14 de dezembro de 2025

QUANDO ALGUMAS COISAS REAFIRMAM O PORQUE DE SE FAZER


      Dias atrás, durantes algumas postagens que fiz comentando sobre minha participação na edição 2025 da CCXP, escrevi sobre como esse ano havia extrapolado a quantidade de autógrafos e consequentemente de pessoas, que trouxeram tanto a edição integral como os três volumes de Yeshuah. Mas realmente a coisa pegou bonito. Foram 42 autógrafos entre quinta e domingo, sendo que 38 foram para a edição compilada (Yeshuah absoluto) e quatro para as edições em volumes. Gente de todos os cantos do país: Curitiba, Belo Horizonte (uma parte turma do grupo do WhatsApp do canal Fora do Plástico), Bahia, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, enfim, bacana demais!!! Quero agradecer imensuravelmente e de todo o coração a cada um de vocês e, com certeza absoluta falo isso também em nome do parceiro na arte-final dessa obra, o Omar Viñole.

Mas, peço a gentileza a todos vocês que levaram seus volumões do livro, para deixar um agradecimento especial ao “pai da Bia”, que foi responsável por um dos momentos mais marcantes, sensíveis, da minha vida e da minha carreira como autor. Como artista. O Clenio...
Bia, faleceu há quatro anos, tinha 15 anos, deixando aquele vazio imensurável no coração, na vida de seus pais... em especial, no Clenio, e foi ao levar unicamente um exemplar de “Onde tudo está” na CCXP, terceiro e último volume do Yeshuah, que esse pai notou que dentro da edição havia uma pequenina lembrança da filhinha que ele havia esquecido que estava lá: um marcador de livro, feito a mão por ela... a conexão aconteceu ali... como se um recado da Bia aos pais, como disse ao Clenio, dizendo que “está tudo bem, que a vida, enfim, de algum modo deve seguir em frente”. Claro, a emoção se espalhou naquele pedaço de universo de duas pessoas juntas conversando. E eu agradeci muito a esse rapaz por de certa forma, ter sido responsável por esse elo entre pai e filha. Não há muito mais o que dizer, nem quero. A não ser agradecer mais uma vez e em público ao pai da Bia, e à própria Bia, por esse momento... tão... bonito... encantado... Espero que pai e filha fiquem bem.

Grato a ambos, por ensinar-me mais um pouco e por ter podido participar desse breve encontro.
Por isso a arte é fundamental.

8 de dezembro de 2025

AUTOGRAFANDO EXEMPLARES DO YESHUAH

Com o Leonardo, um dos tantos leitores da hq que estiveram presentes

Não falha! Todos os eventos de quadrinhos/cultura pop que participo, seja em que local for do país, sempre tem leitores que trazem seus exemplares de Yeshuah absoluto para eu autografar. É um negócio que me deixa tremendamente emocionado, lisonjeado, feliz, enfim, não tenho adjetivos. Nessa edição de 2025 da CCXP a coisa extrapolou, pois a quantidade de Yeshuahs que autografei nesses dois dias de evento foge a regra. Gente de Curitiba, Belo Horizonte, Bahia, Rio de Janeiro. Pessoal encara horas de carro e ônibus para vir ao evento, trazendo em suas mochilas/malas exemplares (às vezes mais de um) meio pesadinho, pois o livro tem 500 páginas, capa dura, aquelas coisas para ganhar um autógrafo em suas edições. Quero de todo meu coração (e com certeza, em nome do Omar Viñole, meu parceiro nesse livro) agradecer a todos vocês pelo imenso carinho para com esse trabalho. Afinal foi feito para vocês.

3 de dezembro de 2025

UMA ESQUINA DE MINAS PARA O MUNDO E PARA OS QUADRINHOS TAMBÉM

  


             No final da primeira década dos anos dois mil, a ideia para um novo trabalho em quadrinhos veio de maneira arrebatadora e simplesmente se instalou em minha cabeça na forma “nem sei como, mas vou fazer isso!”. Transpor para as hq’s a história (ou parte dela, pois além de muita gente envolvida, há muitos fatos ocorridos, ou seja, muita coisa para se contar e difícil de colocar tudo em um livro em quadrinhos) dos músicos, compositores, cantores, poetas, gente comum, ligadas ao movimento musical Clube da Esquina, encabeçado por Milton Nascimento e o então jovem Lô Borges que em 1972, pariram uma obra prima da música brasileira e mundial, o disco referido, Clube da Esquina.

            Descobri o som dessa turma, ainda pré-adolescente, por volta de 1976, através de discos posteriores ao Clube, lançados naquele período como Geraes do Milton, A página do relâmpago elétrico, um negócio arrebatador que ainda hoje toca lugares de minha alma que é difícil de exprimir em palavras, ah, esse é o título do primeiro disco do Beto Guedes e por fim, o antológico disco do tênis do Lô. Aliada a uma música de melodias um tanto complexas, com arranjos misturando pop, rock, barroco mineiro, jazz e outras sonoridades com uma poesia direta e profunda, esses caras do Clube da Esquina foram meus primeiros gurus espirituais, antes de qualquer outro tipo de contato intelecto espiritual que viria a ter bem mais para frente com caras como Gurdjieff, Ram Dass, Krishnamurti, Chico Xavier, Anne Besant e por aí vai. Como disse, a poesia dos letristas mineiros como Ronaldo Bastos, Fernando Brant e Marcio Borges, vieram antes, se instalaram, semearam coisas, bem num período de descobertas, da sensibilidade se aflorando e, mesmo não compreendendo naquela ocasião, muito do que queriam dizer aquelas letras, aliada a melodias sublimes, sonoras, de sons arrebatadores, o sagrado e o profano davam as mãos e iam dançar nos meus campos do inconsciente. Claro, meu e de tantos e tantos.

            E já que naquele período da arrebatadora inspiração de contar um pouco da história desse famoso clube, veio de forma contundente, ocorreu algo que algumas outras vezes já havia acontecido comigo, como se dizia, as pedras vão se encontrando e comigo algumas vezes aconteceu assim. Curiosamente, o fotógrafo Juvenal Pereira, responsável por uma boa parte das imagens que estão no interior do antológico disco, era meu vizinho aqui no bairro da Pompéia, em São Paulo, e frequentávamos uma pequena loja de discos e cd’s antigos aqui do bairro, onde papeávamos muito com o proprietário, aliás, o gasto de conversa sempre foi maior que com a matéria prima da loja, porém, Juvenal e eu,  nunca havíamos nos encontrado lá e foi em uma das conversas com o proprietário que comentei sobre a tal intenção de criar uma hq sobre o Clube, e ele justamente comentou sobre meu ilustre vizinho. Literalmente ele morava muito próximo de mim. Enfim, ponte feita, conheci esse outro grande mineiro, de simplicidade e talento nas mesmas proporções e ficamos amigos de anos e poucas conversas. Curiosamente ao apresentar a ideia para o Juva, como prefere ser chamado, falou-me que o Marcio Borges, grande parceiro de obras primas do Milton como a própria música “Clube da Esquina”, entre tantas outras, estava justamente buscando algum desenhista para levar para os quadrinhos alguns momentos da história de toda a turma, para um projeto que se esboçava que seria o Museu Clube da Esquina. Uma proposta que de início seria virtual, vinculada através de um site ligado ao Museu da Pessoa, para posteriormente virar algo mais real, físico, com local e tudo mais.

            Em uma fração de segundos, posso dizer assim, conheci o Marcio, sua mui simpática esposa Claudia e os outros membros desse panteão sagrado da música: Fernando Brant, outro grande parceiro letrista, Beto Guedes, Lô e Telo Borges, Wagner Tiso, Toninho Horta enfim, muitas trocas de informações para colher material para desenvolver essa primeira parte do projeto: inicialmente foram desenvolvidas treze páginas, onde cada uma contava momentos da vida não só do Milton, mas como dos outros, não só histórias de como algumas canções clássicas da música brasileira foram criadas, exemplo “Travessia” música feita por Milton em parceria com Fernando Brant, pedra angular na carreira do cantor e compositor, ou “Manoel, o audaz” histórica canção de Toninho Horta com também letra de Fernando Brant, que fala sobre o icônico jipe de Brant batizado carinhosamente com esse nome próprio. Enfim, depoimentos levantados individualmente que se somaram ao livro Os sonhos não envelhecem do Marcio Borges que foi a bússola para esse projeto. As treze páginas entraram no ar, mas logo em seguida veio a ideia de ampliar esse “horizonte mineiro” e transformar aquelas páginas on-line num livro com mais histórias, inclusive de pessoas como dona Maricota, mãe do clã Borges, por exemplo, “criadora” do termo Clube da Esquina ou da lendária Dona Olímpia, figura mitológica que perambulava pelas ruas de Ouro Preto e que, posteriormente virou tema de uma música de Toninho Horta e Ronaldo Bastos. As páginas se expandiram em histórias reais também que extrapolavam a ideia original de uma página para cada caso, onde a intenção era contar mais que a história de Milton Nascimento e mesmo de seus amigos e parceiros, mas também de todo um momento histórico que viveu o país indo de meados dos anos sessenta até meados dos oitenta, e que aqui no Brasil, foi embalado pela música e pela poesia desses caras, Indo da celebração da amizade e da vida até a luta e a resistência ante uma terrível ditadura militar que arrastou o país por vinte anos.

            O gibi se chamou Histórias do Clube da Esquina, lançado pela Devir em 2011, teve um tremendo retorno de público e ainda hoje ecoa em vendas. Um gibi feito de fã para fãs. Contou ainda com cores do Omar Viñole. Na ocasião de seu lançamento, foi celebrado com uma sessão de autógrafos em Belo Horizonte, reduto da maioria dos membros desse honrado clube, em um local chamado Bar do Godofredo, que fica poucos metros acima da famosa esquina das Ruas Divinópolis com Paraisópolis no bairro de Santa Tereza, o bar pertencente então naquela época a um dos filhos do músico Beto Guedes, transpirava o clima do Clube da Esquina, em todos os sentidos, principalmente, claro, por trazer no centro de seu ambiente vários instrumentos musicais, para se criar bandas improvisadas para se tirar a curtir aquela sonzeira.

            Foi nessa sessão de autógrafos que não só eu e o Omar assinamos uma quantidade enorme de livros, mas da mesma forma os outros artistas do clube, então você tinha em um canto, Fernando Brant autografando livros, no outro Marcio Borges, no outro Beto Guedes, Lô Borges proseando e autografando,  ou mesmo pessoas amigas e não menos importantes na história do movimento como Silvana Guedes, primeira esposa do Beto ou o Juvenal “Juva” Pereira, amigo querido e a pessoa que havia possibilitado tudo aquilo. Coroando essa grande noite, apareceu Toninho Horta, que além de genial músico, tem um coração enorme, junto com a antológica cantora Alaíde Costa, que participara do disco Clube da Esquina em um incomparável dueto com Milton em “Me deixa em paz”. Ambos estavam em BH para uma apresentação no Palácio das Artes na capital mineira, mas naquele dia, deram uma escapada para celebrar o lançamento. Enfim, uma grande noite. Uma grande celebração ao lançamento de um trabalho apaixonado, que foi e ainda é esse meu quadrinho, a história dessas pessoas e sua relevância a história da nossa música e da nossa arte. Mas antes de tudo uma celebração a vida e ao existir.

            Recentemente Lô Borges, se foi. Setenta e três anos. Jovem para nossos atuais padrões, e muito mais jovem ainda, pela vitalidade e inspiração, estado que vivia constantemente. Com muita coisa a ser feito e sendo feita. Lô deixou um legado inestimável. Triste pensar em sua partida prematura. Mas a celebração que sua arte, sua música evoca é maior e será nela que vamos guiar nossa bússola. “O sol na cabeça” como nos diz a letra de seu clássico “Trem azul”. E todos nós seguimos sempre, de alguma forma, como as canções, como nossas histórias, como nossos quadrinhos, porque os sonhos... você sabe, os sonhos não envelhecem.

 

          

Bar do Godofredo em 2011, lançamento de "Histórias do Clube da Esquina". Da esquerda para direita: Marcio Borges, Fernando Brant, Toninho Horta, Laudo e Omar Viñole.
















*Texto publicado originalmente na Devir News de novembro de 2025