24 de agosto de 2025

COISAS DE JAGUAR

 

            Conheci o Jaguar, no final dos anos noventa... ou talvez bem no início dos anos dois mil ... memória quase zero... mas era o período em que trabalhei como ilustrador das revistas Sexy, G Magazine e Set, da então editora Rickdan. Trabalhava diretamente com o jornalista Licínio Rios, grande editor, com quem aprendi muito, muito e foi por causa dele que criei a Tianinha nesse mesmo período. Uma ocasião, tive uma reunião editorial com ele e fui até a Rickdan (nesse período ainda tinha esse troço de reuniões presenciais) e estava numa pequena sala de espera, aguardando para ser atendido, quando me sai o Licínio, pedindo desculpas, mas teria uma reunião meio rápida com o Jaguar que estava de passagem por São Paulo e tinha que acertar umas coisas com ele e, se eu não me incomodaria de aguardar um certo tempo. “Sem problemas” respondi, mas naquele entusiasmo interno “Caramba, o Jaguar!!!”. O Licínio me informara que ele estava no banheiro e que a coisa não iria demorar. Mal acabara de dizer isso e vem o Jaguar saindo do banheiro e fomos apresentados, logicamente ele já soltou aquela frase básica, “Lavei as mãos, viu?!” Pensando agora, vindo do Jaguar será mesmo? Trocamos um papo rápido ali e em seguida os dois entraram para a tal rápida reunião. 

            Passaram quinze minutos e volta Licínio me chamando para participar do papo. Delícia de conversa, que se estendeu acredito que umas duas horas. Ver aquelas duas feras conversando, Jaguar, criador do “Pasquim” e de tanta coisa... tremenda... era só observar e aprender... e claro, a conversa misturava de tudo, temperado com um lado debochadamente pessimista que o Licínio tinha (esse querido amigo já há tempos foi para outras redações) e o deboche escancaradamente humorado do Jaguar.

             Nos encontramos outras vezes, não me recordo em que lugares foram... um deles, com certeza, na Bienal de Quadrinhos de Curitiba... (memória quase zero...). Sempre um bom papo. Porém, nessa primeira vez houve um detalhe que obviamente me chamou a atenção, o Jaguar saíra do banheiro na redação, com o zíper da calça completamente aberto e a calça molhada com respingos (seria do “lavar as mãos”??) e assim ficou o papo todo e assim foi embora.

            Passado esse momento, ficara ali na redação para a tal reunião com o Licínio e não me detive em comentar esse detalhe com ele: “Coisas de Jaguar, meu amigo”, respondeu ele, “Vai ver até percebeu isso... coisas de Jaguar, vai saber...”.



10 de agosto de 2025

UMA BOA PROSA SILENCIOSA


 Dias atrás fui dar uma caminhada em uma praça muito bonita aqui no bairro que moro em São Paulo, a Pompéia, e essa praça, que frequento há muitos anos, levei o Gabriel, meu filho, muitas vezes, desde nenezinho para passear, se deliciar com aquelas tardes de sol abençoando a gente. Uma praça muito bonita ao qual tenho muito carinho. Meu filho ainda hoje, vez ou outra, vai jogar bola com uns amigos numa quadra que tem por lá. Eu já não vou mais tanto. Porém, dias atrás, como disse, fui dar uma caminhada nessa praça e revi uma velha amiga que está lá silenciosa, mas que muitas vezes nos comunicamos... numa frequência própria de quem, como eu, às vezes, só quer desfrutar um momento assim... com essa velha amiga. E fez um bem danado revê-la.

4 de junho de 2025

CELEBRANDO UM GRANDE MESTRE

Com Shimamoto durante um evento promovido pela Editora Criativo em uma hamburgueria em São Paulo

Acredito que como a maioria das pessoas que ficaram amigas desse grande mestre, a coisa toda ocorreu instantaneamente, no primeiro bate-papo trocado. Comigo foi assim em 1989,fazendo meu check out d'um hotel na cidade mineira de Araxá onde estava por ocasião de um evento de quadrinhos que estava acontecendo lá e ele fazendo seu check in no mesmo hotel. Grande mestre absoluto Júlio Shimamoto. Mais que influenciar, me inspirou, antes e hoje ainda, pela sua inquietação, pela sua grande cultura e pela sua arte sempre à frente. A gente tem que reverenciar.

1 de junho de 2025

TRABALHANDO NA ADAPTAÇÃO DE UM CLÁSSICO GÓTICO

          Em 2019 li pela primeira vez o clássico conto de John Polidori, O vampiro, e, embora conhecesse o enredo e a história real que originou essa obra, nunca cheguei a ter interesse na leitura. Porém naquele período estava muito interessado em obras pulps, peanny dreadfulls e temas desses gêneros. A história real conta sobre a noite chuvosa num nobre casarão na Suíça, onde Mary Shelley, Percy Shelley, Lord Byron e seu médico, John Polidori, que num jogo para ver quem pensaria a história mais assustadora de terror, viram nascer pela mente de Mary Shelley, a obra clássica definitiva, Frankenstein, mas também, foi nessa noite que nasceu esse outro clássico, que serviu de base para muitas outras obras futuras como Drácula de Bram Stoker e Carmilla de Sheridan Le Fanu.

        Essa leitura me impactou muito, pelo caráter da história em si, seus personagens e, principalmente, mesmo influenciando obras clássicas do gênero, ainda assim trazia suas diferenças, suas qualidades únicas. Foi então que já em 2020 em conversa com o pessoal da editora Ultimato do Bacon, propus a quadrinização fiel desse conto de Polidori. Sem querer fazer releituras, pois, a obra para mim era é tão perfeita que dispensaria (pelo menos para mim) um outro olhar e assim, foi publicada em 2021, inaugurando a editora e abrindo a coleção Escafandro, que por sinal, está aí até hoje com grande sucesso de vendas. 

Quatro momentos da minha adaptação.: primeiro o rafe da página, a finalização no nanquim , depois ganhando cores da Thaynan Lana e por fim legendada.

30 de maio de 2025

UM FRANKENSTEIN QUE QUASE ACONTECEU

 

Uns anos atrás, produzi para editora chilena Origo Ediciones, adaptações de alguns clássicos literários, Tarzan dos macacos e Robinson Crusoé. Uma outra adaptação que chegou a ser cogitada e esboçou-se algumas ideias foi justamente Frankenstein de Mary Shelley, aqui com cores do Omar Viñole. A coisa toda acabou não acontecendo, mas ficou esse registro d'um estudo de possível capa.

2 de maio de 2025

COMO QUASE TODAS AS MANHÃS

 

          Como faço praticamente quase todos os dias, quase todas as manhãs, por volta das 7:30, começo os trabalhos. Aqui captado, uma manhã meio friozinha, já iniciando mais uma produção encomendada. Uma adaptação de autor brasileiro.

           Breve comento aqui.


 

30 de março de 2024

O DIA EM QUE A CRIATURA FEZ A FESTA COM SEU CRIADOR

Fotos Manoel Souza

  

   Em meados dos anos dois mil, durante uma das entregas do prêmio anual Ângelo Agostini, que premeia os melhores de cada ano anterior dos quadrinhos nacionais, estive presente com minha esposa para, além de assistir o evento, celebrar alguns amigos laureados. Minha esposa, embora ligada ao mundo artístico, trabalhava então como atriz de teatro, conhecia muito pouco do universo das Histórias em Quadrinhos e naquele momento, muito menos do universo da produção nacional, mas estava entusiasmada pelo evento em si e principalmente pelo fato do teatro do Senac do bairro Lapa aqui em São Paulo, localidade onde naquele período algumas das premiações do Ângelo Agostini foram realizadas, encontrava-se lotado. Público interessado nas premiações, fãs, amigos e parentes dos artistas em destaque. 

            Durante um determinado momento da cerimônia, um artista da velha guarda recebeu a homenagem de Mestre do Quadrinho Nacional pela vida dedicada à Nona Arte e pelo conjunto de sua obra, e foi então que um determinado ilustrador (por razões óbvias não direi o nome) subiu ao palco para receber o prêmio. Com uma mão fortemente enfiada no bolso e outra segurando o troféu, andava para todo o lado do palco, provavelmente nervoso e ao mesmo tempo tímido pelo momento, discursando dos infindáveis problemas da área, da dificuldade de se produzir e vender quadrinhos no país, da falta de dinheiro, do não reconhecimento que vem da mídia, do público e às vezes da própria classe e uma série de outras lástimas, que passado todos esses anos não me recordo. Daquele período para hoje a situação deu uma razoável melhorada, diga-se de passagem, inclusive com um Big Bang fabuloso de novos talentos de todos os gêneros, escrevendo, desenhando e publicando com uma qualidade estrondosa. Mas voltando ao palco do Senac, a fala do então Mestre, estava carregada de razão e sim é importante levar ao público a dificuldade de se produzir essa arte. Não há dúvida. Porém, estávamos em um evento de celebração onde, apesar de tudo, estamos aqui, fazendo de um jeito ou de outro. A premiação em si, era e ainda é por si só um ato de fé, de resistência e isso é o mais importante. Foi durante esse desamparado discurso que minha esposa virou-se para mim e perguntou: “Laudo, mas é tão ruim assim mesmo?”. Não me recordo o que lhe respondi e passado todos esses anos nem importa mais.

            Aquele momento ficou durante um período na minha cabeça. Embora compreendendo perfeitamente a cabeça do meu amigo “mestre” laureado, achava que o canto deveria ser de vitória, de crédito, de ir adiante apesar de tudo. Era preciso promover algo totalmente anárquico daquela tristeza e no future que habita o coração de muitos artistas. Afinal, criamos, geramos ideias, mundos, personagens, geramos vida, mesmo que no papel. Fazemos arte e o principal é contrariar mesmo aquilo que é fato e regra a favor e contra nós. Foi nesse sentimento que pensei, caso ganhasse algum prêmio nos próximos anos, promoveria algo no durante o evento de entrega dos troféus, algo que mesmo de um modo simples e pequeno, mexesse pelo menos com a entrega do prêmio onde, mesmo laureando artistas e obras, às vezes a melancolia perdurava em alguns casos específicos, como o citado. 

          Entramos em 2009, um ano depois dos acontecimentos, por uma brincadeira da vida, fui premiado na categoria Melhor Desenhista Nacional e claro, toda aquela intenção inspirada pelo mestre, teria que ser parida, vir à luz. Como se diz, vamos bagunçar o coreto!          

        
  A série da minha personagem
Tianinha acabara de entrar em seu nono ano de publicação ininterrupta dentro da revista Sexy Total. O fotolog (sim é coisa antiga, crianças!) da personagem que vinha mantendo, tinha uma média de duzentas a trezentas mil visualizações por mês. Um sucesso! Uns três anos antes eu havia dado uma entrevista para o programa do Otávio Mesquita no SBT, falando sobre a personagem e na ocasião, foi pensado entre eu e a produção levarmos uma garota loira se fazendo passar de Tianinha, enquanto acontecia a entrevista que seria


feita dentro de um motel. Nada mais propício. A lembrança disso trouxe-me a inspiração necessária: iria levar uma garota linda, sexy e loira, a própria Tianinha para sair em meio ao público para subir ao palco e me entregar o prêmio. A ideia foi levada até Worney Souza, um dos organizadores do prêmio que adorou a ideia e assim aconteceu na data de 14 de Fevereiro de 2009. O público presente que lotava o teatro do Senac, foi surpreendido com a atuação de uma amiga, Arielle, atriz, que cobria todos os requisitos que a personagem pedia, se fazendo passar pela própria Tianinha. Interagindo com os presentes, saindo de algumas situações e controlando todo o ambiente que acredito, a própria se real fosse (mas será que ela não é real mesmo??), não teria feito assim. E para o meu espanto, os presentes julgavam eu mesmo desconhecer a armação toda. Sim, nota dez para a ação!!

           Mesmo tendo engendrado toda essa deliciosa situação, foi algo inesquecível e saboroso ganhar um prêmio entregue pelas mãos de sua própria criação, principalmente sendo ela a própria loirona. 

           Por outro lado, mais uma vez reitero que entendo a dor, o desalento, a decepção de muitos amigos e conhecidos contemporâneos sobre o árduo caminho de se fazer quadrinhos, mesmo hoje com um cenário melhor. Ela é pertinente. Mas, podemos ser maiores que isso, podemos enxergar a possibilidade. O tempo vem mostrando que sim. Os novos autores que vem surgindo pela estrada dizem que sim.E é nisso que devemos apostar.

          Curiosamente, alguns poucos meses depois a série da Tianinha foi encerrada pela editora. Fechava-se a era das revistas masculinas, as revistas de mulher pelada, ao qual a série de hqs da loira pertenceu durante nove anos. Encerrei ali minha relação com a personagem (mesmo tentando trazê-la de volta numa série independente em 2017 que não aconteceu) e qual melhor forma de nos despedirmos, criador e criatura, que trazendo essa parceria para interagirmos com o público?

Página da série da Tianinha no período da revista "Sexy Total"