográficas, entrava em uma busca onde em sua maioria das vezes, levava quase uma hora na busca de imagens para cada quadro. Cada quadro!!! Vocês podem imaginar isso? O tempo gasto?! Claro, o resultado final, o lápis bem finalizado (nesse período trabalhava direto com o arte-finalista Omar Viñole), era muito satisfatório, posso dizer desse modo.

Justamente durante a produção da minissérie Depois da meia-noite, provavelmente em 1998, se memória fraca não estiver... fraca..., foi que percebi claramente (aí sim, esse momento dessa percepção, ainda hoje me é muito forte) que muitas das cenas que pensava para história, principalmente as cenas de ação, pois se tratava de uma hq policial de suspense e ação, perdia absurdamente sua veracidade, seu dramatismo, por causa justamente da busca da determinada imagem que melhor representasse a cena. Mesmo manipulando aqui ou ali do desenho, a referência fotográfica ainda era o guia para a ilustração, no geral, embora, como dito anteriormente, o resultado era satisfatório e às vezes até bonito esteticamente, estava completamente vazio de real intenção e principalmente força. Aquilo gritava muito na minha cabeça e, obviamente começara a incomodar ao ponto de sair da zona de conforto.                                Curiosamente naquele período, ou talvez nem tanto, por motivos óbvios, meus olhos se voltaram para artistas com traços mais estilizados, às vezes cartunescos e, principalmente mais soltos e claro, muito expressivos. Dois exemplos fortíssimos dessa tendência eram Will Eisner, em diversos outras possibilidades visuais e psicológicas, além da coisa do traço e Bruce Timm, que então fazia tremendo sucesso com a animação genial Batman animated series.                     O desejo de deixar o traço realista era tamanha, porém, parecia-me uma ousadia (vejam só!!) difícil de realizar e mesmo, inaceitável, para com os leitores que me seguiam e eram fãs dos meus trabalhos, principalmente por aqueles que me conheceram com as hqs do Zé do Caixão. Exato, amigos, a cabeça da gente às vezes caminha por trilhas complexas e complicadas.                                                           Mas, o desejo de mudar era imenso e se manifestava de uma maneira dentro de minha cabeça, que nenhuma "corrente" iria me segurar, nem as barreiras da zona de conforto. Ou seja, a aposta, embora difícil, era arriscar. Vale abrir um parênteses para comentar sobre os primeiros estudos feitos no final da década de noventa para Yeshuah. As ideias para essa hq já estavam se montando em minha cabeça, embora ainda distantes do que foi realizado. Esses estudos, por sinal, entraram nos extras da edição Yeshuah absoluto lançada em 2016, e nesses estudos mostram ainda a intenção de desenhar dentro do traço realista.

Atualmente vendo esses desenhos em sua primeira concepção e ideia de narrativa visual, fica muito claro o enorme peso que teria na condução narrativa, no roteiro. Yeshuah marca a transição definitiva, a primeira, nas minhas hq's.
Cheguei mesmo a produzir, uma ou duas páginas nessa pegada de traço realista. Talvez três páginas, pensando um pouco melhor, talvez... enfim, e a observação dessas páginas finalizadas, aquela coisa de ficar olhando e olhando o original na mesa, foi a gota d'água, pois a impressão que tive, me remetia àqueles filmes antigos de Hollywood, tipo Reis dos reis ou Ben-Hur,
ou até mesmo as novelas bíblicas da tv Record. As imagens aqui mostradas falam por si só. O descontentamento foi tanto que cheguei a jogar fora esses originais primeiros da hq, restando simplesmente esses esboços aqui mostrados e mais alguns outros que estão, como disse, nos extras do Yeshuah absoluto.

Nesse mesmo período, fiz com o André Diniz, roteirista e desenhista, a hq Subversivos: companheiro Germano, lançada em 2000 pela então editora independente do André, a Nona Arte. Nesse quadrinho, aconteceu meu primeiro ato para libertação do traço realista. André, mais que um querido amigo, um irmão, na ocasião morava no Rio de Janeiro, sua cidade de origem (hoje mora em Braga, Portugal), em uma de suas periódicas vindas a São Paulo, encontrávamos nos vários cafés da cidade onde colocávamos as fofocas em dia e muito conversávamos sobre processos criativos de ambos e eu, sobre meu anseio de mudar de estilo, na busca de libertação para simplesmente deixar a ideia fluir, guiando minha força narrativa. Conversamos muito sobre então Um contrato com Deus do Will Eisner e a forma solta com a qual criou todo o visual dessa hq, sem necessariamente estar delimitado dentro de um requadro ou da necessidade de um cenário, um background o tempo todo. muitas vezes, apenas preocupado no que pretendia mostrar do personagem em si. 
            Saímos do café e fomos diretamente a um sebo (um dos muitos que existiam no centro de São Paulo) onde encontrei e adquiri o clássico de Eisner. A leitura não me surpreendeu tanto, mesmo sendo o texto uma obra maravilhosa, mas já havia lido muita coisa desse mestre, incluindo, obviamente The Spirit, mas o que me surpreendeu foi ter a nítida certeza do que eu poderia fazer. Estava absurdamente muito claro ali naquelas páginas. E foi assim que dispensei todas as pastas com referências fotográficas, ficando apenas com as de figurinos e cenários, sempre importantes. Comecei então a trabalhar nos desenhos de Subversivos: companheiro Germano, era apenas eu, o lápis e o papel.
            Ainda hoje a sensação do frescor de olhar o papel em branco e criar tudo ali do zero, somente minhas ideias e apenas desenhá-las, era uma pequena-grande sensação de me libertar de um estágio da minha arte para outro estágio.
                     

25 de maio de 2026

O CAMINHO DO RISCADO parte 01

            Houve um período em minha trajetória nos campos das artes, ou mais especificamente dizendo, nas Histórias em Quadrinhos, onde posso trazer uma analogia do tipo, "o carro já havia esquentado, então já dava para sair dirigindo!", em que meu objetivo era basicamente desenvolver um bom, senão melhor, traço realista, ou como se dizia nesse período, o traço "acadêmico", que por sinal, não faço a mínima ideia se ainda é usado esse termo... Para esse intento. estudava bastante os grandes mestres dessa linha de desenho que me inspiravam, tantos os gringos como brasileiros. Além de mestres também da pintura e fotografia. E, falando em fotografia, esta era muito usada para desenvolvimento dos desenhos. a referência pura.                                                                                                                     

           Desse período, que na atual data, contam-se mais ou menos uns trinta anos, na memória, há um trabalho que pega demasiadamente nessa vertente na busca pelo realismo no traço, que é a adaptação do filme do Zé do Caixão (cineasta José Mojica Marins), Esta noite encarnarei em teu cadáver, o filme em questão era o segundo do personagem e consequentemente a minha segunda adaptação também.                                                                                 


                 
 Neste trabalho está exposto uma imersão profunda na busca de um desenho bonito (pelo menos na minha leitura), bem realista e muito, com a ajuda inestimável e talentosa do arte-finalista Omar Viñole, onde justamente através desse trabalho começamos uma parceria que durou vinte anos.                                                                                                  

                   Daí para frente, alguns outros quadrinhos foram feitos, importante dizer que não era uma época tão produtiva editorialmente falando no cenário das hq's como hoje em dia, mesmo com tantas dificuldades financeiras que o país sempre está atravessando. Enfim, muito material erótico, de sexo explícito, uma ou outra hq de terror, e eventualmente alguma participação nos (antigos) fanzines, embora meu ritmo de produção colaborativa com a rapaziada independente estava muito abaixo do que minha atuação na década anterior. Foi ainda nesse período da segunda metade dos anos noventa que produzi a minissérie Depois da meia-noite, que por sinal, só viria a ser publicada, praticamente, dez anos depois e de forma independente. Aqui no blog, lá para trás, bem pra trás, comento sobre essa hq, procurem, procurem... Foi aí, nessa gibi, que comecei a melhor perceber como estava tremendamente preso de uma ideia - a da busca do desenho realista -  e claro, preso as referências fotográficas. Ou seja, por mais que até soubesse desenhar a cena pensada sem uso de fotografias, não conseguia me desvencilhar disso, pois o hábito... ou talvez o vício era maior.                                                                                                                                    


            

             Aqui, vale uma leve parada para melhor explicar e vocês, de alguma forma, visualizarem uma analogia que quero compartilhar: imaginem um objeto de maestria, de beleza (de desenho, no caso), onde você está atado totalmente a essa intenção, sem na realidade, ter absoluto ou quase absoluto domínio sobre ela, ou seja, você está preso, verdadeiramente, sem maestria alguma, apenas, na vontade, eterna busca de algo que te prende.

            Tratava-se dos anos noventa, e a internet estava a milhas e milhas da comum existência doméstica como é hoje em nossas vidas, portanto, para          trabalhar com as referências fotográficas, tinha no estúdio pastas e pastas        com  fotos recortadas de jornais, revistas, folhetos e o que mais fosse possível: corpos e faces masculinas e femininas, roupas, carros, casas internas e externamente, lugares, enfim, tudo que fosse possível ter para referência.                                                                                                            

                      

                                                                


16 de maio de 2026

A ODISSÉIA DE NINGUÉM

             Falando um pouco mais dessa talentosa e querida amiga Adriana Avelino, ela recentemente me homenageou criando essa página, que talvez... talvez... possa ter continuações, chamada Laudisséia. Pelo título, obviamente dá para perceber os elos, a simbologia da coisa toda e o mais interessantes, a ideia/intenção, nasceu de alguns dos muitos papos nossos à distância, via aplicativo.

            Desfrutem!


            Para conhecer mais do trabalho da Adriana Avelino é só clicar aqui

14 de maio de 2026

BRINCANDO DE RELEITURAS

 

Sabe aquela criação que você gostaria de ter feito? Pois é...
A profusão com que a talentosíssima artista Adriana Avelino (a mesma que me entrevistou recentemente, num delicioso bate-papo e que deixei o link na postagem anterior) cria seus personagens, suas histórias, seus universos (ou tira-se o plural para um único só, pois tudo parece vir de um mesmo vasto lugar) é assombroso e bom demais. E é nessas que, eu pelo menos, tenho vontade às vezes de ancorar e dar minhas releituras, contar suas histórias acrescentado um temperozinho próprio.
Aqui vai um exemplo de uma interpretação de uma criação dela inspirada no mito de São Cristóvão.

E, caso queira conhecer um pouco mais do trabalho dessa tremenda artista é conferir na sua página no Instagram

11 de maio de 2026

... MAIS UM DEDO DE PROSA!

             ...e a tremenda artista dos quadrinhos e da literatura Adriana Avelino, fez um entrevista tremenda comigo, à propósito do futuro lançamento da primeira edição da Biblioteca Brasileira de Quadrinhos, que trará um apanhado desses anos todos de minha carreira nos quadrinhos. O bate-papo vai num crescendo delicioso, que só uma pessoa talentosíssima e sensível como ela, conseguiriam extrair.


 Links para você conhecer o trabalho dessa artista: aqui e aqui



7 de maio de 2026

MAIS BATE-PAPO NO AR!

             No final do ano passado, 2025, participei do podcast da escola estúdio Modelo Design, aqui em São Paulo, conversando com seus artistas e professores Thyago Bastos e Luis Ayala, onde em um pouco mais de uma hora falamos sobre a profissão de desenhistas, processos de criação nos quadrinhos e mais algumas outras coisas. Papo delicioso, o pessoal da escola me acolheu com um carinho tremendo. 


Site da Modelo Design 

Canal do Youtube da Modelo Design

Instagram da Modelo Design

2 de maio de 2026

BATE-PAPO NO AR



            No final do ano do ano passado, o pessoal do Lasercast, podcast especializado em cultura pop, fez uma entrevista comigo à propósito de minha carreira e o lançamento do primeiro volume da coleção Biblioteca Brasileira de Quadrinhos, que breve será lançado pela Editora Go Comics e que, nessa primeira edição traz uma coletânea de meus quadrinhos curtos produzidos nos últimos vinte anos (alguns deles já comentei aqui no blog) que entraram em diversas revistas mix, além de um apanhado sobre minha carreira ao longo dos anos como quadrinista e ilustrador, uma tremenda edição, que breve vocês irão conhecer.
            E aqui vai o link da entrevista para vocês.


25 de abril de 2026

TEM MAIS ZÉ DO CAIXÃO CHEGANDO!

Tirando do baú e preparando para escanear as noventa páginas que compõe a adaptação do filme Esta noite encarnarei no teu cadáver, do grande José Mojica Marins, ou mais popularmente conhecido como Zé do Caixão, e que brevemente será republicado pela Editora Tábula. HQ desenhada há quase trinta anos e marca também o primeiro trabalho que fiz com o Omar Viñole na arte-final, o primeiro de muitos, como Yeshuah, Histórias do Clube da Esquina, Depois da meia-noite, a série da Tianinha, muita coisa.
Enfim, vai ter mais Zé do Caixão por aí!



 

30 de março de 2026

TEMPO DE MATURAÇÃO

            A última postagem que trouxe aqui nesse meu tão querido e velhinho blog, sobre as capas dos gibis do Zé do Caixão que produzi ao longo desses anos de trajetória, me suscitou a lembrança de uma situação vivida por ocasião da produção do álbum Zé do Caixão lançado pela Editora Marsupial em seu selo Jupati Books em 2016. Nessa publicação fora compilado as duas adaptações que fiz dos dois primeiros filmes do personagem, À meia-noite levarei a sua alma e Esta noite encarnarei em teu cadáver, sendo que a primeira adaptação havia sido publicada em 1995 pela Editora Nova Sampa e a segunda, apenas uma parte dela num projeto de minissérie, lançada pela Taquara Editorial, que acabou não se concretizando por problemas da casa publicadora, ficando apenas no primeiro número do que seria em três partes. Bem, tudo isso mais ou menos comentei na postagem anterior.

Lucio Luiz, dono da Editora Marsupial
            Durante o Festival Internacional de Quadrinhos - FIQ , tradicional e fundamental evento da nona arte brasileira que acontece em Belo Horizonte/MG, mais especificamente a nona edição, de 2015, foi que o pesquisador de quadrinhos e também dono da Editora Marsupial, Lucio Luiz, me veio com a proposta de lançar um álbum juntando essas duas hq's, numa edição caprichada, com nova capa, enfim, trazendo um belo projeto editorial. À princípio, a ideia para mim foi absolutamente aprovada pela enfim, publicação de Esta noite encarnarei em teu cadáver, que não havia conseguido seu intento que justamente era de trazer ao público leitor a versão integral da hq, porém havia seríssimas ressalvas com a republicação do material primeiro publicado em 1995, ou seja, a adaptação do primeiro filme do Mojica/Zé do Caixão. E, na ocasião, essa ressalva era consistente na minha cabeça, pois não queria de jeito nenhum publicar esse material novamente, e o motivo convergia totalmente na minha pessoa.

          A obra original, o filme do José Mojica Marins, é uma obra prima do cinema brasileiro e mundial, por centenas de motivos que, de minha parte dispensa comentá-los, pois já foi mais do que escrito, falado e comentado pelo país e pelo resto do mundo ao longo de décadas. Visceral, pungente, autentico e mais uma infinidade de adjetivos para no mínimo definir À meia-noite levarei a sua alma. Minha versão em quadrinhos, no meu modo de pensar na ocasião, era algo bem simples, quase sem um pensar mais aprofundado sobre o que estava fazendo ou seja, adaptando esse clássico que ia além do filme de terror, a estética, a forma gráfica de mostrar esse ícone da cultura nacional, quase ou já folclórica, era quase amadora e de um desenho bem deficiente. Em resumo, a obra e seu criador mereciam algo mais à sua altura, como já acontecera no passado, mais especificamente em final dos anos sessenta, quando o próprio Mojica produziu seus quadrinhos com dois mestres absolutos, Nico Rosso e Rodolfo Zalla. O peso das comparações...


            Lucio insistiu no resgate dessas duas publicações e da importância que teria dentro do panorama das hq's nacionais, claro que isso tudo me deixava lisonjeado, porém o elemento crítico que existe em todo artista, falava mais alto. Meu olhar sobre essa hq era diferente: para mim, julgava tratar-se de um trabalho muito fraco no que se refere ao desenho e todas as as possibilidades narrativas próprias para uma hq, diferente do que vinha produzindo, principalmente pelos resultados que vinha obtendo com a publicação até então da trilogia Yeshuah, ou seja, não me agradava trazer à baila novamente esse trabalho que tinha, como disse tanta ressalvas. Então, durante o tempo de nossa estadia em Belo Horizonte, por ocasião do evento, muito foi conversado entre eu e  Lucio e sempre tendo um não como resposta.

            Já em São Paulo, algum depois, numa passagem pela capital, Lúcio Luiz é natural  do Rio de Janeiro, durante um almoço juntamente com Flavio Soares, quadrinista, ilustrador e designer da Editora Marsupial na época, o assunto do álbum veio novamente à tona, já colado com minha negativa em relação à publicação de À meia-noite levarei a sua alma. Foi então que Flavio, tirou do bolso, uma ideia, no mínimo genial, que me deixou completamente sem ação para continuar na negação desse quadrinho: criar uma hq curta, como um tipo de introdução, de prefácio para o álbum, onde justamente eu contaria todo esse perrengue de minha parte, ou seja, todas as questões de não gostar da qualidade do meu trabalho feito naquela época, na insistência do Lúcio Luiz, a questão do resgate histórico, tudo num tom humorado e, a hq justamente culminaria com a aparição da entidade Zé do Caixão cobrando de mim essa decisão para liberar a hq, pois afinal, ele é o personagem focado, tudo embalado com as clássicas pragas que o agente funerário tornara famosas. A hq, de três páginas (um prefácio) termina com o Mojica em sua casa recebendo a notícia por telefone do Lúcio, informando que misteriosamente eu,enfim, concordara com a publicação.

Trecho do prefácio desenhado da edição "Zé do Caixão"
            

            Zé do Caixão foi publicado em 2016, contendo as duas hq's, mais esse prefácio desenhado e um outro texto meu comentando sobre todo processo criativo no adaptar os filmes do Mojica, o fazer  também hq's curtas e inéditas naquele período, juntamente com ele, criando os roteiros e o tanto de aprendizado de vida e de fazer arte que tive nas muitas conversas que tivemos ao longo dos anos. A publicação foi um grande sucesso, vende bem até hoje, pois vire e mexe autografo essa edição em alguns eventos que participo.

           Mas, trazer esse assunto para vocês, está numa questão um pouco maior que simplesmente um fato ocorrido com a publicação desse gibi (sim, bato na mesma tecla, vamos falar gibi!)...

Capa da nova edição publicada pela Tábula

           Em 2025, o Douglas da editora Tábula, casa publicadora que frequentemente participo com colaborações em suas diversas publicações, me propôs uma nova edição da adaptação de À meia-noite levarei a sua alma, pois já havia conversado com a Liz Marins, atriz, filha do Mojica e quem cuida dos direitos da obra do pai, que já havia autorizado a republicação e só faltava o meu ok, coisa que imediatamente teve o consentimento de minha parte. Falamos sobre o desenvolvimento de uma nova capa, onde foi proposto que ela se baseasse no cartaz original do filme de 1964 (na postagem anterior comento sobre isso) e assim, a nova edição da versão para quadrinhos do clássico filme do José Mojica Marins foi lançada no final deste mesmo ano, durante a CCXP- Comic Con Experience, evento fundamental para a cultura pop que acontece aqui em São Paulo, todos os anos.

            A rápida aprovação de minha parte, trouxe-me uma curiosa reflexão logo após o envio da resposta ao diretor da Tábula, sobre a tranquilidade, a aceitação desse trabalho, que tive. Uma curiosa sensação de calmaria na cabeça, no emocional, uma libertação, posso até arriscar a dizer. Diferente da negação quase absoluta que tive há dez anos atrás com a proposta da primeira republicação da Marsupial, num ímpeto quase (ou talvez totalmente) egocêntrico de julgar que o trabalho estava muito abaixo da qualidade do que então produzia na época. Esquecendo, mas esquecendo de uma forma absurda, que ele representava muito, mas provavelmente cem por cento, o sonho do menino de vinte e poucos anos, idade que tinha quando desenhei a hq de se lançar para o mundo, conquistando pessoas com o desejo de contar histórias desenhadas. O quadrinho tinha sim, sua validade, não só pela ideia em si da quadrinização do filme, pela aprovação do próprio cineasta, mas por ser absurdamente honesto no que se propôs e principalmente porque na época, a hq simplesmente foi desenhada, sem contaminações do ego que o tempo traz para a gente e que às vezes nos leva distantes da premissa do sonho inicial.

            Só com o tempo e com tanta coisa vivida, principalmente no campo pessoal-artístico e o entendimento, ou o princípio dele, que a idade traz, é que é possível, com a alma mais leve, mais pura, apenas dar um brevíssimo consentimento de algo que foi negado antes. Entendendo e principalmente aceitando e amando o que você foi, pois só assim se consegue prosseguir.

Trecho do perfácio desenhado da edição de 2016 de "Zé do Caixão"





         

     

22 de março de 2026

OS CAMINHOS DE VÁRIAS CAPAS PARA UM MESMO PERSONAGEM

            Hoje quero compartilhar com vocês uma breve história do desenvolvimento de uma capa de um gibi (vou escrever gibi, vai!), que é À meia-noite levarei a sua alma, republicado pela Editora Tábula no final de 2025. Trata-se da terceira publicação dessa hq, e quem acompanha meus trabalhos sabe, trata-se da adaptação do clássico filme de terror nacional homônimo do cineasta José Mojica Marins, o Zé do Caixão de 1964, sendo que a primeira publicação do gibi aconteceu em 1995 pela editora Nova Sampa.

Essa imagem ao lado é da primeira publicação e ela foi totalmente criada pelo próprio José Mojica Marins. O curioso (e daqui a pouco explico o porque dessa curiosidade) é que naquela época, em conversa com Mojica, expliquei que trabalhar numa releitura do cartaz original do filme, não teria um resultado bom, pois o cartaz tinha uma característica muito gráfica e que poderíamos partir para uma ideia do zero. Proposta aceita pelo Mojica que rapidamente intuiu essa imagem que, representava muito o universo de seu personagem e a posição que desfrutava naquele período em relação aos Estados Unidos, onde vinha fazendo um enorme sucesso pelo lançamento de seus filmes em fitas VHS por lá e o Brasil. A imagem, segundo o próprio, faz uma analogia com as predileções brasileiras e americanas e em se tratando de Zé do Caixão estava tudo muito bem condensado nessa imagem.

            Essa outra capa é da edição de 2017 (se não me falhe a memória) da Editora Marsupial/Jupati Books que traz a republicação da hq À meia-noite levarei a sua alma e a publicação na íntegra de Esta noite encarnarei em teu cadáver, adaptação do segundo filme do personagem lançado também nos anos sessenta. Essa hq havia tido uma publicação em 1997 (também se não me falhe a memória) pela editora Taquara, porém a adaptação fora dividida em capítulos e, devido a diversos problemas com a editora naquele período, só houve a publicação do primeiro número.  

           Aqui, a capa embora mais impactante, traz uma ideia bem simples, mostrando o principal da publicação que é o personagem e o sintetizar de sua essência malévola. 


E chegamos no ano passado, 2025, quando fui procurado pela Editora Tábula que pretendia republicar o clássico filme do Zé do Caixão. A ideia proposta seria uma nova capa para essa edição e me foi sugerido pelo Douglas, um dos diretores da casa, que fosse feito uma releitura do cartaz original, como a imagem dessa arte estava fresca em minha cabeça, a sugestão foi imediatamente aceita, pois enquanto acertava detalhes, pude, de certa forma, desenhar essa releitura na minha cabeça, oque significava que a coisa em si daria certo.

Então vem o que comentei no início desse texto com vocês, lá em 1995, quando então trabalhava na edição da primeira publicação dessa hq, a ideia de fazer uma releitura me pareceu difícil, que não teria um bom resultado estético para uma capa de uma revista em quadrinhos. Mas é muito óbvio, que esse pensamento refletia o amadorismo e o limite que trazia comigo como desenhista, ilustrador, naquele momento. Pois, olhando hoje a arte desse cartaz, é claro que daria para fazer uma releitura. Mas foi como foi, e o resultado na época, em cima da ideia do Mojica e sua analogia Brasil - Estados Unidos + preferências, ficou ótimo pelo seu conteúdo, pela sua criatividade, mesmo que... bizarra!

Ao lado, o layout para a capa dessa edição da Tábula, embora alguns elementos da imagem original foram trocados, a ideia, a intenção, o clima, são os mesmos, inclusive o posicionamento do título.

Assim como no cartaz original, a imagem traz luz para outros elementos além do protagonista Zé do Caixão, como a velha bruxa que aparece no início do filme e em determinado momento próximo ao final, uma das vítimas do inescrupuloso agente funerário, que se enforca, outra que tem seus olhos furados e por aí vai.


            Aqui, a arte finalizada da capa para a edição e a qual eu julgo, minha melhor leitura tanto no desenho, como na cor, embora, claro, todas as anteriores tenham seu peso e significância, principalmente pela época em que foram publicadas. Vale compartilhar com vocês o grande interesse nas cores fortes, com boas doses de psicodelia que gosto muito de usar em meus trabalhos, seja qual gênero de história for, como a cor do sangue nos olhos de uma das vítimas do Zé do Caixão, num vermelho forte, bem diferente da cor real, e neste caso foi uma influência e homenagem aos clássicos filmes de terror da clássica produtora inglesa Hammer. 

          Enfim, um processo de trinta anos para interpretações e entendimentos de uma arte de capa para um mesmo produto.




1 de março de 2026

NO RASTRO DA MULHER-DIABA

No final do ano passado, 2025, durante o evento Comic Con Experience, CCXP, realizado aqui em São Paulo, um mega evento sobre cultura Pop, diga-se de passagem, lancei meu mais novo trabalho, "Mulher-Diaba no rastro da perdição" pela Editora Trem Fantasma, editora que há um bom tempo namorava a intenção de publicar algo  e que melhor momento e melhor hq que esta.                      Vale dizer que o gênero dessa história: aventura e cangaço, conversa diretamente com um linha de hq's que já vem sendo publicadas desde a criação da editora e muito em especial tem relação direta com outro título da casa: "Mulher-Diaba no rastro de Lampião", de Ataíde Braz no roteiro e Flavio Colin na arte. Exatamente, esse meu trabalho é uma sequência da obra original, que primeiramente foi publicada em meados dos anos 90 e republicada pela Trem Fantasma em 2024.
A proposta dessa sequência me foi trazida pelo próprio criador da personagem e da história, Ataíde Braz, justamente durante um bate-papo na CCXP de 2023 (se não me falhe a memória). Amigos há longa data, pelo menos desde os anos noventa, sou um tremendo admirador desse pernambucano talentosíssimo que é o Ataíde, por muitas histórias curtas suas que li, como obviamente pela "Mulher-Diaba" original feita com um cara de quem sou fã incondicional que é o Flavio Colin, mas principalmente por "Drácula, a sombra da noite" feito em parceria com sua esposa Neide Harue. 
            Proposta desafiadora, por mexer em um clássico dos quadrinhos nacionais que é a obra original, por ter o peso dos desenhos do Flavio Colin e claro por se tratar de uma tremenda história desse grande mestre da escrita, que é o Ataíde Braz. Essa "intimidação", vamos dizer assim, aconteceu nos primeiros momentos da proposta, nos primeiros cinco minutos, mas logo transformou-se no delicioso desafio de dar à minha leitura sobre o universo geográfico que essa saga acontece e, principalmente minha interpretação visual de Maria, a "Mulher-Diaba" e do próprio Cramulhão, coprotagonista dessa aventura. 
             Nunca havia trabalhado antes com esse gênero de histórias envolvendo especificamente o cangaço, havia passado perto, trabalhado em narrativas próximas , como é o caso do personagem Vérnio  de "O santo sangue" (nesse caso específico fui autor do roteiro e ficando à cargo de Marcel Bartholo, a arte). Então além do desafio de criar a minha versão de um universo já pré-estabelecido, havia também a experiência de me aventurar por um gênero que gosto muito e que muito influenciou-me através do cinema, como o clássico "Deus e o Diabo na terra do sol".
Ataíde Braz, roteirista e criador da Mulher-Diaba
            Para Maria, a protagonista, fui na busca imagética de uma mulher nordestina que obviamente remetesse à minha leitura, a minha visão do que seria essa mulher dentro do contexto histórico que ela vinha, ou seja, a primeira hq e aonde ela estaria inserida nessa continuação. Sua postura, sua observação pelo entorno e como iria lhe dar com todo o contexto apresentado. Sempre foi uma tônica em minhas histórias trabalhar com mulheres e colocá-las numa postura de força de domínio de si, 
algo comum em todas minhas personagens anteriores, independente se tenha sido eu o criador e roteirista. Curiosamente (ou talvez nem tanto assim) ao meu gosto pessoal e como criador, o rosto da personagem foi acertado de primeira, embora sem consultar a opinião final do Ataíde, o criador da Mulher-Diaba, obviamente que seria o dono do sim ou não para tocar a personagem visualmente. Curiosamente, com uma sincronicidade incrível, no mesmo dia que desenhei o concept da personagem, Ataíde enviou-me uma mensagem autorizando e dando completa confiança na forma que eu representaria a personagem e que seria muito importante  a minha leitura da mesma e não me prendesse à visão do Colin. Isso foi um primeiríssimo sinal que o caminho estava certo.
          Do roteiro original de "Mulher-Diaba no rastro da perdição" para a quadrinização tomei a liberdade de expandir sua narrativa visual, deixando com mais páginas que o proposto inicialmente na narrativa escrita, proporcionando um clima contemplativo do cenário que se apresenta em várias página, pois a história quase que toda acontece fora de ambientes fechados, então o agreste e mesmo o tempo chuvoso num sertão árido, que acontece do meio para o final, são personagens importantíssimos para a trama. E justamente a força desses personagens esta em sua ação silenciosa.
            A trama segue os acontecimentos posteriores a "Mulher-Diaba no rastro de Lampião", porém ela também retorna, antes dessa primeira história, contando como o Cramulhão fica desejoso da Maria, para que assim fique claro toda essa questão na saga dessa guerreira do sertão.
            O álbum ainda segue sua trilha de lançamento mesmo fazendo já alguns meses de sua publicação e assim espero que vá por mais um bom tempo, despertando interesse nos leitores que conhecem e os que desconhecem a versão primeira. A Mulher-Diaba aqui, desta nova hq, mesmo sendo uma continuação de uma obra originalmente publicada há mais de trinta anos atrás, segue seu caminho por si e assim tem que ser. Já o Ataíde Braz, preparou a terceira e derradeira história da Mulher-Diaba fechando todas as arestas. E acreditem, o clima no geral só esquenta com novos e velhos personagens das duas histórias se encontrando e se conflitando nesse final, mas, claro, isso ficará para um outro momento.
            O cuidado editorial da Trem Fantasma foi impecável. E como disse, se lá atrás, namorava a ideia de publicar pela casa, não há melhor estreia que essa.
Para quem quiser adquirir esse meu novo trabalho é entrar em contato com a editora através do seu site .
A paisagem é o silencioso personagem a mais dessa história