Houve um período em minha trajetória nos campos das artes, ou mais especificamente dizendo, nas Histórias em Quadrinhos, onde posso trazer uma analogia do tipo, "o carro já havia esquentado, então já dá para sair dirigindo!", em que meu objetivo era basicamente desenvolver um bom, senão melhor, traço realista, ou como se dizia nesse período, o traço "acadêmico", que por sinal, não faço a mínima ideia se ainda é usado esse termo... Para esse intento. estudava bastante os grandes mestres dessa linha de desenho que me inspiravam, tantos os gringos como brasileiros. Além de mestres também da pintura e fotografia. E, falando em fotografia, esta era muito usada para desenvolvimento dos desenhos. a referência pura.
Desse período, que na atual data, contam-se mais ou menos uns trinta anos, na memória, há um trabalho que pega demasiadamente nessa vertente na busca pelo realismo no traço, que é a adaptação do filme do Zé do Caixão (cineasta José Mojica Marins), Esta noite encarnarei em teu cadáver, o filme em questão era o segundo do personagem e consequentemente a minha segunda também.
Neste trabalho está exposto uma imersão profunda na busca de um desenho bonito (pelo menos na minha leitura), bem realista e muito, com a ajuda inestimável e talentosa do arte-finalista Omar Viñole, onde justamente através desse trabalho começamos uma parceria que durou durante cinte anos.
Daí para frente, alguns outros quadrinhos foram feitos, importante dizer que não era uma época tão produtivo editorialmente falando no cenário das hq's como hoje em dia, mesmo com tantas dificuldades financeiras que o país sempre está atravessando. Enfim, muito material erótico, de sexo explícito, uma ou outra hq de terror, e eventualmente alguma participação nos antigos fanzines, embora meu ritmo de produção colaborativa com a rapaziada independente estava muito abaixo do que minha atuação na década anterior. Foi ainda nesse período da segunda metade dos anos noventa que produzi a minissérie Depois da meia-noite, que por sinal, só viria a ser publicada, praticamente, dez anos depois e de forma independente. Aqui no blog, lá para trás, bem pra trás, comento sobre essa hq, procurem, procurem... Foi aí, nessa gibi, que comecei a melhor perceber como estava tremendamente preso de uma ideia - a da busca do desenho realista - e claro, preso as referências fotográficas. Ou seja, por mais que até soubesse desenhar a cena pensada sem uso de fotografias, não conseguia me desvencilhar disso, pois o hábito... ou talvez o vício era maior.
Aqui, vale uma leve parada para melhor explicar e vocês, de alguma forma, visualizarem uma analogia que quero compartilhar: imaginem um objeto de maestria, de beleza (de desenho, no caso), onde você está atado totalmente a essa intenção, sem na realidade, ter absoluto ou quase absoluto domínio sobre ela, ou seja, você está preso, verdadeiramente, sem maestria alguma, apenas, na vontade, eterna busca de algo que te prende.
Tratava-se dos anos noventa, e a internet estava a milhas e milhas da comum existência doméstica como é hoje em nossas vidas, portanto, para trabalhar com as referências fotográficas, tinha no estúdio pastas e pastas com fotos recortadas de jornais, revistas, folhetos e o que mais fosse possível: corpos e faces masculinas e femininas, roupas, carros, casas internas e externamente, lugares, enfim, tudo que fosse possível ter para referência.


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