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22 de agosto de 2026

UMA BAITA E BELA COLETÂNEA

            Acabou de sair do forno (e já enviado para aqueles que adquiriram na pré-venda) a Biblioteca Brasileira de Quadrinhos - Laudo, publicação da editora Go!!!Comics, novíssima parceira nas aventuras por esse universo de criar e publicar hq's. A edição está em um nível apuradíssimo, tanto pelo seu design quanto na qualidade de papel de miolo e capa. Trata-se de uma coleção criada pela Go!!! do qual tenho a tremenda honra de estrear.                    
            Para esse primeiro número que abrange uma produção minha de hq's curtas publicadas ao longo de vinte anos em diversas revistas mix, selecionei doze histórias que acredito, mostrem a diversidade de gêneros que busco navegar, passando pelo faroeste, terror, comédia, ficção-científica, existencialista e por aí segue. Há também duas histórias inéditas produzidas especialmente para essa publicação. Para cada história há um texto de abertura onde explico os processos de sua criação, o por que, os caminhos que me conduziram para sua feitura e tudo mais que julguei (ou me lembrei) ser interessante compartilhar. Há ainda uma galeria de extras com diversas ilustrações feitas ao longo dos anos, pin-ups, para diversas publicações e mesmo internet. De quebra, um texto sobre a Tianinha, sua criação e um pouco de sua história e uma relação com todos os títulos de suas hq's publicadas ao longo dos nove anos de produção de sua série na revista Total, mais a segunda série publicada entre 2017 e 2020. Na edição traz também as capas de quase todos os meus trabalhos solos publicados ao longo de mais de quarenta anos de carreira. Enfim, uma baita edição pra quem quer melhor conhecer sobre meu trabalho, um pouco da minha história nas Histórias em Quadrinhos Brasileira.                                       
             Se interessou? Entre em contato com a Go!!! Comics  através desses endereços aqui ou aqui.                                                         

 

30 de março de 2024

O DIA EM QUE A CRIATURA FEZ A FESTA COM SEU CRIADOR

Fotos Manoel Souza

  

   Em meados dos anos dois mil, durante uma das entregas do prêmio anual Ângelo Agostini, que premeia os melhores de cada ano anterior dos quadrinhos nacionais, estive presente com minha esposa para, além de assistir o evento, celebrar alguns amigos laureados. Minha esposa, embora ligada ao mundo artístico, trabalhava então como atriz de teatro, conhecia muito pouco do universo das Histórias em Quadrinhos e naquele momento, muito menos do universo da produção nacional, mas estava entusiasmada pelo evento em si e principalmente pelo fato do teatro do Senac do bairro Lapa aqui em São Paulo, localidade onde naquele período algumas das premiações do Ângelo Agostini foram realizadas, encontrava-se lotado. Público interessado nas premiações, fãs, amigos e parentes dos artistas em destaque. 

            Durante um determinado momento da cerimônia, um artista da velha guarda recebeu a homenagem de Mestre do Quadrinho Nacional pela vida dedicada à Nona Arte e pelo conjunto de sua obra, e foi então que um determinado ilustrador (por razões óbvias não direi o nome) subiu ao palco para receber o prêmio. Com uma mão fortemente enfiada no bolso e outra segurando o troféu, andava para todo o lado do palco, provavelmente nervoso e ao mesmo tempo tímido pelo momento, discursando dos infindáveis problemas da área, da dificuldade de se produzir e vender quadrinhos no país, da falta de dinheiro, do não reconhecimento que vem da mídia, do público e às vezes da própria classe e uma série de outras lástimas, que passado todos esses anos não me recordo. Daquele período para hoje a situação deu uma razoável melhorada, diga-se de passagem, inclusive com um Big Bang fabuloso de novos talentos de todos os gêneros, escrevendo, desenhando e publicando com uma qualidade estrondosa. Mas voltando ao palco do Senac, a fala do então Mestre, estava carregada de razão e sim é importante levar ao público a dificuldade de se produzir essa arte. Não há dúvida. Porém, estávamos em um evento de celebração onde, apesar de tudo, estamos aqui, fazendo de um jeito ou de outro. A premiação em si, era e ainda é por si só um ato de fé, de resistência e isso é o mais importante. Foi durante esse desamparado discurso que minha esposa virou-se para mim e perguntou: “Laudo, mas é tão ruim assim mesmo?”. Não me recordo o que lhe respondi e passado todos esses anos nem importa mais.

            Aquele momento ficou durante um período na minha cabeça. Embora compreendendo perfeitamente a cabeça do meu amigo “mestre” laureado, achava que o canto deveria ser de vitória, de crédito, de ir adiante apesar de tudo. Era preciso promover algo totalmente anárquico daquela tristeza e no future que habita o coração de muitos artistas. Afinal, criamos, geramos ideias, mundos, personagens, geramos vida, mesmo que no papel. Fazemos arte e o principal é contrariar mesmo aquilo que é fato e regra a favor e contra nós. Foi nesse sentimento que pensei, caso ganhasse algum prêmio nos próximos anos, promoveria algo no durante o evento de entrega dos troféus, algo que mesmo de um modo simples e pequeno, mexesse pelo menos com a entrega do prêmio onde, mesmo laureando artistas e obras, às vezes a melancolia perdurava em alguns casos específicos, como o citado. 

          Entramos em 2009, um ano depois dos acontecimentos, por uma brincadeira da vida, fui premiado na categoria Melhor Desenhista Nacional e claro, toda aquela intenção inspirada pelo mestre, teria que ser parida, vir à luz. Como se diz, vamos bagunçar o coreto!          

        
  A série da minha personagem
Tianinha acabara de entrar em seu nono ano de publicação ininterrupta dentro da revista Sexy Total. O fotolog (sim é coisa antiga, crianças!) da personagem que vinha mantendo, tinha uma média de duzentas a trezentas mil visualizações por mês. Um sucesso! Uns três anos antes eu havia dado uma entrevista para o programa do Otávio Mesquita no SBT, falando sobre a personagem e na ocasião, foi pensado entre eu e a produção levarmos uma garota loira se fazendo passar de Tianinha, enquanto acontecia a entrevista que seria


feita dentro de um motel. Nada mais propício. A lembrança disso trouxe-me a inspiração necessária: iria levar uma garota linda, sexy e loira, a própria Tianinha para sair em meio ao público para subir ao palco e me entregar o prêmio. A ideia foi levada até Worney Souza, um dos organizadores do prêmio que adorou a ideia e assim aconteceu na data de 14 de Fevereiro de 2009. O público presente que lotava o teatro do Senac, foi surpreendido com a atuação de uma amiga, Arielle, atriz, que cobria todos os requisitos que a personagem pedia, se fazendo passar pela própria Tianinha. Interagindo com os presentes, saindo de algumas situações e controlando todo o ambiente que acredito, a própria se real fosse (mas será que ela não é real mesmo??), não teria feito assim. E para o meu espanto, os presentes julgavam eu mesmo desconhecer a armação toda. Sim, nota dez para a ação!!

           Mesmo tendo engendrado toda essa deliciosa situação, foi algo inesquecível e saboroso ganhar um prêmio entregue pelas mãos de sua própria criação, principalmente sendo ela a própria loirona. 

           Por outro lado, mais uma vez reitero que entendo a dor, o desalento, a decepção de muitos amigos e conhecidos contemporâneos sobre o árduo caminho de se fazer quadrinhos, mesmo hoje com um cenário melhor. Ela é pertinente. Mas, podemos ser maiores que isso, podemos enxergar a possibilidade. O tempo vem mostrando que sim. Os novos autores que vem surgindo pela estrada dizem que sim.E é nisso que devemos apostar.

          Curiosamente, alguns poucos meses depois a série da Tianinha foi encerrada pela editora. Fechava-se a era das revistas masculinas, as revistas de mulher pelada, ao qual a série de hqs da loira pertenceu durante nove anos. Encerrei ali minha relação com a personagem (mesmo tentando trazê-la de volta numa série independente em 2017 que não aconteceu) e qual melhor forma de nos despedirmos, criador e criatura, que trazendo essa parceria para interagirmos com o público?

Página da série da Tianinha no período da revista "Sexy Total"



          


11 de abril de 2023

AS TENTAÇÕES DE TODOS NÓS

Capa do novo livro

           Durante a primeira década dos anos dois mil, estava completamente absorvido na produção de Yeshuah que viria a ser publicado inicialmente em três volumes, sendo que os dois  primeiros foram lançados justamente no final dessa primeira década. Durante a produção dessa hq, roteiro e  desenhos, houve uma intensa pesquisa de minha parte para conhecer o máximo possível sobre a figura de Jesus e assim poder trabalhar dentro de um outro campo em seu enredo e foi justamente nessas imensas pilhas de livros que estudei que  deparei com a história... ou o mito, enfim, de Santo Antão, por acaso. Não me recordo agora mas também não importa tanto, em meio a livros sobre o cristianismo e sua história, estava lá em alguma citação provavelmente sobre o egípcio que durante sessenta anos de sua vida viveu no deserto em busca de um grau elevado de espiritualidade. Antão é tido como o primeiro asceta do cristianismo (segundo o dicionário: antes da instituição dos mosteiros, devoto dedicado a orações, privações e mortificações, sem ter pronunciado votos.) e nessa sua jornada mística e espiritual teve um confronto constante com Satanás que tinha o intuito de vencê-lo em seu objetivo e para isso o anjo caído fez uso de todas as armas possíveis, entre elas a luxúria, o sexo, os desejos da carne. Ao termino desse primeiro contato com a história do santo vi que em sua jornada e enfrentamento estava muita coisa que poderia representar, criar metáforas sobre buscas que sabia que existiam em meus quadrinhos, mesmo até nos mais descompromissados: o sagrado e o profano.

            Nesse mesmo período da produção de Yeshuah, paralelamente produzia a série erótica da personagem Tianinha, onde vale dizer  durou nove anos de publicação mensal dentro da revista masculina Total. A personagem loira que durante um certo período ganhou grande fama na internet, que então estava começando a criar vida muito longe do que é atualmente, fama essa que alavancou sua popularidade nas bancas e com os leitores, trazendo vez ou outra um número exponencial de vendas. Tianinha trazia muito do meu pensar sobre sexo: da relação entre pessoas, do que é permitido e principalmente nesse ato que à princípio praticado por duas pessoas, onde todos se tornam iguais. Mas, ao mesmo tempo também realizava uma profunda busca espiritual na hq e dentro de mim em Yeshuah. Foi nesse mesmo período que fiz meus primeiros trabalhos xamânicos, experimentando a expansão da consciência que foram fundamentais, divisores de água, para minha vida e para meu trabalho nos quadrinhos. 

         Com essas duas compensações na balança, de novo, o sagrado e o profano, vamos tratar assim, que quando tomei conhecimento da história de Antão, como disse, vi nele a metáfora a se trabalhar para entender o que é isso dentro do que crio... por que o sexo e o prazer? por que a busca e o entender Deus ou o que pode se entender como? e principalmente o equilíbrio da fé. A fé que antes de qualquer religião é um estado primordial para nossa existência terrena.

           

A tentação de Santo Antão por Salvador Rosa
          Claro que precisaria me aprofundar na história do santo, assim como vinha fazendo em Yeshuah. Li sua biografia "oficial", escrita por Santo Atanásio, arcebispo de Alexandria e contemporâneo de Antão, além do maravilhoso texto de Gustave Flaubert de livre inspiração As tentações de Santo Antão, esse texto por sinal, foi minha grande fonte inspiradora para compor o meu roteiro, além de estudar  quase toda iconografia, onde talvez Bosch tenha sido o artista que mais representou a história do santo e suas tentações no deserto.

            Ainda hoje sua história é muito forte, muito inspiradora: entre tantos simbolismos e interpretações possíveis é o homem no centro da famigerada disputa entre céu e inferno. A briga pela equação da balança e foi nesses pequenos e ao mesmo tempo grandes vislumbres de possibilidades que fui moldando a minha história. O meu Antão não poderia ser alicerçado em um personagem histórico, pois muitíssimo pouco se tem e a própria biografia de Santo Atanásio pouco fornece apesar de abranger muito de sua vida religiosa. Busquei então criar dentro dos pontos principais de sua história... ou mito, o homem, o ser humano que confronta seus erros, principalmente enganos perante Deus e perante o diabo, que aqui, mais do que um ser maligno, disposto a tirá-lo do caminho sagrado, quer traze-lo para verdadeira trilha divina que é simplesmente viver a vida, ou a vida à vida, como é dito em vários momentos da história.  Até onde o egoísmo e a cegueira em nome do que julgamos ser o absolutamente correto não prejudica quem está em nosso entorno e principalmente a quem nos ama? O que realmente é certo? Onde está Deus... ou nossa fé... em tudo isso? Por que a minha crença é a verdadeira e a sua não? E tantas outras questões que não saem de nosso DNA.

            É claro que o livro não traz resposta alguma, mas procurei não deixar dúvidas. Eu mesmo sigo dentro de minhas dualidades, que vale dizer, em momento algum quis excluir um desses lados.  Acredito que mais harmoniosos agora, quem sabe. Talvez e assim digo, talvez, busquei traduzir tudo a uma denominador comum, onde nesse estado não existe dualidade. O que seria? Mais do que não querer entregar o final da hq, o mais provável é quero deixar para vocês, pois é uma hq onde conto uma história, mais a conclusão sempre é do leitor. Para essa busca dentro do deserto pessoal onde conduzo o leitor desde a primeira página, a hq traz um ritmo lento, contemplativo com muitas, muitas páginas totalmente absorvidas por desertos, montanhas, céu, noite... natureza, que apenas observa o drama que nela se estabelece e irá acontecer. E o deserto pode ser o leitor: observador e estado interior a ser preenchido.

            As tentações de Santo Antão será lançado em breve pela editora Devir, velha parceira em outros trabalhos tão preciosos na minha carreira como Histórias do Clube da Esquina, Cadernos de Viagem e claro, Yeshuah. Na internet você vai encontrar muita coisa sobre Antão, vale conhecer, e entender como disse para trás o quanto ele nos representa em nossa essência humana, conflitante, sagrada, profana e por tudo isso, fazendo parte de Deus. 

          Mais uma vez uma história foi contada, escrita e desenhada e breve servida. E a vida de todos segue adiante.

         

O deserto: observador do confronto de Antão



 

16 de março de 2018

TIANINHA E OS CAMINHOS PARA SUAS HISTÓRIAS

Capa da segunda revista da personagem

             Acredito que não exista uma regra de fato para se criar. Criar um roteiro. Muita gente tem seus métodos e nele mantém seu ritmo de criação constante. No caso hoje falo com vocês de roteiro de uma História em Quadrinhos, claro, ponto base deste blog. Para mim, sempre trabalhei das mais diversas formas possíveis e para que melhor entendam, darei alguns exemplos: a trilogia Yeshuah - tinha uma linha mestra, uma espinha dorsal que era a história de Jesus em si e como não havia intenção de modificar a “sinopse original”, digamos assim, fui criando o roteiro à partir de cada cena que ia desenvolvendo, ou seja, do início até o fim do roteiro que gerou quase quinhentas páginas de quadrinhos,  tudo foi criado à partir de cada bloco, cada sequência, isso ao longo de treze anos que foi o tempo que levei para produzir toda a trilogia. Ou seja, muita coisa, ou arrisco a dizer que quase que em sua totalidade das coisas pensadas para o último livro, Onde tudo está, lá atrás, enquanto trabalha no roteiro e desenhos simultaneamente de Assim em cima assim embaixo, o primeiro livro, não haviam sido pensadas. Foram acontecendo no decorrer da criação do texto e arte da terceira parte. Particularmente acho essa experiência de criação muito interessante e desafiadora, porém, não é uma regra na minha forma de escrever roteiros. Claro que esse processo funciona comigo porque sou o autor do texto e da arte, então a criação simultânea torna-se um interessante processo.
           Alguns outros trabalhos meus como Questão de Karma (desenhado pelo Alexandre Santos), Histórias do Clube da Esquina, a minissérie Depois da meia-noite e Cadernos de Viagem, para citar alguns, tiveram seus processos muito semelhantes e mais tradicionais, digamos assim, ou seja, escrevi o roteiro na íntegra, da primeira página à última e aí depois fui trabalhar nos desenhos. Meu mais recente roteiro que breve pretendo começar os seus desenhos, As tentações de Santo Antão, também trabalhei dentro deste processo tradicional, embora algo no conceito foi repensado bem posteriormente e curiosamente não altera nada do texto, mas sim da concepção visual. Experiências fantásticas.
           Enfim, toda essa apresentação na verdade é para falar de O gran circo Orgasmático, segunda revista da série da Tianinha, lançada em fevereiro. Nessa nova aventura da loira, ela ainda está no Nepal (confira as postagens anteriores, onde explico sobre essa nova fase da personagem), porém pretende sair do país para conhecer o resto do mundo. Sem dinheiro para esse salto, busca um velho amigo residente em Katmandu, capital do país, para pedir um auxílio, que lhe é negado devido a antigas rusgas, a má fama da Tianinha, ainda a precede. Nesse caminho, a loira encontra Thelonius Blasco, misteriosa figura, dono do tal Gran Circo Orgasmático do título. Convidada a trabalhar no respectivo circo, Tianinha descobre que se trata de um show que propõe uma liberação sexual da plateia e dos artistas, através da inalação de um gás alucinógeno que mistura entre outras coisas hormônios femininos e masculinos. Apesar deste aparente espetáculo de interação demasiada entre público e as figuras que comandam o espetáculo, jovens, homens e mulheres, todos sensuais e muitos dispostos ao sexo, Tianinha desconfia que toda essa parafernália sexual nada mais é que um subterfúgio para de certa forma alimentar Thelonius Blasco, talvez, um tipo de vampiro sexual. Porém, como fora convidada a trabalhar no circo pelo próprio, ela resolve comprar a briga.
           Quando foi pensado inicialmente, este roteiro, apresentava algumas ideias, como Thelonius ser um tipo de antagonista da Tianinha, para essa e futuras aventuras. Mas a proposta desta série é justamente não ter um fio condutor, ou seja, o que foi pensado para o primeiro número, não é necessariamente o que se seguiu para o segundo (embora sim, há ligações entre as edições), então devo confessar que a essa altura já não posso garantir para vocês que Thelonius irá continuar a ser simplesmente um antagonista, acredito que há um campo maior e mais interessante a ser explorado. Os roteiros das revistas da Tianinha também são escritos da forma tradicional, ou seja, escrevo da primeira à última página e depois vou para prancheta desenhar, porém, assim como a personagem, quando abandona o templo encravado numa montanha do Nepal para seguir o rumo de seu destino sem saber ao certo o que virá pela frente, venho trabalhando assim seus roteiros. Fechei a história da segunda edição, que não se completa (olha o spoiler aí!!), porém, sem saber ao certo que rumo essa mesma história tomará na terceira edição e nem mesmo se irá ter seu desfecho. Claro que muita coisa vai somando a essa experiência de criação e uma delas é saber da reação dos leitores a cada edição. Se loira Tianinha não sabe do seu futuro, experenciando a cada edição suas aventuras, o mesmo posso lhes dizer deste criador aqui. E isso é bom demais.
Nesta nova fase da personagem, alguns velhos hábitos não existem mais
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19 de fevereiro de 2018

O QUE ESPERAR DESTA NOVA TIANINHA?


           
Sequência inicial da nova hq da Tianinha
Na postagem anterior do blog, comentei com vocês sobre este remake da personagem Tianinha, esta repaginada, este reboot, como é costumeiro dizer nos meios quadrinísticos. Na realidade, julguei ser em um primeiro momento algo um pouco difícil de assimilar por parte dos leitores mais antigos, conhecedores e seguidores das antigas hq’s da personagem. Afinal de contas,foram nove anos de publicação mensal, dentro de uma linha pré-estabelecida pela editora, no caso a Rickdan, na época,  suas hq’s seriam de cunho erótico, com situações burlescas, cômicas, paródicas, enfim todas envolvendo sexo. Mesmo a Tianinha tendo uma postura dona de si, era inegável que dentro de seu universo de histórias, vivia e respirava sexo. E assim foi durante toda sua primeira série. Tudo ok. Foi como tinha que ser. Frase de efeito, porém, carregada de verdade. Mas, ao contrário do que julgava, como vinha dizendo, os leitores já conhecedores da Tianinha entenderam perfeitamente a proposta desta nova versão e abraçaram a causa muitíssimo bem. Maravilha.
Nesta versão 2017, a coisa muda completamente. Quase completamente. Primeiramente pelo meu lado de criador e mesmo de profissional do desenho, onde seria quase que impossível voltar a trabalhar com aquele tipo de histórias e cenas desenhadas. Não por uma questão de moralismo, ou qualquer coisa semelhante, mas pela minha postura diante do meu trabalho e das coisas ter mudado muito. Amadurecimento, pode ser o nome a se dar, porém não me preocupo muito com isto. Óbvio que ainda nutria um imenso carinho por essa personagem, que disparado é a minha criação, meu personagem mais popular. Como disse na postagem anterior, a intenção primeira era trazer a personagem para este novo (já não tanto) jeito de fazer quadrinhos, ou seja, o cara que escreveu e desenhou coisas como a trilogia Yeshuah, “Cadernos de Viagem”, “Histórias do Clube da Esquina”, entre tantas outras coisas, poderia também fazer novas hq’s da Tianinha e faze-la presente dentro deste time de obras.
            Foi dentro deste conceito que foi feito o primeiro número recentemente lançado. Há uma incrível sensação de infinitas possibilidades, de temas, tramas, coisas a se discutir, nas hq’s desta série. Lógico, ela continua uma garota gostosa, sensual e adepta do bom sexo, com quem ela quiser. Mas há outras coisas importantes a se contar em histórias e claro, antes de tudo, entreter.
Tianinha: versão 2017 com doses da versão antiga
           Vale por fim comentar com vocês que, há um curioso raciocínio sobre a Tianinha, que se adequa muitíssimo bem a todo esse momento em que as mulheres cada vez mais vem mostrando definitivamente sua igualdade e em alguns casos, a superioridade em relação a nós homens. Já chegaram a comentar que a Tianinha, a personagem, não poderia estar desse jeito que agora estou trazendo em 2017, que tinha que continuar a ser como foi no passado… ou seja fadada a ser aquilo ao qual foi “criada”. Pois bem: a questão do “tem que”, uma imposição de algo, d’uma postura, mesmo para uma personagem que à princípio pareça já definida, coisa que ela não é, me lembra muito a postura de alguns muitos machos pensam em perpetuar sobre as mulheres e seu local no mundo. Nada disso. Absolutamente não. Como mulher de papel, eu como criador, livre, podemos, eu e ela, caminharmos pelos destinos que nós iremos escolher. Não é isso?

18 de fevereiro de 2018

TIANINHA, UMA FORÇA VIVA QUE RETORNA


Capa da nova revista da personagem Tianinha
            No período em que produzi a série da Tianinha, que compreende do ano 2000 até 2009, costumava brincar com o pessoal da redação da revista Sexy, local onde a personagem foi publicada todo esse tempo, mensalmente em uma versão menor e barata da publicação carro chefe da editora, uma revista chamada Sexy Total,  que a loira era na realidade uma entidade viva, um tipo de pomba-gira, que não dava para brincar/zombar dela não. O motivo desta brincadeira, era que nos primeiríssimos anos de produção da série, o dono da editora deixara público que não gostava de Histórias em Quadrinhos e que só vinha publicando as hq’s da personagem, porque o gênero ao qual ela estava vinculada, o erótico, mostrava à princípio muito forte para o público alvo da Sexy Total, apenas por isso, segundo ele. E neste período, várias vezes tentou tirar a secção da revista, tentativa infrutífera em todas as suas vezes, pois em pesquisas com leitores, a parte da publicação que os leitores mais gostavam, era justamente as aventuras sexuais da loira safada Tianinha. E assim decorreram nove anos de um sucesso crescente.
Tianinha foi criada por mim a pedido do primeiro editor da revista, Licínio Rios, inclusive o nome da personagem foi proposto por ele, fazendo uma alusão a uma conhecida colega sua, também do meio editorial. O sucesso da loira se estendeu na internet também, num período em que os fotologs e blogs começavam a ganhar mais espaço e popularidade. O fotolog da personagem que durou uns bons anos, chegou a ter duzentas mil visitações em um mês, o que não é pouco hoje e muito menos na época, 2005/2006…
O final da série  ocorreu pelo cancelamento do título da revista, pela vendagem baixa que já se manifestava no mercado editorial em relação aos títulos masculinos, as revistas de mulher pelada. E, naquele período optei também em dar uma aposentadoria para personagem. Costumava brincar em bate-papos entre amigos e mesmo em eventuais entrevistas, quando me perguntavam da personagem, dizendo que ela estaria em algum lugar paradisíaco do mundo gozando, como sempre fez muito bem, de umas merecidas férias, afinal nove anos, é para poucos, dentro do cenário do quadrinho nacional.                                    
           Agora, por que voltar a produzir suas hq’s, passado todos esses anos? Confesso não ser do meu estilo, voltar a trabalhar com coisas já feitas, principalmente material que foi exaustivamente produzido. Muitos amigos editores independentes e autores, já propuseram que trouxesse à tona esse ou aquele personagem ou mesmo desse continuidade a esse ou aquele livro, mas não, sempre fui da intenção de seguir adiante, pois há muita ideia por aí esperando ser colhida. Porém em um determinado momento, há uns dois anos atrás, algumas coisas começaram a acontecer que foram montando um painel de possibilidades na minha cabeça: conversa com alguns amigos que foram ligados direta ou indiretamente à personagem, como o jornalista Roberto Sadovski, que foi editor um período da Sexy e da Sexy Total, um grupo de garotas, jovens, entre seus vinte e poucos anos, que foram em uma palestra minha e lá, depois numa conversa informal, contaram ser fãs da personagem e o quanto a Tianinha representava para elas como conceito feminino, enfim, tudo isso foi gerando algo e algo novo na minha cabeça. Foi então que realmente pude perceber que livre, digamos assim, das rédeas de uma revista masculina onde obrigatoriamente a Tianinha teve que assumir uma postura erótica o tempo todo, pois era a tônica de suas histórias, a personagem mostrou para mim que tinha um universo de possibilidades a serem exploradas, claro, também o erotismo, mas muito mais. Poderia traze-la do gênero onde ela ficou sedimentada, para o que hoje é o meu pensar de criar hq’s, gerar entretenimento. E assim foi feita a aposta que foi lançada no mês de outubro de 2017: Tianinha – O ponto transcendental.