22 de agosto de 2026
UMA BAITA E BELA COLETÂNEA
30 de março de 2024
O DIA EM QUE A CRIATURA FEZ A FESTA COM SEU CRIADOR
![]() |
| Fotos Manoel Souza |
Em meados dos anos dois mil, durante uma das entregas do prêmio anual Ângelo Agostini, que premeia os melhores de cada ano anterior dos quadrinhos nacionais, estive presente com minha esposa para, além de assistir o evento, celebrar alguns amigos laureados. Minha esposa, embora ligada ao mundo artístico, trabalhava então como atriz de teatro, conhecia muito pouco do universo das Histórias em Quadrinhos e naquele momento, muito menos do universo da produção nacional, mas estava entusiasmada pelo evento em si e principalmente pelo fato do teatro do Senac do bairro Lapa aqui em São Paulo, localidade onde naquele período algumas das premiações do Ângelo Agostini foram realizadas, encontrava-se lotado. Público interessado nas premiações, fãs, amigos e parentes dos artistas em destaque.
Durante um determinado momento da cerimônia, um artista da velha guarda recebeu a homenagem de Mestre do Quadrinho Nacional pela vida dedicada à Nona Arte e pelo conjunto de sua obra, e foi então que um determinado ilustrador (por razões óbvias não direi o nome) subiu ao palco para receber o prêmio. Com uma mão fortemente enfiada no bolso e outra segurando o troféu, andava para todo o lado do palco, provavelmente nervoso e ao mesmo tempo tímido pelo momento, discursando dos infindáveis problemas da área, da dificuldade de se produzir e vender quadrinhos no país, da falta de dinheiro, do não reconhecimento que vem da mídia, do público e às vezes da própria classe e uma série de outras lástimas, que passado todos esses anos não me recordo. Daquele período para hoje a situação deu uma razoável melhorada, diga-se de passagem, inclusive com um Big Bang fabuloso de novos talentos de todos os gêneros, escrevendo, desenhando e publicando com uma qualidade estrondosa. Mas voltando ao palco do Senac, a fala do então Mestre, estava carregada de razão e sim é importante levar ao público a dificuldade de se produzir essa arte. Não há dúvida. Porém, estávamos em um evento de celebração onde, apesar de tudo, estamos aqui, fazendo de um jeito ou de outro. A premiação em si, era e ainda é por si só um ato de fé, de resistência e isso é o mais importante. Foi durante esse desamparado discurso que minha esposa virou-se para mim e perguntou: “Laudo, mas é tão ruim assim mesmo?”. Não me recordo o que lhe respondi e passado todos esses anos nem importa mais.
Aquele momento ficou durante um período na minha cabeça. Embora compreendendo perfeitamente a cabeça do meu amigo “mestre” laureado, achava que o canto deveria ser de vitória, de crédito, de ir adiante apesar de tudo. Era preciso promover algo totalmente anárquico daquela tristeza e no future que habita o coração de muitos artistas. Afinal, criamos, geramos ideias, mundos, personagens, geramos vida, mesmo que no papel. Fazemos arte e o principal é contrariar mesmo aquilo que é fato e regra a favor e contra nós. Foi nesse sentimento que pensei, caso ganhasse algum prêmio nos próximos anos, promoveria algo no durante o evento de entrega dos troféus, algo que mesmo de um modo simples e pequeno, mexesse pelo menos com a entrega do prêmio onde, mesmo laureando artistas e obras, às vezes a melancolia perdurava em alguns casos específicos, como o citado.
Entramos em 2009, um ano depois dos acontecimentos, por uma brincadeira da vida, fui premiado na categoria Melhor Desenhista Nacional e claro, toda aquela intenção inspirada pelo mestre, teria que ser parida, vir à luz. Como se diz, vamos bagunçar o coreto!
A série da minha personagem Tianinha acabara de entrar em seu nono ano de publicação ininterrupta dentro da revista Sexy Total. O fotolog (sim é coisa antiga, crianças!) da personagem que vinha mantendo, tinha uma média de duzentas a trezentas mil visualizações por mês. Um sucesso! Uns três anos antes eu havia dado uma entrevista para o programa do Otávio Mesquita no SBT, falando sobre a personagem e na ocasião, foi pensado entre eu e a produção levarmos uma garota loira se fazendo passar de Tianinha, enquanto acontecia a entrevista que seria
feita dentro de um motel. Nada mais propício. A lembrança disso trouxe-me a inspiração necessária: iria levar uma garota linda, sexy e loira, a própria Tianinha para sair em meio ao público para subir ao palco e me entregar o prêmio. A ideia foi levada até Worney Souza, um dos organizadores do prêmio que adorou a ideia e assim aconteceu na data de 14 de Fevereiro de 2009. O público presente que lotava o teatro do Senac, foi surpreendido com a atuação de uma amiga, Arielle, atriz, que cobria todos os requisitos que a personagem pedia, se fazendo passar pela própria Tianinha. Interagindo com os presentes, saindo de algumas situações e controlando todo o ambiente que acredito, a própria se real fosse (mas será que ela não é real mesmo??), não teria feito assim. E para o meu espanto, os presentes julgavam eu mesmo desconhecer a armação toda. Sim, nota dez para a ação!!
Mesmo tendo engendrado toda essa deliciosa situação, foi algo inesquecível e saboroso ganhar um prêmio entregue pelas mãos de sua própria criação, principalmente sendo ela a própria loirona.
Por outro lado, mais uma vez reitero que entendo a dor, o desalento, a decepção de muitos amigos e conhecidos contemporâneos sobre o árduo caminho de se fazer quadrinhos, mesmo hoje com um cenário melhor. Ela é pertinente. Mas, podemos ser maiores que isso, podemos enxergar a possibilidade. O tempo vem mostrando que sim. Os novos autores que vem surgindo pela estrada dizem que sim.E é nisso que devemos apostar.
Curiosamente, alguns poucos meses depois a série da Tianinha foi encerrada pela editora. Fechava-se a era das revistas masculinas, as revistas de mulher pelada, ao qual a série de hqs da loira pertenceu durante nove anos. Encerrei ali minha relação com a personagem (mesmo tentando trazê-la de volta numa série independente em 2017 que não aconteceu) e qual melhor forma de nos despedirmos, criador e criatura, que trazendo essa parceria para interagirmos com o público?
11 de abril de 2023
AS TENTAÇÕES DE TODOS NÓS
![]() |
| Capa do novo livro |
Durante a primeira década dos anos dois mil, estava completamente absorvido na produção de Yeshuah que viria a ser publicado inicialmente em três volumes, sendo que os dois primeiros foram lançados justamente no final dessa primeira década. Durante a produção dessa hq, roteiro e desenhos, houve uma intensa pesquisa de minha parte para conhecer o máximo possível sobre a figura de Jesus e assim poder trabalhar dentro de um outro campo em seu enredo e foi justamente nessas imensas pilhas de livros que estudei que deparei com a história... ou o mito, enfim, de Santo Antão, por acaso. Não me recordo agora mas também não importa tanto, em meio a livros sobre o cristianismo e sua história, estava lá em alguma citação provavelmente sobre o egípcio que durante sessenta anos de sua vida viveu no deserto em busca de um grau elevado de espiritualidade. Antão é tido como o primeiro asceta do cristianismo (segundo o dicionário: antes da instituição dos mosteiros, devoto dedicado a orações, privações e mortificações, sem ter pronunciado votos.) e nessa sua jornada mística e espiritual teve um confronto constante com Satanás que tinha o intuito de vencê-lo em seu objetivo e para isso o anjo caído fez uso de todas as armas possíveis, entre elas a luxúria, o sexo, os desejos da carne. Ao termino desse primeiro contato com a história do santo vi que em sua jornada e enfrentamento estava muita coisa que poderia representar, criar metáforas sobre buscas que sabia que existiam em meus quadrinhos, mesmo até nos mais descompromissados: o sagrado e o profano.
Nesse mesmo período da produção de Yeshuah, paralelamente produzia a série erótica da personagem Tianinha, onde vale dizer durou nove anos de publicação mensal dentro da revista masculina Total. A personagem loira que durante um certo período ganhou grande fama na internet, que então estava começando a criar vida muito longe do que é atualmente, fama essa que alavancou sua popularidade nas bancas e com os leitores, trazendo vez ou outra um número exponencial de vendas. Tianinha trazia muito do meu pensar sobre sexo: da relação entre pessoas, do que é permitido e principalmente nesse ato que à princípio praticado por duas pessoas, onde todos se tornam iguais. Mas, ao mesmo tempo também realizava uma profunda busca espiritual na hq e dentro de mim em Yeshuah. Foi nesse mesmo período que fiz meus primeiros trabalhos xamânicos, experimentando a expansão da consciência que foram fundamentais, divisores de água, para minha vida e para meu trabalho nos quadrinhos.
Com essas duas compensações na balança, de novo, o sagrado e o profano, vamos tratar assim, que quando tomei conhecimento da história de Antão, como disse, vi nele a metáfora a se trabalhar para entender o que é isso dentro do que crio... por que o sexo e o prazer? por que a busca e o entender Deus ou o que pode se entender como? e principalmente o equilíbrio da fé. A fé que antes de qualquer religião é um estado primordial para nossa existência terrena.
Claro que precisaria me aprofundar na história do santo, assim como vinha fazendo em Yeshuah. Li sua biografia "oficial", escrita por Santo Atanásio, arcebispo de Alexandria e contemporâneo de Antão, além do maravilhoso texto de Gustave Flaubert de livre inspiração As tentações de Santo Antão, esse texto por sinal, foi minha grande fonte inspiradora para compor o meu roteiro, além de estudar quase toda iconografia, onde talvez Bosch tenha sido o artista que mais representou a história do santo e suas tentações no deserto.A tentação de Santo Antão por Salvador Rosa
Ainda hoje sua história é muito forte, muito inspiradora: entre tantos simbolismos e interpretações possíveis é o homem no centro da famigerada disputa entre céu e inferno. A briga pela equação da balança e foi nesses pequenos e ao mesmo tempo grandes vislumbres de possibilidades que fui moldando a minha história. O meu Antão não poderia ser alicerçado em um personagem histórico, pois muitíssimo pouco se tem e a própria biografia de Santo Atanásio pouco fornece apesar de abranger muito de sua vida religiosa. Busquei então criar dentro dos pontos principais de sua história... ou mito, o homem, o ser humano que confronta seus erros, principalmente enganos perante Deus e perante o diabo, que aqui, mais do que um ser maligno, disposto a tirá-lo do caminho sagrado, quer traze-lo para verdadeira trilha divina que é simplesmente viver a vida, ou a vida à vida, como é dito em vários momentos da história. Até onde o egoísmo e a cegueira em nome do que julgamos ser o absolutamente correto não prejudica quem está em nosso entorno e principalmente a quem nos ama? O que realmente é certo? Onde está Deus... ou nossa fé... em tudo isso? Por que a minha crença é a verdadeira e a sua não? E tantas outras questões que não saem de nosso DNA.
É claro que o livro não traz resposta alguma, mas procurei não deixar dúvidas. Eu mesmo sigo dentro de minhas dualidades, que vale dizer, em momento algum quis excluir um desses lados. Acredito que mais harmoniosos agora, quem sabe. Talvez e assim digo, talvez, busquei traduzir tudo a uma denominador comum, onde nesse estado não existe dualidade. O que seria? Mais do que não querer entregar o final da hq, o mais provável é quero deixar para vocês, pois é uma hq onde conto uma história, mais a conclusão sempre é do leitor. Para essa busca dentro do deserto pessoal onde conduzo o leitor desde a primeira página, a hq traz um ritmo lento, contemplativo com muitas, muitas páginas totalmente absorvidas por desertos, montanhas, céu, noite... natureza, que apenas observa o drama que nela se estabelece e irá acontecer. E o deserto pode ser o leitor: observador e estado interior a ser preenchido.
As tentações de Santo Antão será lançado em breve pela editora Devir, velha parceira em outros trabalhos tão preciosos na minha carreira como Histórias do Clube da Esquina, Cadernos de Viagem e claro, Yeshuah. Na internet você vai encontrar muita coisa sobre Antão, vale conhecer, e entender como disse para trás o quanto ele nos representa em nossa essência humana, conflitante, sagrada, profana e por tudo isso, fazendo parte de Deus.
Mais uma vez uma história foi contada, escrita e desenhada e breve servida. E a vida de todos segue adiante.
16 de março de 2018
TIANINHA E OS CAMINHOS PARA SUAS HISTÓRIAS
![]() |
| Capa da segunda revista da personagem |
![]() |
| Nesta nova fase da personagem, alguns velhos hábitos não existem mais |
19 de fevereiro de 2018
O QUE ESPERAR DESTA NOVA TIANINHA?
![]() |
| Sequência inicial da nova hq da Tianinha |
![]() |
| Tianinha: versão 2017 com doses da versão antiga |
18 de fevereiro de 2018
TIANINHA, UMA FORÇA VIVA QUE RETORNA
![]() |
| Capa da nova revista da personagem Tianinha |






