A proposta dessa sequência me foi trazida pelo próprio criador da personagem e da história, Ataíde Braz, justamente durante um bate-papo na CCXP de 2023 (se não me falhe a memória). Amigos há longa data, pelo menos desde os anos noventa, sou um tremendo admirador desse pernambucano talentosíssimo que é o Ataíde, por muitas histórias curtas suas que li, como obviamente pela "Mulher-Diaba" original feita com um cara de quem sou fã incondicional que é o Flavio Colin, mas principalmente por "Drácula, a sombra da noite" feito em parceria com sua esposa Neide Harue.
Proposta desafiadora, por mexer em um clássico dos quadrinhos nacionais que é a obra original, por ter o peso dos desenhos do Flavio Colin e claro por se tratar de uma tremenda história desse grande mestre da escrita, que é o Ataíde Braz. Essa "intimidação", vamos dizer assim, aconteceu nos primeiros momentos da proposta, nos primeiros cinco minutos, mas logo transformou-se no delicioso desafio de dar à minha leitura sobre o universo geográfico que essa saga acontece e, principalmente minha interpretação visual de Maria, a "Mulher-Diaba" e do próprio Cramulhão, coprotagonista dessa aventura.
Nunca havia trabalhado antes com esse gênero de histórias envolvendo especificamente o cangaço, havia passado perto, trabalhado em narrativas próximas , como é o caso do personagem Vérnio de "O santo sangue" (nesse caso específico fui autor do roteiro e ficando à cargo de Marcel Bartholo, a arte). Então além do desafio de criar a minha versão de um universo já pré-estabelecido, havia também a experiência de me aventurar por um gênero que gosto muito e que muito influenciou-me através do cinema, como o clássico "Deus e o Diabo na terra do sol".
![]() |
| Ataíde Braz, roteirista e criador da Mulher-Diaba |
algo comum em todas minhas personagens anteriores, independente se tenha sido eu o criador e roteirista. Curiosamente (ou talvez nem tanto assim) ao meu gosto pessoal e como criador, o rosto da personagem foi acertado de primeira, embora sem consultar a opinião final do Ataíde, o criador da Mulher-Diaba, obviamente que seria o dono do sim ou não para tocar a personagem visualmente. Curiosamente, com uma sincronicidade incrível, no mesmo dia que desenhei o concept da personagem, Ataíde enviou-me uma mensagem autorizando e dando completa confiança na forma que eu representaria a personagem e que seria muito importante a minha leitura da mesma e não me prendesse à visão do Colin. Isso foi um primeiríssimo sinal que o caminho estava certo.
Do roteiro original de "Mulher-Diaba no rastro da perdição" para a quadrinização tomei a liberdade de expandir sua narrativa visual, deixando com mais páginas que o proposto inicialmente na narrativa escrita, proporcionando um clima contemplativo do cenário que se apresenta em várias página, pois a história quase que toda acontece fora de ambientes fechados, então o agreste e mesmo o tempo chuvoso num sertão árido, que acontece do meio para o final, são personagens importantíssimos para a trama. E justamente a força desses personagens esta em sua ação silenciosa.
A trama segue os acontecimentos posteriores a "Mulher-Diaba no rastro de Lampião", porém ela também retorna, antes dessa primeira história, contando como o Cramulhão fica desejoso da Maria, para que assim fique claro toda essa questão na saga dessa guerreira do sertão.
O álbum ainda segue sua trilha de lançamento mesmo fazendo já alguns meses de sua publicação e assim espero que vá por mais um bom tempo, despertando interesse nos leitores que conhecem e os que desconhecem a versão primeira. A Mulher-Diaba aqui, desta nova hq, mesmo sendo uma continuação de uma obra originalmente publicada há mais de trinta anos atrás, segue seu caminho por si e assim tem que ser. Já o Ataíde Braz, preparou a terceira e derradeira história da Mulher-Diaba fechando todas as arestas. E acreditem, o clima no geral só esquenta com novos e velhos personagens das duas histórias se encontrando e se conflitando nesse final, mas, claro, isso ficará para um outro momento.
O cuidado editorial da Trem Fantasma foi impecável. E como disse, se lá atrás, namorava a ideia de publicar pela casa, não há melhor estreia que essa.
Para quem quiser adquirir esse meu novo trabalho é entrar em contato com a editora através do seu site .


