22 de agosto de 2026
UMA BAITA E BELA COLETÂNEA
31 de julho de 2026
VELHAS ROUPAS COLORIDAS INSPIRADORAS
Há alguns bons anos somei a todos os meus trabalhos, não importa o gênero-drama, comédia, terror, ficção-científica, espiritualista- enfim, quais forem os gêneros que venha a atrever a trabalhar, somei uma estética que remete aos anos sessenta e setenta, principalmente no tocante a moda. Cresci nesse período, dos anos 70 e o cinema, principalmente, me marcou muito. Existe todo um lado transgressor em inúmeras produções que me fizeram a cabeça e, acredito que no decorrer das décadas, muita coisa produzida então, não conseguiu se nivelar na ousadia de muitos filmes e que por isso, ainda são referência. A moda tanto masculina como feminina, ainda hoje (óbvio, daí por trazê-la para meu trabalho) chamam o meu interesse: pelo estilo, charme, classe, ousadia, mesmo que muita coisa soe brega. Mas claro, essa releitura sempre, dentro do que é possível no meu propósito criador, atualizada nos dias de hoje, pois é para os dias atuais e leitores atuais que se produz.Em Cabaret X, gibizão que estou produzindo com a talentosíssima Germana Viana, criei a série Mondo Balordo. O título remete diretamente aos clássicos pseudodocumentários sensacionalistas produzidos nos anos 60 da série Mondo, onde tínhamos Mondo Cane, que deu início a tudo e depois vieram as variações: Mondo Pazzo, Mondo Trash e claro, Mondo Balordo. Vale acrescentar que Balordo é uma produção de 1964, italiana, que explora justamente as ditas excentricidades do mundo mostradas na película, daí o "balordo", ou traduzindo, algo como Mundo Bizarro, Mundo Insano. Então, além de se ajustar na estética do enredo da série, também enquadra completamente com o conceito desse estranho mundo futurista retratado na hq.
Os figurinos dos personagens já trazem essa salada, misturando o estilo setentista com a atualidade. O título desse primeiro episódio é A palo seco. A frase, de origem espanhola significa algo como, direto, sem rodeios, cru, e também inspirou um poema de João Cabral de Melo Neto, que por sua vez, inspirou o cantor e compositor Belchior a criar uma canção com o mesmo título nos anos setenta e é justamente aí que reside a fonte para o título e fechamento da primeira hq de Mondo Balordo. O grupo guerrilheiro da série que faz uma ataque direto no palácio do planalto do governo fascista (daí a coisa toda de A palo seco) se denomina Barato Vermelho, a ideia é uma junção do título de outra clássica canção escrita nos anos setenta por Gilberto Gil e eternizada na voz de Gal Costa, Barato total, com o vermelho ligado diretamente às ações contrárias, ardentes, vorazes, de esquerda. Somam esses dois pontos a toda uma alegoria estética e ideológica dos personagens que compõe o grupo e se tem Barato Vermelho.
Em Mondo Balordo há ainda referências e inspirações estéticas menores e outras que virão nos futuros próximos episódios (sim, porque esse gibi vai vingar!). As cores da hq, trarão também a força das cores primárias, ligando diretamente a Arte pop, onde os quadrinhos são um dos seus representantes máximos. Por um lado não tão prazeroso, posso dizer assim, de um modo mais sucinto, ela, a série, traz todo esse posicionamento contra essa ideologia arcaica, fascista, preconceituosa, onde muita gente no mundo quer perpetuar, trazer de volta, algo que definitivamente deveria estar se não excluída da nossa sociedade, pelo menos em fase de exclusão. Os tempos por mais que difíceis, ainda hoje, a resistência é preciso, nos sonhos, nos atos, no pensar, na vida. E ainda trazendo esse grande poeta da música, Belchior, vale lembrar um trecho de uma outra clássica canção sua, Velha roupa colorida:
Você não sente, não vê mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
Que uma nova mudança em breve vai acontecer
O que há algum tempo era novo, jovem
Hoje é antigo
E precisamos todos rejuvenescer
Cabaret X, de Germana Viana e Laudo Ferreira, será publicado pela Zarabatana Books e está em campanha de pré-venda no Catarse
27 de julho de 2026
ESSE ESTRANHO, ESTRANHO MUNDO!
Cabaret X, esse novíssimo projeto de gibi que está sendo produzido pela Germana Viana e eu, trará duas séries: Casa de Saliência, já descrito pela criadora, a própria Germana, recentemente nas redes sociais e Mondo Balordo, criado por mim. Essa série traz um futuro bem próximo, 2076, onde uma sociedade teocrática regida por um governo fascista, de extremada direita, encabeçada pelo presidente Alvamar , controla a população e vai, transformando a realidade do país através da mídia, para que a força desse regime se estenda muito mais e se torne um estado mental da nação, eliminando completamente com o passar dos tempos, qualquer resquício de uma sociedade livre e mais humana. Esse regime totalitário e extremamente violento, busca inclusive a eliminação de pessoas e ideias, que não estejam adequadas a todo esse plano ditador de sociedade arregimentada. Contra esse mental fascista, um grupo de guerrilheiros denominados Barato Vermelho, tenta através de ações diretas, pungentes e libertadoras, eliminar as células desse governo. O grupo é liderado pelo casal Jorge de Capadócia e Santa Clara. Nessa intensa luta pelo exorcismo de uma nação, o casal e os outros membros do Barato Vermelho ainda enfrentam o sacerdote Mallemus, a sádica ministra Dumpzilla e o exército de soldados máquinas denominados Sujeito a Guincho. O episódio dessa primeira edição se chama A palo seco e trata-se de uma referência a uma clássica música do cantor e compositor Belchior , aliás a série Mondo Balordo é toda alicerçada em referências clássicas dos anos 60 e 70 que desde sempre permeiam meus trabalhos. Na próxima postagem aqui no blog irei esmiuçar para vocês sobre elas e como se adequam à proposta do enredo da série.
Cabaret X , como eu e a Germana Viana definimos: romances gráficos de libertinagem e falta de pudor, está em pré-venda através do Catarse e você pode garantir seu exemplar através desse link https://catarse.com.br/cabaret-x
25 de abril de 2026
TEM MAIS ZÉ DO CAIXÃO CHEGANDO!
1 de março de 2026
NO RASTRO DA MULHER-DIABA
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| Ataíde Braz, roteirista e criador da Mulher-Diaba |
21 de setembro de 2025
UMA MUITO ESPECIAL COLETÂNEA
| Capa da coletânea a ser lançada |
Serão doze hq’s produzidas
aproximadamente nos últimos vinte anos para algumas revistas como Café
Espacial, Clássicos Revisitados, Fierro Brazil, entre outras e duas inéditas,
feitas especialmente para essa edição. A primeira, Sabatina- morro, volto e
mato, traz uma segunda aventura do meu cowboy no meu universo western feijoada,
Sabatina. Breve irei fazer uma postagem explicando melhor esse personagem e o
gênero que “bolei” denominado western feijoada. A outra hq é Bella Senz’anima –
uma outra versão. Essa história aconteceu a pedido dos editores da Go para essa
edição, pois há um outro quadrinho na mesma coletânea também chamado Bella
Senz’anima, de uma única página, produzida em 2010 para um zine chamado
Pâncreas. Essa primeira versão nada mais foi e é, que uma brincadeira sem muito
o porquê, meio na doidera mesmo, em cima da música Bella Senz’anima, um
clássico da música romântica italiana dos anos sessenta. Algo sem muita
explicação. Pegando uma situação dramaticamente canastra no melhor estilo
novela mexicana, de uma mulher que abandona um parceiro e tudo isso embalado
por um tipo de cantor de churrascaria interpretando esse clássico do cancioneiro
italiano. Foi então que os editores da Go, Sandro Bello e Paulo Castilho,
propuseram que fizesse algumas cenas a mais para essa hq mostrando um pouco
mais dessa situação, explicando um pouco mais todo o drama. Os quinze anos que
separam a criação da história para essa edição, de certa forma pesam e prefiro
deixar perpetuada a intenção original de quando compus a história na ocasião,
porém propus um tipo de nova versão dessa hq e foi então que surgiu a tal uma outra versão. Dessa vez o clima seria aparentemente
sério, com um dramatismo mexicano, ou melhor, italiano, imperando pela hq toda,
mostrando um homem que, numa noite chuvosa volta a seu antigo apartamento onde
viveu um grande amor, que supostamente o abandonou. Nessa volta ao antigo lar,
todos os fantasmas desse passado, voltam a lhe atormentar, inclusiva da amada,
a tal bela sem alma. O protagonista do quadrinho tem seu rosto inspirado no
ator italiano Tony Musante que fez vários dramas românticos nos anos sessenta e
setenta, e todos os diálogos da hq estão também em italiano, misturando falas
originais com a letra da canção que inspirou a hq.
| Sequência de "Bella senz'anima - uma outra versão" |
A edição trará um belo projeto
editorial desenvolvido pela empresa Casa Rex, referência internacional no
design de livros, e prefácio do Franco De Rosa, figura importante e parte da
história dos quadrinhos nacionais, como editor e autor, e para mim, um querido
amigo também e o primeiro profissional da área, que lá atrás, há mais de
quarenta anos olhou para meus desenhos e pensou, creio eu, “esse cara pode dar
certo”.
Claro que estou satisfeito e
principalmente honrado com tudo isso, e ansioso para que esse trabalho logo
seja lançado e chegue até as mãos e os olhos de vocês.
2 de janeiro de 2024
O QUE VEM POR AÍ EM 2024 (assim espero)
Nesse ano que acabou de acabar, minhas atualizações neste, ao qual sempre me refiro como “meu bom e velho blog”, procurei manter um razoável ritmo de postagem. Não com aquela frequência ao qual muitas vezes pretendi, mas dentro da medida do possível estive comparecendo e compartilhando com vocês diversas coisas ligadas ao meu trabalho.
Trazendo então minha primeira postagem de 2024, quero mostrar alguns dos projetos em andamento e outros já concluídos que provavelmente serão lançados ao decorrer deste ano. Obviamente não depende só de minha vontade (quem dera assim fosse!), mas envolve outros tantos independentes de minha pessoa.
Não precisa me amar toda hora
Roteiro de Sergio Chaves. Querido amigo de longuíssima data. Editor, roteirista e design, que há quinze anos vem trazendo sua fundamental revista de cultura em geral, e claro, muito quadrinho, Café Espacial. Premiada inúmeras vezes com o HQ Mix. A hq conta sobre os conflitos pessoais e amorosos, e tudo misturado, de Simone uma mulher madura, professora, assim como das pessoas à sua volta: seu marido, um caso amoroso e uma amiga. Tudo ambientado numa metrópole paulistana. Dentro do processo de quadrinização que venho desenvolvendo, procurei dar um clima, um ritmo muito, mas muito inspirado nos filmes da Novélle Vague dos anos 60, assim como outros clássicos do cinema europeu deste mesmo período como Anônimo Veneziano. E tudo muito regado, obviamente a uma trilha sonora deste mesmo período e principalmente desses filmes e outros, ambientando o estúdio na hora de produzir as artes. Obviamente, na ocasião do lançamento voltarei a falar melhor dessa hq.
O homem do lado de fora
Roteiro meu, com arte estupenda de Rodrigo Mazer. Trata-se também de um roteiro produzido há algum tempo, assim como Não precisa me amar toda hora, e que teve todo um percurso até ser realizado. Aqui, um psicólogo pesquisador da expansão da consciência e seus métodos para tal realização, dr. Jefferson, enquanto realizava uma de suas experiências, acaba desdobrando sua consciência, atravessando as barreiras da realidade e enxergando o mundo, ou a verdade, como ela realmente é e, principalmente o horror que isso representa não só para ele como para todos nós. A arte hiper-realista do talentosíssimo Rodrigo Mazer traz o tom perfeito que esta história precisa ter.
Letícia faz cinemaRoteiro de Antonio Vicente Pietro, é uma viagem idílica e psicodélica por um universo do cinema clássico de todas as épocas e gêneros, tendo como protagonista, obviamente a Letícia do título: uma atriz que se submete à todas possibilidades que cada momento por ela vivido e experimentado dentro do universo cinematográfico. Muito sexo, sadomasoquismo e outros delírios.
O alimento do DragãoRoteiro meu com arte estupenda de Marcel Bartholo. Anteriormente já havíamos feito O santo sangue, que inclusive ganhou um HQ mix de Melhor Roteirista. Esta hq traz uma nova peripécia de Vérnio, o matador de aluguel, protagonista de O santo sangue. Aqui, o personagem já está numa idade mais avançada que em sua aventura anterior e com problemas recorrentes, como a visão fraca e tremores nas mãos. Mesmo assim, precisando arrumar de dinheiro para seu sustento, inclusive para comprar seus remédios, aceita mais trabalho sujo: eliminar uma família de retirantes que se abrigaram nas terras de um latifundiário. A questão perene em toda história que envolve de certa forma todos os personagens é, o que alimenta realmente sua existência? Você tem fome de que? E assim, como em O santo sangue, a expectativa é se Vérnio irá ter uma nova experiência de vida e irá entender que é hora de mudar seu destino ou irá continuar preso à seus princípios?
Todas essas produções em andamento (exceto O homem do lado de fora que já está totalmente finalizado) ainda estão sem editora, vale acrescentar e obviamente sem previsão exata de lançamento. Como disse, há um projeto de quem sejam lançados ao decorrer deste ano.
Há ainda a série Ménage que faço com Germana Viana e Marcatti que deverá ter sua edição de número sete já em produção brevemente e outros projetos já concluídos há mais de uma ano e que ainda não posso divulgar. Vamos torcer que este ano, também saiam do forno.
Começando o ano com uma perspectiva de semear e colher o fruto de tantos anos de amor por essa arte de contar e desenhar histórias.
26 de setembro de 2023
ADAPTANDO UM CLÁSSICO NACIONAL
Um exercício de criatividade que a mim sempre foi muito interessante é o de poder trabalhar com ideias pré-concebidas ou propostas de temas, acho até que essas duas possibilidades de alguma forma se assemelham. Assim foi com hq’s produzidas para várias revistas como Café Espacial, Clássicos Revisitados, Mestres do Terror e claro, Ménage, gibi produzido de forma independente com os amigos e tremendos artistas Marcatti e Germana Viana. Breve prometo falar sobre esta publicação. A coisa toda merece.
Tenho feito ao longo dos anos adaptações de vários clássicos da literatura brasileira e mundial, um dos mais conhecidos e vendidos é a versão que fiz de O auto da barca do inferno do Gil Vicente, lançada pela Editora Peirópolis, que aqui no meu blog há mais de uma postagem contando alguns passos do processo. A ideia de trabalhar sobre um texto clássico é por si só desafiadora e torna-se mais ainda quando é preciso colocar uma marca pessoal nesta adaptação mesmo que honrando absolutamente a história, o texto original. Há alguns poucos anos atrás, a editora Renata da Ateliê da Escrita procurou-me interessada em que eu produzisse uma adaptação de um clássico da literatura brasileira para os quadrinhos. Um delicioso bate-papo sobrevoando as infindáveis obras do panteão de autores nacionais acabou aterrissando em um convite à princípio para mim inusitado que seria trazer para a narrativa sequenciada dos quadrinhos a obra Iracema de José de Alencar. E neste primeiríssimo instante a minha
cabeça pensou e acredito num segundo depois externou a certa marra que este livro trouxe consigo, principalmente entre os jovens de vários períodos, o de se tratar de uma leitura muito difícil, rebuscada, claro pelo período em que foi escrita e ligada, o movimento literário romântico, onde esta era uma das características fortes. Mas, profissionalmente a proposta foi aceita e como sempre faço, busco achar no trabalho encomendado um ou mais pontos onde a minha parte autoral, criativa, possa se encaixar para que a obra saia com toda honestidade possível.Li Iracema quando tinha meus quinze anos, um pouco mais, um pouco menos, talvez, claro dentro de trabalhos escolares e coisas desse tipo. Nessa releitura para a produção da hq e principalmente feita com olhos de alguém que já labuta há muitos anos na contação de histórias desenhadas e, creio eu, com a sensibilidade um pouco mais aguçada, toda a história da índia Iracema, filha do pajé de sua tribo e seu amor pelo soldado português Martim, veio de uma fantástica forma nova e até certo ponto inusitada cheia de possibilidades narrativas para sua adaptação. Isso obviamente trouxe a euforia do ineditismo de uma criação pronta para ser feita. Uma nova leitura da obra foi feita para assimilar melhor a história e trazer mais possibilidades, uma pequena pesquisa tanto na escrita como no audiovisual sobre a obra e seu criador e pronto, estava tudo formatado. Em reunião com a editora trouxe alguns apontamentos sobre a obra, sempre pensando na adaptação e para todas as possibilidades de leitores. Isso é fundamental: pensar sempre em quem vai ler, pois é para eles que criamos. Haviam alguns entendimentos curiosíssimos na história de Iracema, como a questão dela ser filha do xamã da tribo e justamente por isso ser a protetora da bebida Jurema, um chá que tem uma certa semelhança ao Ayahuasca (com certas diferenças das plantas usadas em suas preparações) mas com resultados semelhantes em seu consumo, ou mesmo a diferença do tipo das tribos mostradas na história: uma, a da protagonista, mais mata adentro e outra a rival, mais próxima ao litoral. Lembrando que a história acontece num Ceará nos primeiros anos da descoberta do Brasil. Enfim, diversos pontos, alguns importantes, outros nem tanto assim, mas claro, com sua significância. As cores deste trabalho ficaram nas mãos de Flavio Soares.
Um ponto fundamental para que o resultado da obra alcance um nível beirando a perfeição, se é que se pode dizer assim, é a confiança da casa que te contrata. Essa confiança permite uma liberdade por parte do autor/adaptador respeitando os pontos importantes à editora, porém prezando a reflexão e o modo que quer contar essa adaptação.
Iracema é uma história de amor, da inocência de um amor puro e verdadeiro que a tudo sacrifica em nome dele, no caso Martim, o bravo soldado português, também embalado por esse amor dócil, mas sem a maturidade e perfeição que sua amada traz e lhe propõe criarem juntos. Um tema delicado e bonito, embalado por uma grande aventura num Brasil ainda selvagem. O final com a célebre frase “Na Terra tudo passa”, mostra a compreensão da vida e dos rumos que as coisas se seguiram e que assim deveria ser. Uma máxima simples, profunda e perfeita, que confesso ter sido o ponto central, a estrela-guia que me guiou nesta adaptação.
Quem se interessar em conhecer esTe trabalho, basta conferir no site da editora Ateliê da Escrita.
27 de agosto de 2023
PENSANDO NA CORES
Sou daltônico. Da categoria dos que confunde, troca muitas cores: verde, marrom, azul, rosa, cinza… O caso de ilustradores, desenhistas terem essa deficiência, se é que posso cometer o abuso de chamar disso, não é tão incomum no meio das artes e mais especificamente das hq’s. Um exemplo disso é britânico John Byrne, grande mestre da nona arte, responsável por grandes clássicos da Marvel. O fato é que ao longo de minha carreira nos quadrinhos, especificamente falando, nunca me preocupei com a questão das cores nos meus desenhos. Primeiramente porque durante muitos anos em que tive parceria com o artista Omar Viñole no Estúdio Banda Desenhada, essa responsabilidade, a colorização, cabia a ele e, diga-se de passagem, magnificamente bem. Embora conversássemos bastante sobre a paleta de cores a ser usada em determinada história, ambientando, dando o clima, sempre expunha minhas intenções, porém deixando a realização e como chegar nessa paleta de cores desejada a ele. E esse método se estendeu posteriormente a outros coloristas com quem trabalhei como Flávio Soares (Iracema) e Thaynan Lana ( O vampiro, Aventureiros do Faz de Conta).
Porém em meu mais recente trabalho lançado, A prisioneira, com roteiro do mestre R.F. Lucchetti, para coleção Escafandro da editora Ultimato do Bacon, resolvi mudar um pouco o foco, digamos assim. Já havia colorizado outros quadrinhos meus como Os faroleiros e outros contos de Monteiro Lobato e Navio Negreiro e outros cantos de Castro Alves, ambos lançados pela Editora do Brasil, porém nesses casos a colorização basicamente funcionou como o elemento a que se propunha. Em A prisioneira, a ideia de pensar uma cor e executá-la d’uma maneira própria veio justamente após a leitura do conto do Lucchetti, um mistério que vai do começo ao fim brincando com as expectativas do leitor. Como sou um profundo admirador do cinema europeu B dos anos 60 e 70, assim como do cinema brasileiro desse mesmo período e venho criando um universo estético em minhas hq’s baseado nesse clima cinematográfico(futuramente falarei disso aqui), resolvi que a cor teria uma menção dos clássicos filmes de suspense italianos desse mesmo período, o gênero giallo, tão popularmente difundido por cineastas como Mario Bava, Lucio Fulci e Dario Argento, esse último responsável, talvez, por um clássico absoluto e mais conhecido desse gênero, Suspíria. A ideia de trabalhar com cores fortes, quase caindo no
monocromático em alguns momentos e, principalmente sem tanta preocupação com uma lógica de cores, explico, azul - céu, marrom - tom de pele, tronco de árvore, verde-mata… compreenderam? Tudo isso veio formatado e deliciosamente aceito para esse trabalho, o que definitivamente trouxe luz aos meus quadrinhos, me proporcionando curiosamente a enxergar uma cor pessoal aos meus desenhos, e que me pareceu ter sido aprovado pelos leitores.
Claro não me considero de forma alguma um colorista, comparando a tantos craques das cores que se tem por aí, incluindo muitos brasileiros, porém, posso me considerar que dou cor aos meus desenhos e que creio conseguir fundir a ideia: a estética pensada (a conversa dos anos 60/70 que voltarei a falar reiterando), meu tipo de desenho e história, quer escrita por mim e por esses grandes parceiros.
Quem se interessou por A prisioneira, é só ir no site da editora Ultimato do Bacon
30 de julho de 2023
SEMPRE A POESIA!
11 de abril de 2023
AS TENTAÇÕES DE TODOS NÓS
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| Capa do novo livro |
Durante a primeira década dos anos dois mil, estava completamente absorvido na produção de Yeshuah que viria a ser publicado inicialmente em três volumes, sendo que os dois primeiros foram lançados justamente no final dessa primeira década. Durante a produção dessa hq, roteiro e desenhos, houve uma intensa pesquisa de minha parte para conhecer o máximo possível sobre a figura de Jesus e assim poder trabalhar dentro de um outro campo em seu enredo e foi justamente nessas imensas pilhas de livros que estudei que deparei com a história... ou o mito, enfim, de Santo Antão, por acaso. Não me recordo agora mas também não importa tanto, em meio a livros sobre o cristianismo e sua história, estava lá em alguma citação provavelmente sobre o egípcio que durante sessenta anos de sua vida viveu no deserto em busca de um grau elevado de espiritualidade. Antão é tido como o primeiro asceta do cristianismo (segundo o dicionário: antes da instituição dos mosteiros, devoto dedicado a orações, privações e mortificações, sem ter pronunciado votos.) e nessa sua jornada mística e espiritual teve um confronto constante com Satanás que tinha o intuito de vencê-lo em seu objetivo e para isso o anjo caído fez uso de todas as armas possíveis, entre elas a luxúria, o sexo, os desejos da carne. Ao termino desse primeiro contato com a história do santo vi que em sua jornada e enfrentamento estava muita coisa que poderia representar, criar metáforas sobre buscas que sabia que existiam em meus quadrinhos, mesmo até nos mais descompromissados: o sagrado e o profano.
Nesse mesmo período da produção de Yeshuah, paralelamente produzia a série erótica da personagem Tianinha, onde vale dizer durou nove anos de publicação mensal dentro da revista masculina Total. A personagem loira que durante um certo período ganhou grande fama na internet, que então estava começando a criar vida muito longe do que é atualmente, fama essa que alavancou sua popularidade nas bancas e com os leitores, trazendo vez ou outra um número exponencial de vendas. Tianinha trazia muito do meu pensar sobre sexo: da relação entre pessoas, do que é permitido e principalmente nesse ato que à princípio praticado por duas pessoas, onde todos se tornam iguais. Mas, ao mesmo tempo também realizava uma profunda busca espiritual na hq e dentro de mim em Yeshuah. Foi nesse mesmo período que fiz meus primeiros trabalhos xamânicos, experimentando a expansão da consciência que foram fundamentais, divisores de água, para minha vida e para meu trabalho nos quadrinhos.
Com essas duas compensações na balança, de novo, o sagrado e o profano, vamos tratar assim, que quando tomei conhecimento da história de Antão, como disse, vi nele a metáfora a se trabalhar para entender o que é isso dentro do que crio... por que o sexo e o prazer? por que a busca e o entender Deus ou o que pode se entender como? e principalmente o equilíbrio da fé. A fé que antes de qualquer religião é um estado primordial para nossa existência terrena.
Claro que precisaria me aprofundar na história do santo, assim como vinha fazendo em Yeshuah. Li sua biografia "oficial", escrita por Santo Atanásio, arcebispo de Alexandria e contemporâneo de Antão, além do maravilhoso texto de Gustave Flaubert de livre inspiração As tentações de Santo Antão, esse texto por sinal, foi minha grande fonte inspiradora para compor o meu roteiro, além de estudar quase toda iconografia, onde talvez Bosch tenha sido o artista que mais representou a história do santo e suas tentações no deserto.A tentação de Santo Antão por Salvador Rosa
Ainda hoje sua história é muito forte, muito inspiradora: entre tantos simbolismos e interpretações possíveis é o homem no centro da famigerada disputa entre céu e inferno. A briga pela equação da balança e foi nesses pequenos e ao mesmo tempo grandes vislumbres de possibilidades que fui moldando a minha história. O meu Antão não poderia ser alicerçado em um personagem histórico, pois muitíssimo pouco se tem e a própria biografia de Santo Atanásio pouco fornece apesar de abranger muito de sua vida religiosa. Busquei então criar dentro dos pontos principais de sua história... ou mito, o homem, o ser humano que confronta seus erros, principalmente enganos perante Deus e perante o diabo, que aqui, mais do que um ser maligno, disposto a tirá-lo do caminho sagrado, quer traze-lo para verdadeira trilha divina que é simplesmente viver a vida, ou a vida à vida, como é dito em vários momentos da história. Até onde o egoísmo e a cegueira em nome do que julgamos ser o absolutamente correto não prejudica quem está em nosso entorno e principalmente a quem nos ama? O que realmente é certo? Onde está Deus... ou nossa fé... em tudo isso? Por que a minha crença é a verdadeira e a sua não? E tantas outras questões que não saem de nosso DNA.
É claro que o livro não traz resposta alguma, mas procurei não deixar dúvidas. Eu mesmo sigo dentro de minhas dualidades, que vale dizer, em momento algum quis excluir um desses lados. Acredito que mais harmoniosos agora, quem sabe. Talvez e assim digo, talvez, busquei traduzir tudo a uma denominador comum, onde nesse estado não existe dualidade. O que seria? Mais do que não querer entregar o final da hq, o mais provável é quero deixar para vocês, pois é uma hq onde conto uma história, mais a conclusão sempre é do leitor. Para essa busca dentro do deserto pessoal onde conduzo o leitor desde a primeira página, a hq traz um ritmo lento, contemplativo com muitas, muitas páginas totalmente absorvidas por desertos, montanhas, céu, noite... natureza, que apenas observa o drama que nela se estabelece e irá acontecer. E o deserto pode ser o leitor: observador e estado interior a ser preenchido.
As tentações de Santo Antão será lançado em breve pela editora Devir, velha parceira em outros trabalhos tão preciosos na minha carreira como Histórias do Clube da Esquina, Cadernos de Viagem e claro, Yeshuah. Na internet você vai encontrar muita coisa sobre Antão, vale conhecer, e entender como disse para trás o quanto ele nos representa em nossa essência humana, conflitante, sagrada, profana e por tudo isso, fazendo parte de Deus.
Mais uma vez uma história foi contada, escrita e desenhada e breve servida. E a vida de todos segue adiante.
17 de março de 2023
FAZENDO DE CONTA E APRENDENDO
Alguns projetos chegam em um primeiro momento causando uma certa insegurança pelo fato da proposta em si trazer algo novo. Cabe a escolha de aceitar ou meramente recusar, mas é sempre sabido que em alguns casos, óbvio, é enriquecedor aceitar essa nova experiência. Há tantos anos produzindo quadrinhos e pouquíssimas vezes, mas pouquíssimas mesmo, trabalhei direcionado para o público infantil e as ocasiões em que isso aconteceu sempre foi com textos escritos por outros, ou seja, fui só o ilustrador.
Em 2022 a editora Ateliê da Escrita, que é daquelas casas onde além da questão profissional é uma parceira deliciosa e que incialmente havia produzido para o pessoal a adaptação de Iracema, clássico do romantismo brasileiro escrito por José de Alencar , me trouxe a proposta de criar um álbum direcionado ao público infantil e mais especificamente, contando a história Louis Braille, francês criador do método braille lá no século 19. Claro, em um primeiríssimo momento, sim, uma proposta profissional, mas trazendo algo um pouco complexo, posso dizer assim: contar a história de como foi criado um método para cegos lerem, usado no mundo todo, usando linguagem fácil, pois é dirigida ao público infantil e que principalmente tudo isso fique deliciosamente saboroso, legal para a molecadinha ler. Eu, um autor, ilustrador, roteirista de material adulto, às vezes adulto demais, daria conta disso?
A confiança mútua entre profissionais é fundamental, um bom princípio para tudo. A Ateliê apostou plenamente na possibilidade minha de criar esse projeto, e claro que essa liberdade abraçada à confiança, me deixou absolutamente livre para criar todo o projeto. Claro, nesse ponto o autor precisa compreender qual é a
proposta que a casa pretende com esse lançamento, quais são os objetivos que busca, além do público direcionado. Nasceu aí a turminha dos Aventureiros do Faz de Conta em sua primeiríssima aventura O tesouro que não se vê, subtítulo da obra.
Maçã, Maria Carolina, Ulisses, Duga e Teko, formam esses aventureiros que contam ainda com a ajuda fundamental do Tio Júpiter e sua casa voadora chamada Casemiro, uma inteligência artificial, responsável por criar as aventuras que a garotada irá viver e mais ainda, aprender. Nesse primeiro livro, movido por uma situação em que Ulisses irá precisar usar óculos, eles participam de um jogo onde terão que usar suas espertezas, inteligências e outros sentidos, menos a visão que lhes foi bloqueada justamente para terem uma experiência de como é ser um cego, para encontrar um valioso tesouro. E no decorrer dessa aventura de caça ao tesouro vão conhecendo a histórias de Louis Braille, o referido criador do método braile, assim como de José Alvares de Azevedo, também cego e que trouxe o método para o Brasil no final do século 19. Tudo de uma maneira divertida, mas informando.
A escritora cega Maria Helena Chenque participou do projeto, assessorando justamente no ponto fundamental tanto do roteiro quanto da arte que foi me fazer entender, me aproximando o possível do universo dos cegos, suas dificuldades e facilidades. Peça fundamental para a narrativa e tempero da história. Sem ela a história, o roteiro perderia sua verdade, sua autenticidade. Vale ainda contar que as crianças, os personagens, são todos iguais, embora de raças diferentes: negros, brancos, amarelos. Não há um líder nesse grupinho. Não há um mais inteligente: todos sabem e aprendem ao mesmo tempo, e claro, todos querem brincar também, afinal são crianças. Esse ponto, antes mesmo de pensar no enredo foi fundamental para mim, pois na igualdade e respeito, tudo é mais acessível e só abre-se espaço para o aprendizado. A hq contou com as cores da Thaynan Lana, talentosíssima artista, ilustradora e animadora com que eu já trabalhara antes em O vampiro.
Quem se interessar é só entrar no site da editora .
10 de outubro de 2022
ESTRANHOS CASOS, ESTRANHOS QUADRINHOS
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| No meio da noite, na estrada, acontece a abdução... |
O universo da ufologia no país é imenso. Assim como no resto do mundo, o Brasil traz uma infinidade de casos com sólidas bases no real, por mais que a mídia pouco ou quase nada divulgue ou ironize, fazendo com que uma boa parte da população desacredite. Mas é fato, é muito real.
Alguns casos são bem populares,
como o ET de Varginha, provavelmente o mais famoso, motivo de muita conversa,
especulação e muita piada, obviamente falando. Mas trata-se de um assunto muito
sério, onde inclusive há um caso de morte envolvido. Há também a Operação Prato, ocorrido
no final dos anos setenta na cidade de Colares no Pará, onde houve um profundo
envolvimento do exército juntamente com toda a população desta localidade. Faça
você uma boa pesquisa pela internet, Youtube, para melhor se inteirar desses casos
que cito, e são apenas dois de uma infinidade.
Neste momento estou desenvolvendo
uma hq para um projeto de um novo selo editorial chamado Ponzo Books, onde
trago essa questão da ufologia no Brasil. Fractal – Realidades Estranhas é o
nome do livro em preparação, que contará com a participação de vários artistas
do cenário nacional dos quadrinhos, todos tratando sobre temas ligando o
extraordinário, o sobrenatural e o passo para uma outra realidade. Projeto
encabeçado pelo dono do selo, Pedro Ponzo, também quadrinista. Com o convite
feito achei interessante trabalhar com esse tema, pois lembrei-me de uma
palestra online que vi uma ocasião do Ademar Gevaerd, conceituadíssimo ufólogo
brasileiro, um dos expoentes da pesquisa desse tema no país, onde ele diz que à
partir do momento que uma pessoa é abduzida e levada para a nave de seus
raptores, automaticamente ela já adentra numa outra dimensão, num outro campo
completamente diferente do seu. Essa reflexão me tocou bastante pois nunca havia
pensado dentro deste princípio e foi à partir dessa memória que criei O homem
binaural para o projeto Fractal.
| Nelson Tasca - Fonte revista UFO |
A hq é uma livre adaptação do suposto
caso que ainda hoje é comentado entre o meio ufológico brasileiro, inclusive
gerando alguma polêmica, principalmente pelo teor da mensagem que a
extraterrestre deixou para que Tasca transmitisse ao povo da Terra.
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Abaixo uma entrevista com o próprio Nelson Tasca contando toda sua história







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