16 de março de 2018

TIANINHA E OS CAMINHOS PARA SUAS HISTÓRIAS

Capa da segunda revista da personagem

             Acredito que não exista uma regra de fato para se criar. Criar um roteiro. Muita gente tem seus métodos e nele mantém seu ritmo de criação constante. No caso hoje falo com vocês de roteiro de uma História em Quadrinhos, claro, ponto base deste blog. Para mim, sempre trabalhei das mais diversas formas possíveis e para que melhor entendam, darei alguns exemplos: a trilogia Yeshuah - tinha uma linha mestra, uma espinha dorsal que era a história de Jesus em si e como não havia intenção de modificar a “sinopse original”, digamos assim, fui criando o roteiro à partir de cada cena que ia desenvolvendo, ou seja, do início até o fim do roteiro que gerou quase quinhentas páginas de quadrinhos,  tudo foi criado à partir de cada bloco, cada sequência, isso ao longo de treze anos que foi o tempo que levei para produzir toda a trilogia. Ou seja, muita coisa, ou arrisco a dizer que quase que em sua totalidade das coisas pensadas para o último livro, Onde tudo está, lá atrás, enquanto trabalha no roteiro e desenhos simultaneamente de Assim em cima assim embaixo, o primeiro livro, não haviam sido pensadas. Foram acontecendo no decorrer da criação do texto e arte da terceira parte. Particularmente acho essa experiência de criação muito interessante e desafiadora, porém, não é uma regra na minha forma de escrever roteiros. Claro que esse processo funciona comigo porque sou o autor do texto e da arte, então a criação simultânea torna-se um interessante processo.
           Alguns outros trabalhos meus como Questão de Karma (desenhado pelo Alexandre Santos), Histórias do Clube da Esquina, a minissérie Depois da meia-noite e Cadernos de Viagem, para citar alguns, tiveram seus processos muito semelhantes e mais tradicionais, digamos assim, ou seja, escrevi o roteiro na íntegra, da primeira página à última e aí depois fui trabalhar nos desenhos. Meu mais recente roteiro que breve pretendo começar os seus desenhos, As tentações de Santo Antão, também trabalhei dentro deste processo tradicional, embora algo no conceito foi repensado bem posteriormente e curiosamente não altera nada do texto, mas sim da concepção visual. Experiências fantásticas.
           Enfim, toda essa apresentação na verdade é para falar de O gran circo Orgasmático, segunda revista da série da Tianinha, lançada em fevereiro. Nessa nova aventura da loira, ela ainda está no Nepal (confira as postagens anteriores, onde explico sobre essa nova fase da personagem), porém pretende sair do país para conhecer o resto do mundo. Sem dinheiro para esse salto, busca um velho amigo residente em Katmandu, capital do país, para pedir um auxílio, que lhe é negado devido a antigas rusgas, a má fama da Tianinha, ainda a precede. Nesse caminho, a loira encontra Thelonius Blasco, misteriosa figura, dono do tal Gran Circo Orgasmático do título. Convidada a trabalhar no respectivo circo, Tianinha descobre que se trata de um show que propõe uma liberação sexual da plateia e dos artistas, através da inalação de um gás alucinógeno que mistura entre outras coisas hormônios femininos e masculinos. Apesar deste aparente espetáculo de interação demasiada entre público e as figuras que comandam o espetáculo, jovens, homens e mulheres, todos sensuais e muitos dispostos ao sexo, Tianinha desconfia que toda essa parafernália sexual nada mais é que um subterfúgio para de certa forma alimentar Thelonius Blasco, talvez, um tipo de vampiro sexual. Porém, como fora convidada a trabalhar no circo pelo próprio, ela resolve comprar a briga.
           Quando foi pensado inicialmente, este roteiro, apresentava algumas ideias, como Thelonius ser um tipo de antagonista da Tianinha, para essa e futuras aventuras. Mas a proposta desta série é justamente não ter um fio condutor, ou seja, o que foi pensado para o primeiro número, não é necessariamente o que se seguiu para o segundo (embora sim, há ligações entre as edições), então devo confessar que a essa altura já não posso garantir para vocês que Thelonius irá continuar a ser simplesmente um antagonista, acredito que há um campo maior e mais interessante a ser explorado. Os roteiros das revistas da Tianinha também são escritos da forma tradicional, ou seja, escrevo da primeira à última página e depois vou para prancheta desenhar, porém, assim como a personagem, quando abandona o templo encravado numa montanha do Nepal para seguir o rumo de seu destino sem saber ao certo o que virá pela frente, venho trabalhando assim seus roteiros. Fechei a história da segunda edição, que não se completa (olha o spoiler aí!!), porém, sem saber ao certo que rumo essa mesma história tomará na terceira edição e nem mesmo se irá ter seu desfecho. Claro que muita coisa vai somando a essa experiência de criação e uma delas é saber da reação dos leitores a cada edição. Se loira Tianinha não sabe do seu futuro, experenciando a cada edição suas aventuras, o mesmo posso lhes dizer deste criador aqui. E isso é bom demais.
Nesta nova fase da personagem, alguns velhos hábitos não existem mais
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3 de março de 2018

SUBINDO O OLIMPO TROPICAL (final)


             Em uma das inúmeras, milhares de conversas que tive com o André Diniz ao longos dos anos em nossa longeva amizade, uma ocasião, nesse período que começávamos a trabalhar em Olimpo Tropical, mais especificamente eu, desenvolvendo os estudos dos personagens, falávamos do interesse em comum em trabalhar com outras possibilidades de quadrinhos, no que se refere ao cair no lugar
Capa da edição portuguesa lançada pela Polvo Edições
comum de criar histórias violentas, tanto conceitualmente quanto visualmente, para nós, o momento que cada um vinha passando com renovações pessoais, era esboçar novos caminhos e principalmente novas possibilidades no campo da criatividade. Resumo: esta coisa não nos interessava mais. Porém, o paradoxo estava estabelecido. Com um modo de pensar sobre o trabalho, sobre as coisas que se queria e não fazer pela frente, com uma história justamente falando sobre o violento universo do tráfego na favela? Para o André, estava muito claro, que era algo que precisava contar e, não se tratava diretamente de uma história de violência. Violência por violência. Isso em conversas posteriores, sobre o roteiro em si, foi muito conversado entre nós. 
            Naquele período, dois mil e quatorze, havia terminado Yeshuah – onde tudo está, terceiro livro da trilogia Yeshuah e que fora, uma profunda experiência pessoal e artística que obviamente promovera profundas modificações na minha forma de pensar quadrinhos, especificamente falando. Vale adiantar para vocês que Olimpo Tropical era para ter sido meu primeiro trabalho pós encerramento da trilogia Yeshuah. Não acabou acontecendo. Contrato e publicação já pré-definidas com a editora Polvo de Lisboa/Portugal, algo realmente bloqueou meu processo de criação desta hq. Algo impediu que eu mergulhasse nesse profundo mar que era conceber visualmente o roteiro do André. O pré-julgamento cristão de nós ocidentais, impedia num primeiríssimo momento um mais aprofundado entendimento deste roteiro. Por aí, vale dizer, ou melhor confessar que a coisa realmente não prosseguiu, embora claro, os trabalhos de quadrinização já vinham acontecendo, mas num processo lentíssimo e, nesse tempo acabei lançando Dedos Mágicos, Questão de Karma e Cadernos de Viagem. É claro, que conhecedor da infindável qualidade de narrador de histórias que o André tem e, principalmente um talento de parir personagens demasiadamente comuns, corriqueiros e riquíssimos em suas personalidades e psicologias a serem estudadas (estudiosos dos quadrinhos atentem a isso!), muito me incomodava o fato de não assumir os trabalhos com fervor e disposição desta hq, até porque o meu parceiro e velho e querido amigo esperava isso de mim. 
            Um fato raro onde me arrisco a dizer que provavelmente seja a primeira e única vez que tenha feito até o momento, reli o roteiro umas quatro vezes. Li sequências espaçadas, enfim, fui os poucos percebendo qual era o discurso, as metáforas, os simbolismos que estavam ocultos nos personagens, em seus sentimentos, no cenário em si. Muita coisa acredito que puro entendimento meu e claro, isso é que valeu para que mais que virar o ilustrador do roteiro, eu virasse realmente um coautor, que é assim que tem que ser.
             Não quero me estender em minhas percepções deste roteiro e seus sutis momentos, às vezes fortes, às vezes delicados. Isso é fundamental que seja deixado e principalmente permitido para cada leitor. Um trabalho riquíssimo do André. Quando comentei anteriormente da questão do pré-julgamento, justamente me vi caindo na obviedade de querer escrever ou desenhar roteiros onde o discurso pacífico vinda direto como uma bandeira tremulando, pouco percebendo que as coisas podem vir às vezes muito mais fortes do que as outras explicitadas. Um velho criador como eu, não percebendo essa lei, num primeiro momento, porém, atento para aprender. Uma aula e um aprendizado que me fez mergulhar então, como queria, profundamente na narrativa visual de Olimpo Tropical. O resultado foi mais que feliz para mim, para o André, para os leitores. A obra vem seguindo, desde o seu lançamento, no final de dois mil e dezessete durante o Comic Con Experience, uma história muito feliz, tanto em Portugal, onde foi publicada inicialmente, quanto aqui e com certeza, pelos caminhos que for seguir no futuro. 
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Delírio, medo e tormento na mente de Biúca, o protagonista de "Olimpo Tropical"


22 de fevereiro de 2018

SUBINDO O OLIMPO TROPICAL (parte 1)


            Em meados de 2013, finalmente encerrava a trilogia Yeshuah. Não me recordo que período foi exatamente, mas provavelmente foi em meados do ano, junho ou julho. A melhor forma de recuperar o fôlego após treze anos concentrados sobre as quase quinhentas páginas que fizeram essa trilogia, era limpar a prancheta e começar a trabalhar em um novo projeto: fôlego eternamente renovado. Aquela deliciosa sensação de findar uma trajetória e o ineditismo de uma nova. André Diniz, roteirista e desenhista de mão cheia e de talento inigualável, e antes de tudo amigo de longuíssima data (isso para não entregar a idade de ambos), veio naquele bom e velho jeito sossegado e discreto de ser, propor-me essa nova obra a se trabalhar na minha prancheta limpa. A coisa vinha sem nome inicialmente, onde bem depois, numa mesa de padaria ao lado de sua casa aqui na Vila Mariana (hoje, Diniz mora em terras lusitanas), com ajuda de sua esposa Marcela, conseguimos parir o título: Olimpo Tropical.
André Diniz, roteirista 
             André Diniz, que me perdoem os outros amigos parceiros do texto, é provavelmente o que mais se encaixa com minha proposta de fazer quadrinhos. Explico: existem alguns elementos em suas histórias que me seduzem e muito complementam o que quero contar. Há coisas escondidas, sentimentos, guardados atrás de ações, movimentos de seus personagens. Sutilmente guardados, porém não escondidos para os melhores observadores perceberem. Pérolas não jogadas aos porcos, mas aguardando serem colhidas com a atenção e o coração de bons pescadores. Assim, havia sido em nossa primeira parceria numa obra autoral Subversivos: Companheiro Germano, lançado em 2000.Um marco de grande importância em minha carreira e divisor de águas na minha forma de desenhar e contar uma história.
Escadaria no Morro da Providência, em foto de
Maurício Hora, que foi um dos pontos de
inspiração para "Olimpo Tropical"
            Mas por que levamos tanto tempo para fazermos outro trabalho juntos? Primeiramente porque cada um teve e tem seus projetos solos, pessoais e outra, porque usando aquele velho bordão, o tempo sabe o que faz. André, como estava dizendo, veio me propor uma nova parceria em uma história sua inspirada em uma de suas muitas andanças pelo Morro da Providência , primeira favela carioca e localizada na região central da cidade. André nesse período estava fazendo a biografia de Maurício Hora, fotógrafo de prestígio internacional e morador desde que nasceu do referido Morro da Providência. Enfim, nas andanças pela favela para pegar depoimentos e imagens para compor a biografia desenhada do fotógrafo, topou com uma cena curiosíssima, para André pelo menos, não acostumado a isso, ao contrário dos moradores: um garoto, um menino, sentado no topo de uma escadaria imensa da favela, totalmente largado em uma cadeira, entediado, com uma metralhadora, acho, não me recordo agora o que me contou então. O garoto estava vigiando do topo da escadaria, caso algum grupo da polícia subisse para atacar o tráfico da favela. A visão daquele moleque com tédio de um cotidiano violento, sacudiu sua cabeça, foi um impacto. E qual a melhor forma de fazer esse sentimento criar seu caminho? Gerar uma história. Criar uma História em Quadrinhos. 
            Morro da Favela, a obra de André onde conta a biografia do fotógrafo Maurício Hora, havia sido lançada há alguns poucos anos antes e alcançado grande sucesso de público e crítica aqui no Brasil e começava a trilhar seu caminho fora do país, com publicação na França e Inglaterra (hoje já somam Portugal e Polônia, que me recordo), então, a intenção era justamente ter essa história do “menino entediado e sua arma” contada visualmente por outro desenhista. Esse desenhista seria eu.
           Na próxima postagem, continuarei contando um pouco mais do processo de criação deste meu mais recente lançamento, Olimpo Tropical.

19 de fevereiro de 2018

O QUE ESPERAR DESTA NOVA TIANINHA?


           
Sequência inicial da nova hq da Tianinha
Na postagem anterior do blog, comentei com vocês sobre este remake da personagem Tianinha, esta repaginada, este reboot, como é costumeiro dizer nos meios quadrinísticos. Na realidade, julguei ser em um primeiro momento algo um pouco difícil de assimilar por parte dos leitores mais antigos, conhecedores e seguidores das antigas hq’s da personagem. Afinal de contas,foram nove anos de publicação mensal, dentro de uma linha pré-estabelecida pela editora, no caso a Rickdan, na época,  suas hq’s seriam de cunho erótico, com situações burlescas, cômicas, paródicas, enfim todas envolvendo sexo. Mesmo a Tianinha tendo uma postura dona de si, era inegável que dentro de seu universo de histórias, vivia e respirava sexo. E assim foi durante toda sua primeira série. Tudo ok. Foi como tinha que ser. Frase de efeito, porém, carregada de verdade. Mas, ao contrário do que julgava, como vinha dizendo, os leitores já conhecedores da Tianinha entenderam perfeitamente a proposta desta nova versão e abraçaram a causa muitíssimo bem. Maravilha.
Nesta versão 2017, a coisa muda completamente. Quase completamente. Primeiramente pelo meu lado de criador e mesmo de profissional do desenho, onde seria quase que impossível voltar a trabalhar com aquele tipo de histórias e cenas desenhadas. Não por uma questão de moralismo, ou qualquer coisa semelhante, mas pela minha postura diante do meu trabalho e das coisas ter mudado muito. Amadurecimento, pode ser o nome a se dar, porém não me preocupo muito com isto. Óbvio que ainda nutria um imenso carinho por essa personagem, que disparado é a minha criação, meu personagem mais popular. Como disse na postagem anterior, a intenção primeira era trazer a personagem para este novo (já não tanto) jeito de fazer quadrinhos, ou seja, o cara que escreveu e desenhou coisas como a trilogia Yeshuah, “Cadernos de Viagem”, “Histórias do Clube da Esquina”, entre tantas outras coisas, poderia também fazer novas hq’s da Tianinha e faze-la presente dentro deste time de obras.
            Foi dentro deste conceito que foi feito o primeiro número recentemente lançado. Há uma incrível sensação de infinitas possibilidades, de temas, tramas, coisas a se discutir, nas hq’s desta série. Lógico, ela continua uma garota gostosa, sensual e adepta do bom sexo, com quem ela quiser. Mas há outras coisas importantes a se contar em histórias e claro, antes de tudo, entreter.
Tianinha: versão 2017 com doses da versão antiga
           Vale por fim comentar com vocês que, há um curioso raciocínio sobre a Tianinha, que se adequa muitíssimo bem a todo esse momento em que as mulheres cada vez mais vem mostrando definitivamente sua igualdade e em alguns casos, a superioridade em relação a nós homens. Já chegaram a comentar que a Tianinha, a personagem, não poderia estar desse jeito que agora estou trazendo em 2017, que tinha que continuar a ser como foi no passado… ou seja fadada a ser aquilo ao qual foi “criada”. Pois bem: a questão do “tem que”, uma imposição de algo, d’uma postura, mesmo para uma personagem que à princípio pareça já definida, coisa que ela não é, me lembra muito a postura de alguns muitos machos pensam em perpetuar sobre as mulheres e seu local no mundo. Nada disso. Absolutamente não. Como mulher de papel, eu como criador, livre, podemos, eu e ela, caminharmos pelos destinos que nós iremos escolher. Não é isso?

18 de fevereiro de 2018

TIANINHA, UMA FORÇA VIVA QUE RETORNA


Capa da nova revista da personagem Tianinha
            No período em que produzi a série da Tianinha, que compreende do ano 2000 até 2009, costumava brincar com o pessoal da redação da revista Sexy, local onde a personagem foi publicada todo esse tempo, mensalmente em uma versão menor e barata da publicação carro chefe da editora, uma revista chamada Sexy Total,  que a loira era na realidade uma entidade viva, um tipo de pomba-gira, que não dava para brincar/zombar dela não. O motivo desta brincadeira, era que nos primeiríssimos anos de produção da série, o dono da editora deixara público que não gostava de Histórias em Quadrinhos e que só vinha publicando as hq’s da personagem, porque o gênero ao qual ela estava vinculada, o erótico, mostrava à princípio muito forte para o público alvo da Sexy Total, apenas por isso, segundo ele. E neste período, várias vezes tentou tirar a secção da revista, tentativa infrutífera em todas as suas vezes, pois em pesquisas com leitores, a parte da publicação que os leitores mais gostavam, era justamente as aventuras sexuais da loira safada Tianinha. E assim decorreram nove anos de um sucesso crescente.
Tianinha foi criada por mim a pedido do primeiro editor da revista, Licínio Rios, inclusive o nome da personagem foi proposto por ele, fazendo uma alusão a uma conhecida colega sua, também do meio editorial. O sucesso da loira se estendeu na internet também, num período em que os fotologs e blogs começavam a ganhar mais espaço e popularidade. O fotolog da personagem que durou uns bons anos, chegou a ter duzentas mil visitações em um mês, o que não é pouco hoje e muito menos na época, 2005/2006…
O final da série  ocorreu pelo cancelamento do título da revista, pela vendagem baixa que já se manifestava no mercado editorial em relação aos títulos masculinos, as revistas de mulher pelada. E, naquele período optei também em dar uma aposentadoria para personagem. Costumava brincar em bate-papos entre amigos e mesmo em eventuais entrevistas, quando me perguntavam da personagem, dizendo que ela estaria em algum lugar paradisíaco do mundo gozando, como sempre fez muito bem, de umas merecidas férias, afinal nove anos, é para poucos, dentro do cenário do quadrinho nacional.                                    
           Agora, por que voltar a produzir suas hq’s, passado todos esses anos? Confesso não ser do meu estilo, voltar a trabalhar com coisas já feitas, principalmente material que foi exaustivamente produzido. Muitos amigos editores independentes e autores, já propuseram que trouxesse à tona esse ou aquele personagem ou mesmo desse continuidade a esse ou aquele livro, mas não, sempre fui da intenção de seguir adiante, pois há muita ideia por aí esperando ser colhida. Porém em um determinado momento, há uns dois anos atrás, algumas coisas começaram a acontecer que foram montando um painel de possibilidades na minha cabeça: conversa com alguns amigos que foram ligados direta ou indiretamente à personagem, como o jornalista Roberto Sadovski, que foi editor um período da Sexy e da Sexy Total, um grupo de garotas, jovens, entre seus vinte e poucos anos, que foram em uma palestra minha e lá, depois numa conversa informal, contaram ser fãs da personagem e o quanto a Tianinha representava para elas como conceito feminino, enfim, tudo isso foi gerando algo e algo novo na minha cabeça. Foi então que realmente pude perceber que livre, digamos assim, das rédeas de uma revista masculina onde obrigatoriamente a Tianinha teve que assumir uma postura erótica o tempo todo, pois era a tônica de suas histórias, a personagem mostrou para mim que tinha um universo de possibilidades a serem exploradas, claro, também o erotismo, mas muito mais. Poderia traze-la do gênero onde ela ficou sedimentada, para o que hoje é o meu pensar de criar hq’s, gerar entretenimento. E assim foi feita a aposta que foi lançada no mês de outubro de 2017: Tianinha – O ponto transcendental.


20 de abril de 2016

ALGUMAS QUESTÕES SOBRE HQ NACIONAL

            Hoje trago aqui, uma entrevista que o roteirista e editor Leonardo Melo, de Curitiba, responsável pela editora Quadrinhópole, fez comigo há algum tempo atrás, para seu canal no Youtube. Nessa entrevista foi tratado alguns pontos importantes para o cenário de hq nacional.
             

             Para acessarem outros videos do Cidade HQ, o canal do Youtube do Leonardo Melo, é só clicar aqui.

13 de abril de 2016

2015- ANO DOS PARCEIROS: ALEXANDRE SANTOS

Lançamento de "Questão de Karma" na Blooks Livraria, em São Paulo, em novembro de 2015.
            Na postagem de 30/03, comentei que 2015, foi um ano em que voltei meu trabalho para parcerias, como desenhista e como roteirista, em trabalhos inclusive, de edições independentes. No segundo semestre deste ano, lancei pelo selo de quadrinhos, Quadro Imaginário, meu e do Omar Viñole, a revista Questão de Karma, com roteiro meu e desenhos do Alexandre Santos . Essa hq traz uma primeira parceria com o Alexandre, velho e querido amigo de longa data, um tremendo ilustrador, que já havia feito quadrinhos no passado, em algumas publicações mix, porém o trabalho como ilustrador e professor da escola Panamericana de Artes, havia o afastado das hq's. No ano passado, o Alexandre me chamou para dar aula no curso de Animação e Games da Panamericana, num módulo sobre story board e foi aí, que usando o roteiro de "Questão de Karma" como modelo para os alunos trabalharem na sala de aula, na criação de um story board, que pensamos na possibilidade de fazermos enfim, um primeiro trabalho juntos. O roteiro não era algo grande, vinte e uma páginas, o que possibilitaria algo mais descompromissado para o Alexandre trabalhar e eu, do meu lado, teria um novo trabalho para lançar no segundo semestre de 2015, em dois grandes eventos que aconteceriam: o FIQ - Festival Internacional de Quadrinhos, em Belo Horizonte, e o CCXP - Comic Con Experience, aqui em São Paulo, o que acabou acontecendo.
       

 O roteiro de "Questão de Karma", foi escrito há muitos anos atrás, provavelmente entre 1997 e 1998, algo assim, e, na ocasião, foi feito já pensando em outra pessoa para desenhar. Nesse período escrevi muitos roteiros para desenhistas, histórias eróticas e algumas de terror, que chegaram a ser publicadas. A ideia da história, já na época, era algo descompromissado, brincar em cima de uma velha piada, a coisa do "atirou pedra na cruz" e "Questão de Karma" segue isso.
           A hq conta a história de um homem que um dia acorda e vê tudo desmoronar em sua vida, descobre que está com uma doença terminal, o seu chefe no banco em que trabalha, arma um desfalque e coloca seu nome de "laranja" na história e pra fechar esse dia, sua mulher passa o dia, enquanto o marido trabalha, o traindo com vários amantes. Completamente desesperado, resolve se matar, se jogando d'um viaduto, mas é impedido no último momento, por um psicólogo, que na tentativa de ajudá-lo, resolve levá-lo para seu consultório e sendo hipnoterapeuta também, faz uma hipnóse de regressão  e acaba então, descobrindo a verdadeira causa de tantos males na vida do protagonista de "Questão de Karma". 
            Como disse, uma história escrita quase como uma piada, carregada de um tom de humor negro, que curiosamente toma outros ares, no traço estilizado e plástico do Alexandre. Ele optou em colocar alguns signos visuais, para ressaltar o emocional do personagem central, sua cabeça doentia e seu mundo sem possibilidades futuras. Nesse caminho todo é fundamental dizer da enorme satisfação e contentamento que foi trabalhar com esse amigo de longa data e talentosíssimo artista, que por ser o que é, como disse, agregou mais coisas que o roteiro à princípio pedia. Coisa de quem sabe muito bem o que faz.
Sequência de "Questão de Karma"

            A revista vem tendo uma vida boa, tanto em vendas pela internet, como em eventos de quadrinhos, o qual tenho participado com certa frequencia. E a alegria desta parceria nossa, foi tamanha, que eu e o Alexandre já estamos trabalhando num novo projeto, para 2017, provavelmente. Uma hq maior, com uma temática densa e extremamente ligada à esses estranhos tempos que vivemos, O homem do lado de fora, novamente o roteiro é meu e os desenhos serão do Alexandre. Eu aqui, e o Alexandre, com certeza, já temos muittas expectativas para esse trabalho. E aqui deixo uma pequena canja desse futuro trabalho, um dos muitos estudos que o Alexandre vem fazendo para essa história.
Estudo para "O homem do lado de fora"

             E, quem ainda não conhece "Questão de Karma" e ficou interessado em conhecer esse trabalho, pode adquirir através da lojinha virtual do Estúdio Banda Desenhada.