No período de transição entre o término dos desenhos de Subversivos: Companheiro Germano e sua publicação em 2000, pela editora independente do André Diniz, a Nona Arte, comecei finalmente a trabalhar nos desenhos de Yeshuah , dentro desse nova ideia, dessa nova intenção de me expressão através desse traço mais solto e totalmente descompromissado com os maneirismos do traço acadêmico, realista. Vale acrescentar somente a título de curiosidade que, nesses primeiríssimos anos de produção dos desenhos da hq, a ideia era que Yeshuah, então sem subtítulo, como os três volumes bem posteriormente viriam a ter, fosse um obra só. Tivesse o tamanho que fosse. Claro que, na situação que vivia o cenário das Histórias em Quadrinhos Brasileiras, daquele período, onde praticamente nada se publicava, com excessão de um ou outro lançamento e muitos ligados ao cenário independente ou de pequenas editoras, era algo muito inviável e de difícil realização. Mas esse raciocínio lógico não me impediu a intenção, muito menos o processo de feitura do quadrinhos. Mas isso é uma outra história.
E assim, foi seguindo a produção de Yeshuah, onde ano após ano, enquanto trabalhava nos desenhos, produção essa que durou de 1999 até 2013, paralelamente fui produzindo alguns outros quadrinhos e lançando-os, como a adaptação de Auto da Barca do Inferno, Histórias do Clube da Esquina, além de várias histórias curtas feitas na colaboração para muitas revistas mix, que começaram a surgir à partir de meados da primeira década dos anos dois mil, principalmente através do movimento do coletivo Quarto Mundo. Através de toda essa intensa produção fui entendendo e me solidificando na linha de desenho que buscava. Solta, sem anatomia correta, pode se dizer assim, embora não existe muita escapatória, pois sempre existe uma, mesmo que seja do seu jeito de fazê-la. Com boa dose de estilização e traço caricatural. Buscando sempre uma forte expressão física, gestual, para que a dramaticidade, ação, humor ou seja lá o que o momento pedisse na cena, chegasse primeiro ao leitor que só apenas a visão do desenho em si.
Essa descoberta e uso dessa nova forma de desenhar no meu trabalho, foi muito alicerçado pela arte-final, onde em um primeiro período foi todo executado com a firmeza e graça do pincel, bico de pena e canetas do tremendo artista Omar Viñole, e depois por mim, que assumi toda essa parte, movido por um gigantesco desejo de dominar toda essa parte da produção, como lá atrás, já fazia, muito embora sem técnica alguma, porém, com muita vontade e era nesse quesito, aliás, que busquei trazer de volta, quando voltei a arte-finalizar meus desenhos. Nesse período, minha finalização era muito em cima de hachuras, processo trabalhoso, mas que trazia à página um belo vislumbre final.
Em alguns casos, a página levava mais que um dia para finalizá-la, ou até mais que isso. Em Yeshuah, isso ocorreu inúmeras vezes, devido a páginas carregadas de detalhes e excessos de hachuras, que, mesmo então, contando com o nanquim do Omar Viñole, meu lápis já se preocupava em cometer esse excesso, indicando já o caminho de finalização para ele. Tudo que fosse necessário, pois a ideia era então, impactar mesmo.
E é aí que entramos em uma terceira fase dessa trajetória na busca de um traço que expressasse o momento, as coisas que queria dizer e mostrar. Foi em um período por volta de 2018, quando todo esse excesso gráfico começou a me incomodar, a me cansar. Dentro de minha observação, mesmo adorando o resultado de muitas hq's longas e curtas que lia, dentro desse acabamento, percebia que algo incondicionalmente estava novamente acontecendo: a vontade de mudar. Meus olhos começavam a procurar quadrinhos e artes de caras como Alex Toth, José Muñoz, Flavio Colin, Hugo Pratt, mestres do grafismo e principalmente da síntese. Isso era o que estava assoprando na minha orelha.

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