Hoje quero compartilhar com vocês uma breve história do desenvolvimento de uma capa de um gibi (vou escrever gibi, vai!), que é À meia-noite levarei a sua alma, republicado pela Editora Tábula no final de 2025. Trata-se da terceira publicação dessa hq, e quem acompanha meus trabalhos sabe, trata-se da adaptação do clássico filme de terror nacional homônimo do cineasta José Mojica Marins, o Zé do Caixão de 1964, sendo que a primeira publicação do gibi aconteceu em 1995 pela editora Nova Sampa.
Essa imagem ao lado é da primeira publicação e ela foi totalmente criada pelo próprio José Mojica Marins. O curioso (e daqui a pouco explico o porque dessa curiosidade) é que naquela época, em conversa com Mojica, expliquei que trabalhar numa releitura do cartaz original do filme, não teria um resultado bom, pois o cartaz tinha uma característica muito gráfica e que poderíamos partir para uma ideia do zero. Proposta aceita pelo Mojica que rapidamente intuiu essa imagem que, representava muito o universo de seu personagem e a posição que desfrutava naquele período em relação aos Estados Unidos, onde vinha fazendo um enorme sucesso pelo lançamento de seus filmes em fitas VHS por lá e o Brasil. A imagem, segundo o próprio, faz uma analogia com as predileções brasileiras e americanas e em se tratando de Zé do Caixão estava tudo muito bem condensado nessa imagem. Essa outra capa é da edição de 2017 (se não me falhe a memória) da Editora Marsupial/Jupati Books que traz a republicação da hq À meia-noite levarei a sua alma e a publicação na íntegra de Esta noite encarnarei em teu cadáver, adaptação do segundo filme do personagem lançado também nos anos sessenta. Essa hq havia tido uma publicação em 1997 (também se não me falhe a memória) pela editora Taquara, porém a adaptação fora dividida em capítulos e, devido a diversos problemas com a editora naquele período, só houve a publicação do primeiro número.Aqui, a capa embora mais impactante, traz uma ideia bem simples, mostrando o principal da publicação que é o personagem e o sintetizar de sua essência malévola.
E chegamos no ano passado, 2025, quando fui procurado pela Editora Tábula que pretendia republicar o clássico filme do Zé do Caixão. A ideia proposta seria uma nova capa para essa edição e me foi sugerido pelo Douglas, um dos diretores da casa, que fosse feito uma releitura do cartaz original, como a imagem dessa arte estava fresca em minha cabeça, a sugestão foi imediatamente aceita, pois enquanto acertava detalhes, pude, de certa forma, desenhar essa releitura na minha cabeça, oque significava que a coisa em si daria certo.
Então vem o que comentei no início desse texto com vocês, lá em 1995, quando então trabalhava na edição da primeira publicação dessa hq, a ideia de fazer uma releitura me pareceu difícil, que não teria um bom resultado estético para uma capa de uma revista em quadrinhos. Mas é muito óbvio, que esse pensamento refletia o amadorismo e o limite que trazia comigo como desenhista, ilustrador, naquele momento. Pois, olhando hoje a arte desse cartaz, é claro que daria para fazer uma releitura. Mas foi como foi, e o resultado na época, em cima da ideia do Mojica e sua analogia Brasil - Estados Unidos + preferências, ficou ótimo pelo seu conteúdo, pela sua criatividade, mesmo que... bizarra!
Ao lado, o layout para a capa dessa edição da Tábula, embora alguns elementos da imagem original foram trocados, a ideia, a intenção, o clima, são os mesmos, inclusive o posicionamento do título.Assim como no cartaz original, a imagem traz luz para outros elementos além do protagonista Zé do Caixão, como a velha bruxa que aparece no início do filme e em determinado momento próximo ao final, uma das vítimas do inescrupuloso agente funerário, que se enforca, outra que tem seus olhos furados e por aí vai.
Aqui, a arte finalizada da capa para a edição e a qual eu julgo, minha melhor leitura tanto no desenho, como na cor, embora, claro, todas as anteriores tenham seu peso e significância, principalmente pela época em que foram publicadas. Vale compartilhar com vocês o grande interesse nas cores fortes, com boas doses de psicodelia que gosto muito de usar em meus trabalhos, seja qual gênero de história for, como a cor do sangue nos olhos de uma das vítimas do Zé do Caixão, num vermelho forte, bem diferente da cor real, e neste caso foi uma influência e homenagem aos clássicos filmes de terror da clássica produtora inglesa Hammer.
Enfim, um processo de trinta anos para interpretações e entendimentos de uma arte de capa para um mesmo produto.




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